03 novembro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 38 (Memórias, com bichos)

(ler conversa anterior)
"A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciava como a uma criança. A velha toda a vida o pusera a distância. Dava-lhe o naco da broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: - Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho."
Nero, in "Bichos" - Miguel Torga

"Os homens e os cães aprendem imensas coisas uns com os outros"


A Teresa, a Gaby e a Ana, disseram um "olá" em coro à chegada do filho da Zita acompanhado da mãe. Eu acenei e velho engenheiro também. O cão rafeiro levantou-se ligeiro e correu ao encontro do garoto e foi um grande abraço. Grande e prolongado e depois correram e brincaram um com o outro, ali por perto matando saudades de ausências.
- Hoje, se bem reparo, parece-me ter-se zangado com o Gonçalo. 
- Nunca faço rupturas definitivas... apenas não achei oportuno citá-lo nem espaço para metáforas tão cifradas...
- Fala de bichos!, adivinhava este reencontro?, e apontava ao longe a correria.
- Quem tem filhos, tem de ter bichos. E fica a memória de os ter tido. E depois prometi que falaria disso!
- Vai então escrever sobre seus filhos e seus bichos... 
- Filhas!, tenho três filhas eram elas as donas dos bichos, dei-lhes essa responsabilidade...
- Cães, portanto!
- Cães, gatos, pássaros, bichos-da-seda...
- Tudo isso? 
- O conhecimento de nós próprios, na nossa humanidade, passa por entendermos os animais...
Achei o meu tom de voz um pouco sentencioso e moralista. E era. Despedi-me com um aperto de mão e sem interromper as professoras. Ao longe a brincadeira interrompera-se para uma troca de afectos que me obrigou a parar para olhar. Depois fui embora, tratar do almoço (era o meu dia).