27 abril, 2010

Que fazia eu em Angola (1969/71) com uma arma na mão?

Uma longa introdução: Não esperem reportagem documentada dos factos, nunca dei por mim a percorrer destinos anotando coisas e fotografando paisagens de nuvens, de terra e de gentes. Não esperem uma análise ao conflito armado nem às políticas coloniais da época. Tudo isso faz o Joaquim Furtado, por vezes melhor do que eu faria com os recursos que lhe são dados. Não entrarei em grandes explicações tais como dos porquês da minha patente de Furriel Miliciano nem sequer da eficiência dos Serviços Psicotécnicos do Exercito que terão descoberto em mim competências de salvador, ao seleccionar-me a especialidade de enfermeiro. Este post não é isso. O que será não sei, mas pretendo deixar por testemunho que os Capitães de Abril só fizeram o que fizeram, graças a mim. É por isso que dedico, estas recordações mascarado de moço de 30 anos, a este seu autor já sexagenário. Sim, ofereço isto a mim próprio. Mereço!

Chegada a Luanda de um Vera Cruz sobrelotado de militares, pouco menos que gente (os salva-vidas estavam lá só para fazer pirraça)

11 Dias de viagem, chegada ao porto de Luanda no dia da 1ª alunagem. Dia histórico para a humanidade e para mim. Viagem distraída, imersa na ocupação voluntária e preocupada em juntar todos os conhecimentos possíveis nas práticas de enfermagem e actos médicos, no posto de socorros de bordo, O convívio com sucessivas equipas de médicos militares dos Serviços de Saúde. Permitiram-me aprimorar algumas técnicas de aplicação de agrafos e de pequena cirurgia. Eu, tinha de encarar uma colocação que tanto podia ser assim como assado, mas que me confrontaria, sempre, com a minha quase que irrelevante preparação. De outras coisas, retenho as condições em que viajaram os soldados ao visitar pisos inferiores sob a proa do Vera Cruz. Maricas como era, emocionem-me. Eles… Eles teriam tido a pior viagem das suas vidas. Tratados a um nível abaixo de gente certamente que não estariam em condições ideais para grandes actos de heroísmo…

Eu, lendo o livro mais volumoso, não procurava a evasão. Procurava naquelas páginas a razão de ser de estarmos ali

Estadia em Maquela do Zombo, sofrendo: Não era bem em Maquela mas a poucos quilómetros dessa vila, situada perto da fronteira do norte de Angola, que se situava o aquartelamento. Os primeiros meses foram de sofrimento (os seguintes também). Durante a rendição das unidades militares, houve alguma passagem de know how do estilo: “pouca confiança nesta gente” e registávamos mil ocorrências a comprovar os conselhos. Quanto a distracções? À pergunta sucedeu-se uma resposta longa, como quase sempre acontece quando se fazem perguntas estúpidas: “Dantes ainda se caçava alguma coisa de jeito. Hoje, se apanhares uma pacaça num mês, terás muita sorte. Contentem-se na caça ao “churrasco”(1), aí nas sanzalas (2). Mas nada de usar armas, os “secúlos” (3)não gostam e os sobas(4) costumam fazer queixa na sede do Batalhão. Se para nós militares a distracção tinha acabado para as populações locais esse recurso alimentar tinha-se esgotado há muitos anos. A guerra tinha dizimado todas as espécies animais em grandes áreas territoriais de Angola. Mas não foi isso que me levou a pensar que a situação não seria sustentável. Foi mais forte esse sentimento quando percebi que à passagem da nossa coluna militar os caminheiros, mulheres e crianças, afastavam-se da picada (5) e entravam capim dentro aí uns bons 10 metros, distancia considerada de segurança perante o risco de atropelamentos de ódio e vingança”. Foi igualmente forte quando, conferindo o material sanitário e o stock de medicamentos, dei conta de quantidades inusitadas de morfina. Que estaria aquilo ali a fazer? Quantos toxicodependentes saíram daqui ontem? Quantos andariam por aí, abastecidos pelos Serviços de Saúde do Exército?

Estadia em Maquela do Zombo, zombando – A partir de certa altura, foi o deboche (talvez a partir da altura em que passamos a cumprir efectivamente a missão e a ter de mandar grupos de combate para o terreno das operações). Diariamente, passavam na “instalação sonora” do aquartelamento todo o tipo de música entremeada com Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanháis e outros… Os oficiais passaram a frequentar a messe de sargentos que passou a ser apelidada por Universidade Livre do Reino da Roça (6) lugar de culto ao livro, à conversa solta e ao whiskey (que eu bebia com uma bala de G3 dentro simulando, pelo tilintar, a pedra de gelo que nem sempre havia). Quando apareceu a ordem de transferência para a região do Andulo eu tinha uma certeza: a complacência nestes comportamentos era sinal de que todos, do comandante ao soldado, estavam ali por razões que nada tinham a ver com o discurso oficial do regime…

(continua)

Notas

  1. “churrasco”, todos os animais com penas, eram designados assim
  2. sanzalas, aldeamentos (no centro e no sul são designados por kimbos
  3. “secúlos”, os mais velhos oa quais detèm vários poderes
  4. sobas, autoridade representativa dos negros junto da administração colonial
  5. picada, caminho ou estrada de terra
  6. roça, fazenda normalmente com plantações de café