16 março, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 56 (classe média)

(ler conversa anterior)
«Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos...»

Na esplanada, a algazarra fazia-se em tom moderado. Uma voz se destacava, de quando em quando, lá da mesa das professoras, onde a conversa era acalorada. Discutiam-se comportamentos e definições do que era, seria, a classe média. 
- "Falam do seu poema", disse o engenheiro acariciando, distraidamente, o cão rafeiro. "Olhe, acho que estão a confrontar os comentários de ontem com os que tinham deixado o ano passado..." Concentrei-me, e apercebi-me que assim era. De repente, perguntou-me, mudando de assunto:
- "Correu bem? Foi aplaudido o seu discurso?"
- "Como sabe que fiz uma intervenção?"
- "Ao certo, ao certo, não sabia. Mas sabendo a responsabilidade que tem... correu bem?"
- "Fiz má gestão do tempo, não cheguei à parte fundamental, onde citava Álvaro Cunhal..." 
- "Citava o Álvaro? E qual a citação?
- "Se fôssemos dizer: não devemos entender-nos com ninguém que nos ataque, então não nos entendemos com ninguém. Todos nos têm atacado. Portanto é necessário ver que, embora todos nos ataquem, há homens que não são comunistas, que têm preconceitos anticomunistas, mas que podem vir a ter uma posição de cooperação connosco...", dito na Marinha Grande, em 1976
- "Exactamente o contrário do que dizia Kopler!"
- "Não exactamente! Mas haverá sempre alguém preferirá matar-me, a escutar-me..."
- "Alguém como a personagem do seu poema?"
- "Como a personagem do meu poema!"

8 comentários:

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde,
o engenheiro pela sua formação devia saber gerir o tempo, ou será que O Álvaro Cunhal o incomoda?
Abraço
ag

ematejoca disse...

Karl Popper estava a referir-se ao Ludwig Wittgenstein!

ana disse...

Apesar de tudo ainda podemos falar na esplanada mas até quando?
Pelo andar da carruagem cada vez há menos pessoas a ir à esplanada.

De outro registo respondo:
- Acha que o sol resolve as malvadez deste governo?
Vejo os pássaros, cheiro as primeiras flores mas...
Boa noite.:))

Janita disse...

O Rogério sabe a razão do desfasamento entre as opiniões dos que comentaram no ano passado o mesmo poema deste ano? Não é porque tenha havido grandes alterações na condições de vida dos cidadãos. É que surgem novos chavões e todos os repetem apenas porque sim, tipo: sou do contra e como tal tenho que contrariar!
Outros, não leem com atenção o que está escrito e foi dito, pelo engenheiro ou pelo seu interlocutor.
Quem fez a 'intervenção' e não soube gerir o tempo até citar Álvaro Cunhal? Seguir os links dava jeito, antes de emitir opiniões.
Pois, não admira que haja sempre
alguém que prefira matar-nos a escutar-nos!
Tal qual a personagem do seu poema! Se há pessoas que mantém um padrão de vida acima das suas possibilidades? Mas é claro que sim, sem generalizar, como é natural.
A sua personagem seguiu em frente e como ela muita gente!
O marido foi despedido? Enquanto o pau vai e vem folgam as costas!

Um beijo e boas intervenções!:)
Sabendo gerir bem o tempo. As citações de Cunhal não podem ficar por citar...

Maria João Brito de Sousa disse...

Tenho a certeza de que também no meu caso há quem prefira matar-me a escutar-me... só não entendo por que não têm a frontalidade do mo dizer serenamente antes de o fazerem...


Abraço!

O Puma disse...

Na verdade
a complexidade do simples
em conversa de esplanada
Abraço

heretico disse...

pois...

Santo António também pregava aos peixes - por alguma razão seria...

abraço

Cristina Cebola disse...

Olá Rogério!
Gostei muito do texto e do poema...reflectem bem a nossa sociedade.
Abraço!