28 julho, 2014

Diário de um eleito (10)

Nem confirmei se estaria e fui. Julguei dever estar pois tinha defendido que Caxias devia continuar a merecer o que já fora. O Presidente da Junta não teve dificuldade em me dar a tarefa, pois das cinco forças políticas eleitas apenas três se fizeram representar. Indicou-me a bandeira do Município e, ao meu lado, ela ia-me explicando como a içar sem a corda se enrolar. O vento estava fraco e o povo ausente. E enquanto as bandeiras se iam içando ao som de um hino desafinado por pouco mais de uma dezena de vozes eu ia pensando no significado daquilo. Como hastear uma bandeira na ausência de povo? Senti por momentos que fazia parte de uma encenação sem sentido...  Dias depois, ontem, no Convento da Cartuxa, noutra cerimónia assinalando a mesma data, os jograis deram a resposta ao sem sentido de tudo aquilo. Inadvertidamente (?) recitavam Sophia
Camões e a tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invoscaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.

 Sophia de Mello Breyner Andresen