24 novembro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 41 (Um escrito para ser lido na "Aula Magna"?)

(ler conversa anterior)
"...Os gestos úteis e rápidos da mão mergulhados na máquina não são danças - por muito que, ao longe, se assemelhem; de facto, os dedos na fábrica são necessários (são os dedos da necessidade) e bem diferentes são dos dedos inúteis de quem dança. Mão necessária e mão desnecessária em termos funcionais. Só os olhos de quem vê é que precisam da mão que dança. Porque essa mão não faz nada, só se mostra."
Gonçalo M. Tavares, in Noticias Magazine

O engenheiro estava a conversar com o seu cão rafeiro à falta de ter com quem conversar. Quando cheguei não interrompeu logo aquela conversa que tinha como resposta orelhas espetadas e abanar de cauda. Um cumprimento de leve aceno e lá continuou deixando que eu bebesse o café e desse uma olhada pelo jornal. Depois avançou:
- Então? Hoje o puzzle foi de fácil resolução? "Mão necessária e mão desnecessária"... mais directo, não?
- Sim, um pouco! Permite uma leitura, e eu fiz a minha!
- Qual?
- A leitura de ser a mão que pertence ao corpo que dança a mais visível e a mais mostrada! A outra,a mão necessária, mesmo quando se olha não se vê. O que não se mostra não existe. O Marcelo também o disse. Mas dá para pensar que não existe mesmo. Não existem dedos que se metam na máquina. Ou melhor, deixaram de existir máquinas onde se metam os dedos. Eu próprio o disse, e mais: disse ser eu o responsável por isso.
- Lembro-me desse escrito. Perfeita a sua ironia... foram todas aquelas empresas? A lista é tremenda: Siderurgia Nacional; SAPEC; MAGUE; Companhia Portuguesa do Cobre; MJO; Fundição de Oeiras; a Reguladora; a IPETEX; a J.B. Corsino; a Companhia Portuguesa de Trefilaria; a Sociedade Portuguesa dos Sabões?
- Foram todas essas e mais aquelas que agora nos dariam jeito ter para lá meter a mão...
- Por exemplo?
- A Sorefame; a Equimetal; a Metalsines... também nessas os dedos rápidos deixaram de mergulhar nas máquinas... Se quisermos fazer andar os comboios temos que ir ter com mãos necessárias aos alemães, enquanto as nossas dançam... e são mostradas.
- E aquela alusão à família?
- "Uma família é estável quando se contabilizam as energias internas e se percebe que não há cortes de energia entre pais e irmãos, entre a avó e a sua lenta cadeira de baloiço." Refere-se a esta? 
- Refiro-me a essa, exactamente!
- As mãos necessárias aos alemães são as mãos que partiram daqui, percebo que só faz sentido que o Gonçalo nos queira dizer que se está perdendo a estabilidade da família e que a contabilidade da energia interna dos afectos está sendo cortada...
- E aquela alusão às facas? 
- É um aviso, uma ameaça velada, um apelo à violência perante o risco do retrocesso!
- Quer então dizer que o escrito de hoje mais parecia um discurso para ser lido na sessão da "Aula Magna"? Nem sei como viu tudo isso no escrito...
- Cada um vai buscar a uma metáfora o que consegue extrair dela...
- Mas o Gonçalo podia ser mais claro...
- Podia ser mais claro! Acaba por dar inteira impunidade à mão que dança!

9 comentários:

Graça Sampaio disse...

Mas a mão que dança é também tão importante! Nem só de indústria vive um povo se bem que por de mais importante. A beleza que é a base da rate é tão necessária como...

O Gonçalo M. Tavares está cada vez mais hermético - já disse isto aqui na semana passada, pensou eu. Sorry pela repetição.

Boa semana

Rogerio G. V. Pereira disse...

Um povo vive daquilo que produz e dos postos de trabalho que valorizam os dedos laboriosos...

Graça,

Quando a Fundação Calouste Gulbenkian anunciou extinguir a sua Companhia de Dança, criada há 40 anos, fiz um "Ó" de espanto. Não esperava tanto...

Há premissas de uma metáfora que temos que respeitar. Este texto do Gonçalo é... um regalo!

Maria João Brito de Sousa disse...

A minha mais profunda vénia à mão que dança!


Abraço!

Rosa dos Ventos disse...

Tive um fim de semana tão ocupado que não deu ainda para ler a crónica do Gonçalo M. Tavares!

Lídia Borges disse...


É uma escrita em corrente, e nem todos sabem onde estão os elos a que o elo, em presença se liga.

Hoje também me perdi em alguns hiatos e, confesso,não fiz nada para os ultrapassar...


Beijos

Janita disse...

Faz bem o Engenheiro em desabafar com o rafeiro. Eu faço-o muitas vezes!
Não li o que o Gonçalo escreveu, mas se foi um regalo e deu livre arbítrio à mão que dança, é porque existe alguma música de fundo.
Por mim, devia ser lido na Aula Magna, até porque a mão, depois de escrever, já se pode esconder!

jrd disse...

Ver só a mão na máquina é demasiado maniqueista...

Rogerio G. V. Pereira disse...

Além disso, (já não me lembro quem disse)
mais máquinas trás mais operários
e isso é uma chatice

Tétisq disse...

Pois já não há fábricas onde meter a mão, não há trabalho não há pão...