14 abril, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 13

Tinta da china e aguarela de Alfredo Aquino

Neste compromisso assumido de, domingo a domingo, fazer uma liturgia citando Sophia não podia passar ao lado da sua dimensão integral, de mulher. Esgravatando quem já esgravatou a memória dou com uma tese de doutoramento que disserta pela sua militância antifascista a partir da crise do Estado Novo (1958- 1974), pela análise do conto "O jantar do bispo" (já aqui publicado) e pela atuação da poeta na Assembleia Constituinte (1975-1976). 

Na Constituinte, Sophia teve um papel de destaque na sua configuração política, porque foi presidente da Comissão para a Redação do Preâmbulo da Constituição*. Só se surpreende quem nada conhece de Sophia, para além dos (belos) poemas que configuram a sua obra. 

Fica, para nossa memória, que a ela (em grande parte) se deve o tão combatido parágrafo:
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
*Recomendo a leitura integral do documento e a referida alusão pode ser lida na página 149. A entrevista que se segue integra o trabalho da investigadora

ESA: Eloísa S. Aragão – Investigadora
JMM: Dr. José Manuel Mendes - Entrevistado

[Havíamos dialogado um pouco sobre meu objeto de estudo, a vida militante de Sophia de Mello Breyner Andresen, e com isso o Sr. José Manuel começou a fazer uma introdução sobre a importância do papel de mulheres que, durante longo tempo, se empenharam na luta contra a ditadura. Neste momento, solicitei-lhe darmos início à gravação.]

JMM: Tudo o que digo é apenas a partir da memória, nada mais. E do conhecimento que adquiri em estudos que tive que fazer em outras circunstâncias. E é exatamente por isso que devo sublinhar que a participação da luta de mulheres contra a ditadura vem muito de trás [anterior à década de 1950], e deve ter começado no período em que as próprias organizações de resistência se formaram ou estavam a se robustecer. E digo isto para sublinhar, por exemplo, a existência de algumas mulheres, no caso do Partido Comunista, que apenas se adaptaram num período de clandestinidade, assumindo novos processos, novas metodologias, como é fácil depreender.

E na legalidade, portanto, e não no quadro clandestino, mas na legalidade, havia personalidades de grande relevo que, com maior ou menos vigor, davam expressão a um sentido de oposição clara à ditadura. Por todas direi o nome de Maria Lamas [1893-1983], por exemplo. Mas ela não esgota, nem de perto nem de longe, nesse contexto, todas as personalidades que entenderam dar voz e de mil maneiras a uma causa democrática. A Sophia está com elas, pertence de facto, como há pouco dizia, a um movimento que anda perto dos católicos progressistas. E assume posições tanto no apoio aos presos políticos, como na condenação dos actos do salazarismo, através dos actos públicos que eram assumidos nesse tempo, em que o próprio marido dela até então, o Francisco Sousa Tavares, teve um papel importante.

E a obra de Sophia também assumiu essa perspectiva de uma forma discreta, nunca panfletária, não era o seu destino escrever poesia como panfleto. Ela colocava na sua obra aspectos nucleares do que deveria ser a atitude do homem no contexto em que se insere, nas


poucas circunstâncias dando sinais exatamente do que era o tempo amordaçado e fazendo prevalecer-se a partir das raízes, designadamente a partir das raízes helênicas, do sentido de liberdade e do sentido da democracia. A obra da Sophia está muito impregnada desses valores, sem nenhuma espécie de dúvida. Mas sua prática concreta foi de uma intervenção nem sempre discreta, às vezes mais do que discreta, junto dos movimentos que se opunham ao fascismo em Portugal. E sempre que foi preciso intervir na política ela fê-lo com uma argúcia, uma clareza e um brilho invulgares. Como se vê no texto que eu trabalhei e que fiz referência, na sua intervenção no Congresso de Escritores Portugueses no pós 25 de Abril.

