21 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 45

Entre as pálpebras semicerradas, semiabertas
aranhas tecem invisíveis teias
Dos lábios ainda brotam sorrisos antigos
e os ninhos se aglomeram escondidos
por detrás das orelhas
O musgo invade-lhes as partes imersas dos corpos
Estarão mortos?, ou simplesmente há muito adormecidos?
------------------------------------------Rogério Pereira

HOMILIA DE HOJE
"A Terra rebentará, podemos tê-lo por seguro, mas não será para amanhã. Do que estamos a necessitar é de um bom susto. Talvez despertássemos para a acção salvadora."
-----------------------------------------------------José Saramago, in "Outros Cadernos..."
Imagem tirada daqui

17 comentários:

acácia rubra disse...

Estou à espera dele.

Vou-me assustar e gritar. Mas não serei só eu.

Beijo

Gisa disse...

Quando a força certa chegar, acordarão do longo sonho e, em meio a um sonoro bocejo, darão bom dia reclamando do pesadelo do qual finalmente conseguiram fugir. Sentirão o sangue aquecer de novo nas veias e se despirão da figura, quase amorfa, algo entre o mineral e o réptil, a qual haviam se impingido como disfarce de espera.
Um grande bj querido amigo e bom bocejo.

Guma Kimbanda disse...

olá Rogério!

o que me preocupa é a prol que deixo, pois por mim já não devo assistir a a pior do já assisti.
nada me surpreende, mas a preocupação pelos que cá estarão, sufoca-me!

kandandos... inté!

Isa GT disse...

O truque tem sido injectar... o susto em mini-doses ;)

Bjos

folha seca disse...

Caro Rogério
Não sei temporalmente quem escreveu primeiro. Mas complementam-se muito bem um ao outro.
Tenho duvidas é se um susto chega para o necessário despertar.
Abraço

Lídia Borges disse...

O seu poema tem o dom de transformar o que poderia até ser belo em algo mórbido e detestável.

A queitude é um obstáculo ao desenvolvimento, mas a actual parece não haver susto que a acorde.

Penso ser esse o sentido deste "post", mas também poderia ser outro porque o texto é, particularmente, poético, ainda que o poeta seja uma espécie de timoneiro que não se afasta do rumo predefinido.

Um beijo

Fada do bosque disse...

Quando despertarem do susto, aí sim, entram directos no pesadelo. Andar tantos anos descomprometidos daquilo que é fundamental, vai custar muito caro. Infelizmente, os ocidentais foram guiados para esse destino... é a condição humana... andar a dormir enquanto as coisas correm bem.
Como diz o sábio budista Deepack Chopra, os ocidentais têm os santos no céu, nós temos os nossos, a cruzarem-se connosco na rua.

Ana Tapadas disse...

O apelo, belo e agudo, que o poema transmite desagua numa interrogação indignada...
Em estranho mundo vivemos, meu caro.

bj

Sonhadora disse...

Desculpe entrar assim...sem pedir licença, mas passei e gostei do que li e tomei a liberdade de o seguir.

Deixo um beijo
Sonhadora

Rogério Pereira disse...

OUTRA VERSÃO DO POEMA, MAIS DE ACORDO COM (ALGUMA) ESPERANÇA (como parece ter sido sugerido)

Dos lábios ainda brotam sorrisos antigos
e no rosto sereno
desenha-se uma vontade oculta de voltar
O corpo, outrora apenas deitado,
jaz agora sob o musgo, de verde atapetado...
Deixou-se, com o passar do tempo, soterrar.
Acordará com um só susto ou gesto irado e brusco?
Se acordar, será que se solta?
Ou terá que esperar que tudo se desmorone à sua volta?

(O timoneiro faz o que pode e sabe...)

Lígia Guerra disse...

Amo sentir a energia criativa que exala do seu trabalho. Desejo que a sua semana seja FENOMENAL!!!

Beijos Av3ssos :-*

Lídia Borges disse...

Ao reler o meu comentário compreendi que ele pode ser interpretado fora do que quis dizer. Assim quando digo:

«O seu poema tem o dom de transformar o que poderia até ser belo em algo mórbido e detestável»

Referia-me à união do homem com a natureza sugerida na imagem no que isso tem belo pela busca da inteireza, da perfeição e do equilíbrio.
O Rogério opta por nos dar uma outra visão (e muito bem) em que o homem nos surge como um ser apático e dormente que não reage às injustiças sociais, aceitando-as como naturais, sem que realmente o sejam.
Não está implícito no meu comentário nenhuma crítica destrutiva. Deixo as minhas desculpas pela falta de clareza no que deixei escrito anteriormente.

Lídia

Rogério Pereira disse...

Minha cara Lídia,

Dividimos a razão ao meio? É que não deixa de ter a parte que lhe cabe: a imagem sugere isso que diz dela (e é muito bela). Mas sabe? Eu não sou um contemplativo. Ao dar dinâmica à figura, não posso deixar de "ver" o musgo a crescer e o corpo a afundar-se sem que tal lhe esteja na face...

Gosto sobretudo de dar a leitura mais escondida do que parece belo...

Não me deixe nunca de me comentar. É um estímulo de quem carece ser estimulado. Obrigado

Lua Nova disse...

Rogério, há sustos que matam: resolvem o mal pela raiz. Assim, quem sabe, uma mudança radical seja possível. Mas... será que para melhor?

Um conjunto perfeito vc criou com a citação de Saramago, seu texto e a imagem.

Beijokas e uma semana proveitosa, meu amigo.

jrd disse...

Saramago sempre e bem, mas quem assusta quem?

Abraço

ariel disse...

Gostei. Tudo muito bem configurado os dois textos e a bela imagem.

:))

aNaTureza disse...

Caro Rogerio,
sem palavras para tudo aquilo que por aqui se passa.
Sejam os posts, sejam os comentarios e respostas aos comentarios.
Inspiradoras partilhas, sentimentos, receios do adormecimento que nos cerca.

Poesia, lucidez...alguns gritos...

Gosto desta comunhao.