Foi há 25 anos, que nos deixou...Surrealista? Surreal ? Surreal é ter-me dado "A Gaivota", "Amigo" depois de me ter dado "Portugal". Escolho "A Gaivota", mas sem esquecer que quando fui à procura de respostas para a pergunta "Porque me sinto português", O´Neil respondeu-me com "Portugal". Mas a "gaivota"... é uma bela ilha num mar de contradições...
Gaivota (*)
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Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
----------------------------------------------------------------Alexandre O´Neill(*) O poema foi escrito para a vóz de Amália, outras interpretações muito dignas: Carlos do Carmo; Dulce Pontes; Ana Moura: The Gift (haverá outras...)
A poesia de Alexandre O´Neil não é surrealista, é sim, pura e simplesmente POESIA.
ResponderEliminarComparti-lho consigo, Rogério, nesta homenagem bem merecida.
Caro Rogério
ResponderEliminarConfesso que demorei tempo a gostar de Amália Rodrigues. Tive que aprender a ultrapassar preconceitos que tinha em relação ao "fado". Hoje ouço-a com gosto. Sim o poema é forte!
Abraço
Foste muito mais completo, Rogério!
ResponderEliminarTem graça pois estive para colocar Amália mas depois optei pela voz masculina! :-))
Alexandre O´Neill tem poemas lindíssimos!
Abraço
Há dias, numa conversa, falava-se da necessidade de catalogar a Arte e os autores segundo as escolas. Esta visão lembra-me os contadores (móveis) cheios de gavetinhas e dos quais se esquece que a gavetinha do cimo e que fica à direita de todas as outras só é a do cimo e está à direita porque há as outras. Resumindo: Arte é a arte influenciada e influenciável. Gostamos ou não porque a entendemos ou não.
ResponderEliminarRelativamente a "Gaivota" lembra-me a minha viagem para Angola, a bordo do Angola. Em águas internacionais, foram uns dias em que se cantou Zeca e todos os que, na altura, eram as vozes dissonantes.
"Se uma gaivota viesse..."
Beijo
Minuciosa formiga
ResponderEliminarnão tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.
Excelente "utilizador" das palavras, este O'Neill.
Quanto à Amália.... hum?!
Venho esclarecer um porco mais a minha afirmação no texto:
ResponderEliminar"gaivota"... é uma bela ilha num mar de contradições...". Se coloquei os três poemas, poucos mais colocaria e não colocava, de certeza, a letra da canção "Formiguinha Bossa Nova", que a Carol aqui trouxe. É a grande contradição do poeta, que (em grande parte da sua obra) passa de poeta a "utilizador" hábil das palavras... Sectores da sociedade letrada e instruída gostam (acho até que escrevia para eles). Eu acho deplorável, pelas ideias que ele deixa a pairar no ar. Grande poeta? Sim, mas com ilhas de beleza, rodeadas de lixo bem apalavrado, um pouco por todo o lado. Estou a ser radical? Talvez, mas lembro que usei palavras dele para, um dia, me sentir português...
O Neill era um poço de contradições, sem dúvida,mas deixou-nos grandes poemas que merecem ser recordados neste dia.
ResponderEliminarE não é vida, contraditória? Contribuo com o roqueiro Raul. Metamorfose ambulante.
ResponderEliminarabs,
Grande poema, grande poeta, o O'Neil.
ResponderEliminarFui buscar agora. Apontamentos biográficos ou se quiserem um perfil (possível)para O´Neil
ResponderEliminarEstamos de acordo muma coisa, O'Neill era contraditório. Ok, so what? em quê que isso o diminuiu enquanto GRANDE poeta? NADA!
ResponderEliminarNoutra coisa estamos em desacordo, o Rogério não é nada radical, na minha opinião, a questão é outra....
:)))
Cara Ariel,
ResponderEliminarJuro pela minha saudinha, e não estou a fazer figas, que o que penso sobre O´Neil está tudo lá e nos comentários acima. Se a sua opinião sobre o que eu, de facto, penso é outra, só lamento ter-me em tão má conta...
Ora, ora, já lá tem a respostazinha do outro lado, não percebo porque razão o facto de considerar que o Rogério não é radical, que reitero, signifique que o tenha em má conta...
ResponderEliminar:)))
Bela escolha, Rogério.
ResponderEliminarBeijinhos.