E como se viu, evidentemente, quando falou com o Guilherme de Oliveira Martins, ele teria dito com toda a explicitude, nesse tempo de ligação ao Centro Nacional de Cultura, quando depois da extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores, que viria a ser constituída com o nome de Associação Portuguesa de Escritores, em 1973... portanto há 40 anos recém concluídos. Portanto, dizia eu nesse tempo que toda a actividade empreendida pelo Centro Nacional de Cultura e que o papel da Sophia foi muito activo.

ESA: Dessa forma, os escritores ficaram sem ter um local para se reunirem, e as reuniões passaram a ser no Centro Nacional de Cultura?

JMM: Algumas, outras não, porque algumas reuniões tiveram que ser feitas em casa deste, daquele, ou daquele outro escritor. Os espaços foram muito variados. Foi necessário em muitas circunstâncias partir até de actos de resistência, quase que conspirativa, e não raro de natureza clandestina, para forjar formas de intervenção que pudessem exprimir com clareza que os intelectuais portugueses, os escritores nesse caso concreto de que estamos a falar, tinham um campo, que era o campo da liberdade, da democracia. Foram múltiplas as formas, não podemos pensar que eram apenas aquelas que nasciam da organização concreta do Partido Comunista Português, dominante no que toca à resistência, e particularmente forte. Ou aquelas que eram feitas por uma mão cada vez mais inteligente e activa dos católicos progressistas. Eram também muitas outras e que passavam por tertúlias e por acções desenvolvidas por personalidades com imenso destaque na vida pública, sem alinhamento partidário ou com alinhamento partidário, com opções ideológicas inteiramente definidas. Por exemplo, no quadro do marxismo ou do socialismo europeu, portanto a social-democracia, ou em alguns casos nem sequer isso.

ESA: E também o socialismo ligado a uma vertente cristã, supondo o caso da própria Sophia, que depois foi integrar o socialismo?
JMM: De maneira geral, essa era a tônica dos católicos progressistas. Eram católicos: a doutrina social da Igreja para eles era fundamental, e era uma boa base para progredir no interior da sociedade portuguesa, com o intuito de fazer aumentar o caudal da oposição; e eram socialistas por opção. Portanto, uns afinavam-se com a linha ideológica da chamada social-democracia europeia, outros até eventualmente com uma visão em que o diálogo com o marxismo se impunha. Isto vai ter muita importância na forma como a Sophia desempenha toda a intervenção que lhe coube. Porque, após o 25 de Abril, ela foi pela mão do Mário Soares deputada à Assembleia da República pelo Partido Socialista. E eu penso que vale a pena ter em conta essa passagem dela pela Assembleia da República
Podemos de certa maneira admitir que são poucos os materiais, os documentos, compulsáveis, porque foi um período muito intenso e tumultuoso, não havia o registo integral de todas as intervenções, havia sim o registo do que se passava no Plenário.

ESA: Desculpe, mas aproveito para perguntar: o senhor foi deputado constituinte?

JMM: Fui mais tarde, não fui constituinte. Constituinte foi, por exemplo, o Manuel Alegre, que penso ser uma pessoa que vale a pena ouvir nesse contexto. Em todo caso, recordo uma vez
  tendo em conta que com frequência os testemunhos pessoais são importantes –, recordo- me de ter encontrado nesse tempo a Sophia, no Parlamento. Eu não era deputado, fui ao Parlamento por uma razão que não tenho de todo presente. Estive um longo tempo a conversar com ela, num período em que eram muito intensas as divergências entre os comunistas e os socialistas.
ESA: Conversaram sobre a questão da cultura especialmente, ou não?

