17 julho, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 40

Tenho este texto prometido desde domingo passado. Ele ensina-nos a ler Saramago e na sua leitura integral - A estátua e a Pedra - ele explica o fio comum que liga as suas escolhas e o porquê dos temas históricos, uma constante da sua (tão rica) produção literária. Coincidência ou não, dei comigo a pensar e a fazer coisas tão próximas do que diz Saramago que me inquietaria sobre a minha sanidade mental quanto a desdobramentos da minha personalidade não fosse o caso de, na maior parte das situações, a iniciativa ser por mim tomada e só depois verificada a coincidência. Não me refiro apenas às recentes metáforas sobre estátuas, refiro-me principalmente às razões que me levaram a escrever "Caminhos do Meu Navegar":
HOMILIA DOMINICAL

"…para mim é claríssimo e desde sempre o foi, mesmo quando eu ainda não escrevia livros, de que somos herdeiros dum tempo, somos herdeiros duma cultura, somos, para usar um símile que algumas vezes eu empreguei, como se estivéssemos numa praia, o mar está ali e há uma onda que caminha em direcção à praia e essa onda não poderia mover-se sem o mar que está por detrás e sobre essa onda que vem enrolando há uma pequena franja de espuma que avança em direcção à praia onde vai acabar. Eu penso enfim, para usar esta metáfora marítima, que somos nós a espuma que é transportada nessa onda e essa onda é ela mesma impelida pelo mar e neste caso o mar é o tempo, todo o tempo que ficou atrás, todo o tempo vivido que nos leva e que nos empurra. Vivemos uma apoteose de luz e de cor na relação entre o espaço e o lugar onde o mar está e somos essa espuma branca brilhante, cintilante que tem uma breve vida, uma breve cintilação. Isto pode fazer de mim alguém a quem a história preocupa, e é certo, a quem a relação com o tempo passado preocupa, e é certo."


José Saramago - In A Estátua e a Pedra