23 maio, 2018

O último discurso de Júlio, não sei se antes se depois da partida

De certo modo parto, de certo modo fico. 
Parto, porque é essa a lei da morte. Fico, porque determinei ser essa a lei que imprimi para a minha vida. Podem-me continuar a ver em qualquer nesga de espaço, em espaço público, em espaço privado, em espaço lúdico, em espaço partilhado, em espaço do Estado onde também consto, até com a ironia devida. Podem-me ver enquanto lerem. Foram centenas de livros os que ilustrei com meus meus traços, postos em capas, postos nas suas páginas. Pedras? Quando olharem para elas, se não tiverem lá um meu risco, verão lá o um meu sorriso. De toda essa minha obra, peço-lhes que a dignifiquem toda, mas sobretudo a primeira. Não sinto que tenha envelhecido, mas não se pode ser jovem a vida toda. Ah, e não esqueçam a poesia, pois não há Homem, sem poema!
Não procurem este texto em algum lado, ele foi por mim inventado. Ou talvez não. Talvez ele tenha dito tudo, de forma dispersa. Neste caso, ter-me-ei limitado a juntar as palavras...