21 agosto, 2010

Perguntaram-me porque me sentia português... (3)

Continuo sem resposta e consultei um malmequer, a medo. Sei para que serve um malmequer. Meu avô, que em poucos anos me ensinou tudo na vida (o resto que aprendi, foram meros aperfeiçoamentos desses muitos ensinamentos), explicou-me que o malmequer nos tira dúvidas quando a razão não sabe encontrar respostas, em matéria de afectos.
Consultada a flor, pétala a pétala, à medida que me aproximava do botão amarelinho, meu coração ia ficando mais pequenino. No fim deu: "Tudo" muito perto do "Nada". Fiquei feliz. Fiquei com a certeza que a minha Pátria me queria. Só que a resposta fica adiada, pois a pergunta não era essa...
Foi então que fui tentar colocar as perguntas certas, aos meus poetas. Obtive respostas para todos os gostos. Mas, pensei, só existem cantos assim e profundos desgostos quando se ama muito. Se calhar, se meu país me desfolhasse, eu lhe retribuiria a pétala que há pouco me deu: TUDO!

I

"...Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós... ".

Alexandre O´Neil

II

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

Miguel Torga

III

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Manuel Alegre

IV

É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

José Carlos Ary dos Santos

V

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro (het. Fernando Pessoa)

Todos os extractos destes poemas foram retirados daqui

PS - Registo, com muito agrado, alguns contributos para a pergunta em aberto. O meu obrigado, mas ainda não sei porque me sinto tão aqui, quando são os poetas a lamentar o seu estar...