JMM: Não, não tanto, mas também. E nós falamos, aliás, um pouco sobre esse tema. E apesar daquilo que entre nós era diferente, do ponto de vista da opção política nesse tempo eu era militante do Partido Comunista –, nosso diálogo foi extremamente intenso.
No plano cultural, basicamente havia a ideia de que o Partido Comunista tinha uma política para a cultura que era impositiva, à maneira soviética: norma ativista ligada exclusivamente ao realismo socialista, e incapaz de se abrir a outras formas de expressão estética. Esta visão que os especialistas tinham nessa altura não correspondia à realidade de facto, pela simples razão de que o líder histórico do PCP, Álvaro Cunhal, numa reunião de intelectuais e num contexto muito concreto, afirmou exatamente o princípio contrário. E havia numerosos escritores comunistas que praticavam uma arte, uma estética, e uma literatura que não era tributária do realismo socialista ou, como nós dizíamos em Portugal, do neo-realismo.
É certo, que por outro lado, havia também essa evidência que era a evidência de uma dominância do neo-realismo no quadro da literatura portuguesa, que viria de resto, com o 25 de Abril, deixar de existir. O 25 de Abril faz explodir formas de realização artística, e de certa maneira a prática de algumas pessoas no passado e no presente poderia levar a uma ideia e uma atitude de afastamento e de repúdio por qualquer princípio que constituísse o condicionamento do escritor na sua liberdade de criar. Ora, a oposição que desde a primeira hora, aliás, que desde sempre, antes de 25 de Abril, de todos os tempos, a Sophia tinha era de que nada, mas nada pode condicionar a liberdade do escritor no seu percurso e nas suas formas de realização. Sempre digo, partilhei esse ponto de vista, essa posição até o ponto de me ter tornado um defensor intransigente dela em todas as circunstâncias.

ESA: Nesse sentido, o senhor também fez uma defesa contrária a certo dirigismo cultural?

JMM: A um dirigismo cultural que o PCP não impôs nem impunha, mas que estava no ar. Vinha de facto de momentos vividos ainda antes do 25 de Abril. Houve momentos traumáticos na história do Partido Comunista, em que esse dirigismo cultural existiu e se tentou impor de uma forma, aliás, muito inequívoca. Mas depois do 25 de Abril, sobretudo, nada da linha oficial do Partido Comunista... Eu estou a ser estritamente fiel aos factos e estou a ser quase que historiador. Não estou de maneira nenhuma a fazer interpretação subjetiva do que se passou. Portanto não era difícil que houvesse autores que estivessem realizando a sua obra com inteira liberdade. Há autores que pertenciam a um partido, ou a outro partido, ou a nenhum. Havia autores que tinham uma sensibilidade, eu diria, inequivocamente, da área do socialismo marxista ou cristão ou de qualquer outra matriz, e que eram grandes nomes da cultura portuguesa. Estou a pensar, por exemplo, no Fernando Namora, como poderia pensar em vários outros, que eram tal como os melhores escritores ligados ao PCP, os melhores escritores ligados ao Partido Socialista. Personalidades de uma imensa liberdade e de uma imensa capacidade de alma. Só que a Revolução, o Pós-Revolução, e os conflitos políticos extremamente graves e agudos que existiram nesse tempo acabaram por introduzir factores
de afastamento e de divergência, que, todavia, na área da cultura, não em poucos aspectos, acabariam por serem esbatidos relativamente cedo.

ESA: Na reunião dos escritores, como se tratava dessas oposições, dessas diferenças, uma vez que as coisas estavam tão polarizadas? Digo isso porque o senhor comenta em certa altura de seu artigo [trata-se do artigo do Prof. José Manuel Mendes intitulado “Sophia e o associativismo de escritores” em: TAVARES, Maria Andresen Sousa; CENTRO Nacional de Cultura (orgs.). Sophia de Mello Breyner Andresen: Actas do Colóquio Internacional. Porto: Porto Editora, 2013.] que, no momento da formação da Sociedade Portuguesa de Escritores, houve a preocupação de mantê-la como uma entidade independente, autônoma, na qual a base pessoal ideológica ficasse de fora, tendo o princípio de estarem a defender a forma de escrita e a liberdade de tal manifestação. Como se a declamar: “Antes de qualquer coisa, nós somos escritores”. Não sei bem... Mas eu entendi isso. Eu estou equivocada? O senhor pode comentar um pouco a respeito?
JMM: Quando se fundou a Sociedade Portuguesa de Escritores, ainda muito no tempo da ditadura... Quer dizer, isso na primeira fase da Sociedade, a primeira que é criada, tal como se fundou a Associação Portuguesa de Escritores em 1973, a ideia era a mesma: era unir as pessoas de bem, no sentido que tivessem uma opção pela liberdade individual, pessoal e colectiva, e que aceitassem o princípio da democracia. O que não quer dizer que, por exemplo, na primeira sociedade não tenham estado pessoas que não tinham sequer esse pensamento, mas que se procurasse alargar o quadro das inscrições e da presença de autores, de toda a gente, independente das suas ideologias. Ou seja, tal como acontece hoje, agora, neste momento em que lhe falo. Aquilo que era a vida da Sociedade Portuguesa de Escritores e aquilo que é hoje a Associação Portuguesa de Escritores é alguma coisa em que as opções ideológicas, políticas e até partidárias, depois do 25 de Abril, são as que são.
Aqui dentro, aquilo do que se trata, do que une os escritores enquanto autores, enquanto pessoas que dão um contributo insubstituível à sociedade, que é a sua obra, o seu lugar, e que têm problemas comuns, e por isso mesmo a sociedade e a associação, que tendo dois nomes acaba por ser praticamente a mesma, procura resolver. Tanto na difusão da obra de cada autor tanto quanto é possível , como na preservação dos seus direitos fundamentais.

