29 abril, 2010

Os meus contributos para a morte lenta da Indústria Transformadora

Não sei o porquê deste ar de quem tem sentimentos de culpa. Nem eles, nem os partidos que representam, podem ser culpabilizados. A culpa é minha. A morte lenta do aparelho produtivo tem, na minha descuidada intervenção, a principal causa. Os semanários poupam-me. Omitem as minhas culpas, mas estes vão aparecer como os principais salvadores.


Introdução – Se bem se lembram, já contei, fui enfermeiro graças aos testes psicotécnicos que me descobriram tal aptidão. Quatro anos de serviço militar. Passado à “peluda” em finais de 1971, não foi difícil arranjar emprego. Não potenciei a minha vasta experiência anterior adquirida em diversas actividades: como paquete num escritório; vendedor; revisor de textos num jornal; enfermeiro. Nem sequer quis utilizar a cunha do meu sogro, para ingressar numa seguradora. Quis uma função fabril: Programador de Trabalho. O que se seguiu foi o ingresso numa profissão aliciante que passou de Programador a Técnico de Organização Industrial e depois a consultor, atingindo o topo da carreira como senior manager nas áreas da consultoria em organização e gestão. Conheci apenas 4 entidades patronais, mas em 8 admissões. Como explicar esta incongruência? É simples: Saia de uma e entrava noutra de onde saía para regressar à primitiva. Fiz isto quatro vezes. Um verdadeiro boomerang, lançado para novos rumos e com regressos festivos e melhorados em salário, categoria e respeito profissional. Digo isto por vaidade pessoal? Não! Claro que não. Digo isto só para dar evidência de que este meu testemunho se baseia em competências reconhecidas e admiradas…

Uma carreira construída a fechar empresas – Ao fim do meu percurso profissional, faço o balanço e constato que de todas as empresas que me deram emprego (Ramalho Rosa, Ld.ª; G. Tournier, SARL ; NORMA; Coopers & Lybrand; PwC Consulting e Lisconsult) apenas esta parece ainda ter alguma actividade. Todas as outras ficaram pelo caminho...
Quase todos os projectos onde participei levaram ao encerramento de empresas de grande ou média dimensão ou a alterações profunda na sua missão. A lista é tremenda: Siderurgia Nacional; SAPEC; MAGUE; Companhia Portuguesa do Cobre; MJO; Fundição de Oeiras; A Reguladora; IPETEX; J.B. Corsino; Companhia Portuguesa de Trefilaria; Sociedade Portuguesa dos Sabões… Estas empresas tiveram o meu apoio em projectos inovadores visando replicar efeitos de produtividade e melhoria da qualidade em outras, por feitos de demonstração de boas práticas… As outras replicaram mesmo: ou já fecharam ou acabarão por encerrar. Os quadros seguintes dão a visão global dos efeitos da minha intervenção.

Entre 1990 e 2002 fechei várias empresas, as outras imitaram os meus projectos e vão fechando sob o efeito da minha competente intervenção. Porque os efeitos só se fazem sentir a médio prazo, as agências de "rating" chamam a isto uma economia em "morte lenta"

Claro que o impacto no emprego também me coloca na lista negra como principal causador de muitos dramas que vão por aí.

E o sector público? - Pois, também aí vão acontecer coisas. Tendo eu realizado projectos relevantes na CARRIS, STCP e INCM não se deverá esperar muito para... Não estas não fecham, privatizam-se. E como passei na Direcção Geral dos Serviços Prisionais, sem ter ficado em nenhuma das suas celas, nada me admira se não teremos presos em Estabelecimentos Prisionais privados... prontos para nos receber a nós (aos outros, não!).

