19 março, 2014

Vinagrada (ou a verdadeira razão que baptiza este espaço)

(texto que me veio à ideia ao ler este post

Ele, criança, seguia os movimentos das mãos da mãe que com gestos lestos preparava a refeição. Naquele tempo, ou a falta de conduto ou a chegada do suão determinavam o que comer. E era mais difícil superar a penúria do que suportar aquele vento quente que abrasava tudo. A faca afiada ia cortando em pedaços todos os ingredientes. O tomate aos quartos, os pimentos em finas tiras transversais, como que para ornamentar. A cebola picadinha, picadinha. O alho ainda mais picado e o pepino, depois de feitas as rodelas, iam sendo também cortados em pedaços, uns maiores outros mais pequenos, como se obedecesse o corte a regras geométricas, precisas. A criança não tirava os olhos dos gestos, embora fossem exactamente os mesmos dos que foram antes, e antes, e nos outros dias até ali. A mãe pressentindo-lhe o insistente olhar, pergunta-lhe "queres, ajudar?" Ele abanou a cabeça, esboçando um leve sorriso de agrado. A mulher pousou a faca, passou as mãos pelo avental e arrastou o banco para perto da mesa. Ele subiu, sozinho e um pouco a custo. "Pica aqueles coentros" disse a mãe, enquanto pegava na pequena bilha de barro, com pequenas pedras brancas embutidas configurando desenhos de flores mal talhadas. Despejou na malga um pouco de água. Mesmo muito pouca, pois o que contava era a frescura. Temperou com um fio de azeite e quatro colheres de vinagre, juntou-lhe óregãos e bocados de pão migados à mão. A criança estendeu-lhe a pequena tábua com os coentros, para que os juntasse. Sentaram-se e a mãe serviu, depois de acrescentar uma pitada de sal. Comeram silenciosamente a vinagrada.
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Mantenho o gosto de cozinhar e, lembrando-me desses tempos, peço sempre a quem me olhe, que me ajude e ... pique os coentros.