ESA: Sim. E, agora, foi apenas uma dúvida que me ficou... Em seu artigo registra-se a data de 6 de julho de 1973, e de uma reunião para (pelo que eu compreendi) a fundação da nova entidade como uma associação. Mas eu encontrei outra data nos jornais, que registram a inauguração da Associação Portuguesa de Escritores em 1974.

JMM: Não, a Associação é criada em 1973.


ESA: E como foi amadurecendo esse processo?


JMM: É um processo muito complexo, porque quando foi extinta a Sociedade Portuguesa de Escritores, vandalizada pela barbárie da ditadura...

ESA: Ninguém imaginava que pudesse acontecer desse modo, não é? Com tanta barbárie!...


JMM: Sim, foi completamente destruída, foram levados e desfeitos muitos materiais de arquivos do que era então a Sociedade Portuguesa de Escritores, na sequência da atribuição de um júri do prêmio ao escritor Luandino Vieira, que estava preso por combater o regime. E a circunstância de ter havido um júri que atribuiu o prêmio foi considerada, pelo regime, um acto hostil e sem apelo nem agravo. Agindo da pior forma que possa imaginar-se, a sede foi vandalizada e a associação foi extinta.

ESA: Só uma pergunta, porque isso para mim foi tão chocante quando li, depois de ter sido fechada e vandalizada, ninguém teve mais condição, nenhum escritor, de lá buscar algum documento que fosse?

JMM: Não foi possível propriamente salvar quase nada..., porque não havia quase nada para se salvar. Não foi possível salvar, foi muito pouco o que salvou-se. O essencial quase tudo foi destruído. Isso significa obras de artes, isso significa biblioteca, isso significa arquivos, documentação importantíssima, que tinha a ver com o modo como a associação foi criada, com toda a sua história. Eu quero lembrar que nesses anos da Sociedade Portuguesa de Escritores, debaixo de ditadura, as direções e as pessoas de maior relevo que a elas estavam ligadas conseguiram fazer programas de intervenção muitíssimo importantes. Se eu disser, desde logo, que foi possível trazer a Portugal Roland Barthes, ou trazer o escritor americano Erskine Caldwell, estarei bem a dar o sinal da diversidade e da abertura de espírito que tudo isso significava, mas também de um certo sentido do tempo e da modernidade. É isso que se dilapida, é isso que se destrói. E é uma ofensa a nomes gloriosos da cultura portuguesa: o Adelino Ribeiro, o Hernâni Cidade, o Jacinto do Prado Coelho, para dizer três ao acaso, e não querer com eles esgotar a lista dos nomes.

No período que se segue à destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores, houve um grupo de escritores, um grupo concreto de escritores, muito aberto, que não se rendendo à ideia de que não poderia haver um organismo, uma instituição que fizesse a defesa dos escritores, dos seus direitos e dos seus interesses, no estrito plano daquilo que é a actividade que cada um tem na realização dos seus livros, do seu projecto estético, foram sendo realizadas múltiplas reuniões, e foram sendo estabelecidas ligações com o poder político. E, então, convém que diga o seguinte: nem todo o poder político era, a partir de determinado momento, estrita e violentamente salazarista.