Epílogo - Os dois senhores que irão salvar as trapalhadas que eu ando a fazer desde o 25 de Novembro, já chegaram a um entendimento, que podemos resumir assim:

    • Nada de reforçar o aparelho produtivo que eu derreti, iria dinamizar a economia, criar emprego e aumentar a base de incidência das receitas do Estado. Nada de fazer isso. Embora reformado, eu continuo por aqui e sou um perigo
    • Pelo lado da receita será melhor privatizar, sobretudo o que dá lucro
    • Irão reduzir os subsídios de desemprego, ver-se-ão livres dessa despesa
    • Irão fazer mais umas coisas, nem eles sabem bem o quê...

Serão os salvadores do Sistema. Ou aparecerão como tal...

8 comentários:

Anónimo disse...

Rogério, Brinca com aspectos preocupantes. Mas aceito. Só que, em minha opinião, o problema está em termos vivido acima das nossas possibilidades. Tivessemos tido juizinho e não estariamos agora nesta situação. Não percebo nada de economia, mas será necessário isso para entender o que se mete pelos olhos dentro...

Beijinho

Maiúca

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não me leve a mal, Rogéro, mas depois de conhecer a sua história, não o convidava para uma empresa minha. Bem, talvez faça uma excepção, se um dia estiver preso... a sua presença por lá seria certamente sinal de que em breve sairia em liberdade.
Bem... a brincara abrincar, foi dizendo aqui coisas muito sérias e que merecem reflexão.

Isa GT disse...

Pois a brincar a brincar, eu nunca vivi à grande, mas vi muito disso, sem nunca compreender como é que era possível tanto esbanjamento.
Nunca recebi subsídios de nada, nem de baixa, nem de desemprego, não me lembro do que são férias, porque se há trabalho, trabalha-se se não há, não se vai gastar o pouco que sobra em férias e agora dizem-me que devo não sei quanto e vou sofrer o mesmo que os que pediram empréstimos para irem às Caraíbas e andaram a pavonear o carrão, é certo que, pelo menos, gozaram e os certinhos como eu, acabam sempre por ser os tó-tós que nunca tiveram a lata de chupar o Estado (ou seja, os restantes portugueses)

Rogério Pereira disse...

Declaração solene:

Tudo o que escrevi a brincar era brincadeira, salvo as partes em que falei a sério,
nomeadamente:
-As empresas que me pagaram o salário foram mesmo essas
-As empresas que fecharam, foram-no por razões que a razão desconhece (nomeadamente, a minha)

Querida Maiúca, V. disse: "o problema está em termos vivido acima das nossas possibilidades." eu respondo:
O problema está em termos produzido abaixo das nossas necessidades legítimas...

Beijos & gracejos

Fê-blue bird disse...

Meu Caro ;-)
Sou leiga em matéria de economia, de política e de tantas outras coisas, só falo o que sinto, o que vejo e o me vai na alma.
Como a Isa disse e bem, há que trabalhe, estude, economize e o oposto.
Tenho assistido a tremendas injustiças para quem quem ter dignidade neste país.
Sempre fomos nivelados por baixo, não valorizamos os jovens empreendedores (pelo contrário apoia-se aqueles que nada querem fazer). O resultado só pode ser este, mesmo um leigo percebe isso.
Então, que raio é que eles andam a fazer em sucessivos governos desgovernados?
A brincar disse aqui muitas verdades.
Agora que são públicas estas suas suas "aptidões" convidam-no para o governo! ;-)
Um abraço

folha seca disse...

Caro Rogério

Apesar de já estar reformado, não se esqueça que amanhã faz anos que é trabalhador.
A proposito o Paulo de Carvalho tinha uma canção de que me lembro só do refrão: "Hoje não vais trabalhar, porque faz anos que és trabalhador". Queria posta-la lá no meu Largo, mas não encontro nada... nem a letra. O meu caro que é especialista em pesquisa talvez me possa dar uma ajudinha. Agradecia.
Abraço

Juliana Pires de Sousa disse...

Olá! Gostei da estratégia de sair de uma empresa e depis voltar para ela valorizado rs

Beijos

heretico disse...

afinal a culpa continua a morrer solteira ... rss

mas quem confessa merece perdão!

abraço