28 maio, 2010

Plataforma petrolifera - As várias dimensões do desastre

São preocupantes as notícias difundidas no "Jornal da Tarde" da RTP1 (espero ver repetidas no "Telejornal"). São preocupantes não só porque o derrame continua, como também pelas causas que, a confirmarem-se, são sintomáticas das tentativas para conter o agravamento dos custos de exploração e, em consequência disso, o incorrer-se no aumento dos riscos ao nível da segurança ambiental, como parece ter acontecido...


A fuga de petróleo continua, que consequências para além dos impactos ecológicos?
Está por avaliar tudo. E tudo poderá ser o quê? A BP voltará a ser a mesma? As seguradoras vão assobiar para o lado? Quanto custará passar a explorar dentro de parâmetros aceitáveis de risco? Sejam quais forem as consequências em termos financeiros, estamos em presença de um risco elevado de aumento do preço do barril. Avizinha-se a prática de preços na ordem dos que chegaram a ser praticados no ano de 2008. Se tal acontecer. então:
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O Seu Mundo Vai Ficar Muito Mais Pequeno

Jeff Rubin, economista e autor do livro Porque É Que o Seu Mundo Vai Ficar Muito Mais Pequeno. Já lhe chamaram maluco, quando em 2000 previu que cinco anos depois o petróleo chegaria ao preço de 50 dólares por barril. Em 2005, calculou que três anos depois o barril iria ser vendido a três dígitos. A sua 'profecia' estava certa e por isso há quem já o considere um visionário. Acredita que em breve vamos dar um passo atrás na nossa economia.

Porque é que decidiu escrever este livro?
Escrevi-o porque quando a maioria das pessoas fala do pico do petróleo fala como se fosse o fim da civilização. Eu não acho que tenha de ser por aí. É o fim da economia global. E quero dar a conhecer esse meu ponto de vista.
Estamos a ficar sem reservas?
Não estamos a ficar sem petróleo, mas antes sem petróleo que temos capacidade de queimar. Todos os anos o mundo perde cerca de 4 milhões de barris por dia e consome 85 milhões. O que isso quer dizer é que temos de arranjar 20 milhões de barris por dia nos próximos cinco anos para que daqui a outros cinco possamos consumir a mesma quantidade que em 2010. Estamos a substituir petróleo low cost por high cost, além dos elevados custos ambientais das novas reservas.
O que aconteceu em 2008 vai voltar a repetir-se?
Antes da crise da Grécia, o barril estava a ser comprado a 85 dólares. E repare que a maioria das economias consumidoras de petróleo não está nas mesmas condições que estava antes de começar a recessão. O petróleo até pode voltar aos 40 dólares, isto se continuarmos em recessão, não digo que não. O que digo é que não podemos sobreviver como economia global se o preço do petróleo voltar aos três dígitos. E, quando isso acontece, a distância custa dinheiro. O modelo de economia global deixa de fazer sentido.
Quando é que isso vai acontecer?
Está a acontecer enquanto falamos. O petróleo esteve agora a custar 85 dólares por barril. Há três anos, esse preço seria um recorde inacreditável e agora é o que se paga quando metade do mundo está em recessão. Vamos chegar aos 150 dólares por barril. E não me parece que a economia esteja mais apta para lidar com esses preços do que estava em 2008. É por isso que acho que temos de mudar. Não faz sentido irmos buscar tudo à Índia ou à China porque os salários são mais baixos. O custo de importação vai ser mais caro. Aquilo que poupamos em custos de pessoal gastamos para trazer os produtos.
Vamos ter de nos habituar a outra forma de vida?
Sim, em tudo. No que comemos, onde trabalhamos, onde vivemos, como gerimos o nosso negócio, que tipo de trabalhos temos. Essas serão as mudanças que nos permitirão adaptar a preços de três dígitos. Mas não vamos deixar de comer. O problema é que nos Estados Unidos, Canadá ou Europa Ocidental metade dos terrenos agrícolas são hoje sítios pavimentados. As mesmas forças económicas que acabaram com as fábricas e as levaram para a China vão ter de reverter isso. Rendibilizar novamente os locais não porque o governo diz mas porque os preços do petróleo o dizem.
E acha que as pessoas estão preparadas para esta reviravolta?
A única vez em que concordei com George W. Bush foi quando ele disse "estamos viciados no petróleo". E estava 100% certo. Mas ninguém está mais viciado do que os norte-americanos. Contudo, é uma mensagem que as pessoas não querem ouvir. Preferimos fingir que conseguimos encontrar novas fontes de energia porque não queremos cortar no nosso consumo. Mas a chave não é encontrar uma forma de arranjar gasolina mais barata, a chave aqui é sair da estrada. Nisso acho que os europeus estão mais habituados. Pelo menos têm sistemas de transporte muito mais desenvolvidos.
Este é um problema comum a todo o mundo?
Sim. As pessoas têm de perceber que, num mundo onde as reservas de petróleo já não estão a crescer há cinco anos, conduzir, por exemplo, torna-se uma atitude de elevados gastos. Se vai haver 40 milhões de novos condutores na China e Índia nos próximos 10 anos, porque são estas as previsões, outros 40 milhões vão ter de sair da estrada. Isso vai acontecer nos EUA, Japão, Canadá, Europa Ocidental.
Que vantagens vamos tirar daí?
Vamos redescobrir muitos trabalhos que julgávamos terem acabado para sempre, principalmente de manufactura. As zonas verdes estão a voltar e, quer queiramos quer não, a nova economia vai ser muito mais verde do que a antiga. Preços de três dígitos vão fazer mais para diminuir a pegada carbónica do que mil acordos de Quioto. Vamos deixar de escolher.

Entrevista publicada no DN de 21 de Maio de 2010