07 novembro, 2013

Memórias, com bichos - 1 (Lobita, 1979 - 1985)

"Rrs, rrrs...", rosnava ela no sentido da porta.
"Quieta, Lobita, se não ficas quieta..." E o aparato justificava que ficasse quieta: tesoura, compressas, algodão, água oxigenada, tintura de iodo pois nesse tempo era o que se usava. Tudo pelo chão e elas, de roda da cadela, com caretas de repulsa e pena tratando da ferida, incisa, já purulenta.
"Rrrs... uhm... farejo e não sinto que haja razão para rosnar... é odor de gente em quem confiar, de homem... sim é homem... vai entrar, o melhor é baixar a cabeça e esperar pelo que aconteça"
A chave deu uma só volta e o homem entrou. A Lobita manteve a cabeça baixa e elas, a Sandra e a amiga dela, apanhadas de surpresa levantaram-se de um salto. "Pai, estás aqui... ainda bem que chegaste... não sabíamos se estávamos a fazer bem... ela foi ferida, certamente por maldade... o que falta por aí é gente cruel... podes ficar descansado pois ela não fica cá... ela... " As palavras saiam, nervosas, de enxurrada como se quisessem evitar ouvir o que menos queriam ouvir. A Lobita mantinha a cabeça baixa e pousada sobre as patas dianteiras que manteve estendidas, mas os olhos tinha-os fixados no homem que entrara. Sentia-se segura, mas de qualquer forma e pelo sim pelo não colocou aquele olhar de submissão cujo resultado já tinha mais de mil vezes testado, com resultado. O homem acocorou-se, silencioso, e pegou em duas compressas, uma em cada mão e inspecionou a ferida. "É profunda, mas nada de iodo. Se já puseram água oxigenada não ponham mais nada. Nem precisa de dreno, vai fechando..." e lá foi explicando como as feridas se comportam... "Pai, sendo assim é melhor ela ficar em casa até se curar..." A Lobita entendeu o que aconteceu, o que foi dito e que o que ia acontecer a iria favorecer, aprendera a ler no rosto dos homens e este tinha a alma estampada na cara.
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A cadela ficara mesmo depois de sarar a ferida. Conhecia as manhas de cativar e de se fazer aceitar. Escolhera a cozinha, para estar. Fazia companhia na sala e não se aventurava aos quartos, a não ser em curtas escapadelas de brincadeiras ou de furtivas ternuras. Sem esforço o fazia. Era uma espécie de voluntário reconhecimento por ter trocado a dureza de "sem abrigo" por aquele teto. De uma coisa não se dispensava, era a primeira a sair e a última a chegar. Não se pense que regressara à vida de sobrevivência de rua, era a vagabundagem, era esse dia-a-dia de liberdade que não prescindia. A Lobita, de manhã, colocava-se à porta olhando-a fixamente, abanando a cauda. "Fico aqui até que ela se abra!" Quando ninguém a abria, gania, num ganir quase cantado. Depois saia e corria, brincava com uma borboleta (quando havia) e ia que nem uma seta directa ao pavilhão do Liceu onde a Sandra ia ter a sua primeira aula. Entrava e ali ficava sentada mesmo depois da aula ter começado e até querer. Ninguém se lembra como tinha conseguido tal estatuto de assistente, se com o seu olhar submisso se com aquele outro, frio, que tão bem se ajustara ao nome que, um dia, alguém lhe tinha dado.
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"Engenheiro, tem uma chamada na cabine de controlo do trem continuo, acho que é a sua mulher". Ninguém atende chamadas particulares, só em dias em que a fábrica fica parada para a manutenção. Ele apressou o passo e atendeu. A Lobita tinha parido e a mulher explicou, com todo o detalhe, a sucessão dos estertores, as dores quatro vezes contidas, tantas quantas as vidas dadas à vida e durante toda a noite passada. Contou, sem olhar ao custo da chamada, como a Lobita ficara cansada, como carinhosamente "lavava" cada cria e como a cozinha ficara limpa. Contou como só uma mulher sabe contar. Ele despediu-se com um beijo e com um "temos que festejar isso"... 
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Passava da meia-noite quando ela apareceu. A Sandra não saíra da janela, à espera. Quando a viu chegar à praceta, correu a abrir a porta em baixo. A Lobita fez como sempre fazia, com a pata direita empurrou a porta e com o dorso forçou mais um pouco até penetrar o corpo. Subiu o terceiro andar e entrou. Esgueirou-se, com a cauda entre pernas e foi-se enroscar no seu canto, enquanto ouvia o ralhete. A família suspirou mas ninguém se foi deitar sem tomarem uma decisão. Não porque tinha de ser assim, mas porque era a natureza das coisas, dos seres e das pessoas. 
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Chegou o verão e o dia da viagem também. Eram tempos em que as férias se repetiam num só destino: a Areia Branca. A Lobita foi e não voltou. Foi dada com a garantia de ser estimada, de ter a largueza de  um campo com borboletas e outros bichos de fazer reboliços e tinha funções para a quais fora talhada: fazer companhia e guarda. A despedida doeu a alma de todos, mas não conheço uma só vida sem despedida. Para elas era a primeira. Para a Lobita era mais uma, mas o seu pensar quase se fazia ouvir "Ninguém se despediu de mim assim, fico aqui a olhar até os deixar de ver. Fico aqui a olhar, até que regressem." 
Epilogo

Dois anos seguidos, por altura das férias, a família visitou a Lobita. Ela estava sempre onde a tinham deixado da primeira vez, postura inteligente de uma alegria mal contida e nada amuada, nem resignada. Percebemos que estava feliz. Da terceira vez, não esperava, não estava. O dono contou que ela passara a fazer ausências sucessivas, cada vez mais prolongadas que nas quintas vizinhas se queixavam de a criação desaparecer  e que tiveram que a amarrar. A Lobita partira a tentar soltar-se, a ânsia da liberdade sufocara-lhe a vida. Todos choraram a partida e ele, durante muitos anos, sentiu um forte sentimento de culpa que não se dissipou com o tempo ...