Com a chegada do Marcelo Caetano ao poder, mantendo-se a natureza do regime, há algumas pequenas mudanças que tornaram viável a constituição de uma sociedade com os mesmos objectivos que tinha a Sociedade Portuguesa de Escritores. Esse núcleo de escritores, a que a Sophia está ligada também, aquilo que verdadeiramente queria era recuperar a Sociedade Portuguesa de Escritores, que havia sido extinta, inclusive no nome. Mas com o evoluir dos contactos e com aquilo tudo que se ia passando na relação com o poder político, percebeu-se que havia um ponto em que foi preciso tomar a decisão de prescindir do nome, criando um nome outro, que é associação ao invés de sociedade. Sendo que a Associação Portuguesa de Escritores, que é como hoje nós nos chamamos, é a continuação da Sociedade Portuguesa de Escritores. Nós sempre reivindicamos que esse passado, que foi o da Sociedade Portuguesa de Escritores, é nosso.

ESA: Mas para inscrever na lei, houve a escolha pelo termo associação buscando se escapar de outros nomes que o regime poderia barrar?

JMM: Era, para o regime ditatorial, claro que queriam um nome diferente para que se não dissesse que se estava a contrariar o que tinha sido a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores. Então, encontrou-se o nome associação. E formou-se a associação, que tinha o mesmo espírito, já com outras pessoas, algumas ainda eram as mesmas, daquela que tinha sido a Sociedade Portuguesa de Escritores. Nesse percurso, e nessa fase, sobretudo, bastante mais aguda, a Sophia de Mello Breyner está presente, sempre. Não é por acaso que depois ela acaba sendo um nome importantíssimo, à frente dos órgãos diretivos iniciais dessa causa.


ESA: No seu artigo, o senhor faz a citação do excerto do discurso proferido pela Sophia em 1973, no qual ela diz: “A poesia é necessariamente política, porque uma cidade sem poesia é uma cidade desmantelada e morta”. É muito interessante que ela tenha formulado a questão política ligada à literatura, à cultura, de um modo muito claro, quando sabemos, do que ela partilhava com amigos, ela tinha também certa – vamos dizer assim – ojeriza pelo jargão político, pelas coisas que pudessem ser estabelecidas com certo enquadramento ou certo dirigismo. Bem... isso é mais um comentário do que uma questão... O senhor concorda? Pode falar um pouco a respeito?

JMM: Dirigismo nunca, a Sophia não aceitaria nenhuma espécie de dirigismo. Creio que essa era uma das razões pelas quais ela não estava com o Partido Comunista, compreendendo a sua luta, e sendo solidária, por exemplo, com os presos políticos. Dirigismo nunca, mesmo que porventura partisse daqueles a quem estava ligada. Fossem eles o Partido Socialista ou qualquer outra organização. Dirigismo no sentido da impositividade de critérios estéticos ou de negação da liberdade criadora, isso nos quadros mentais da Sophia era incolocável. Não fazia qualquer sentido e não havia a mínima possibilidade de ela transigir diante de coisas assim. Por isso é que no Congresso, naquele quadro histórico português em que o Congresso se realiza e onde pairava, segundo autores como ela, o espectro de um qualquer dirigismo cultural, ela assumiu uma palavra que foi muito frontal e clara contra ele, em defesa do criador, do escritor. Mas fê-lo não como uma forma de se opor à intervenção política, mas, pelo contrário, pressupondo a intervenção política. Ou seja, a intervenção política deveria existir naturalmente, e deveria existir sempre, mas assumida livremente pelo criador, pelo escritor. Como no fundo eu posso dizer sem nenhuma espécie de erro, julgo, por qualquer homem, ou seja, a concepção que a Sophia tinha da vida era incompatível com o condicionamento das liberdades individuais. Nesse exato sentido é que estou a exprimir. O que é uma forma de dizer que era incompatível com o condicionamento das liberdades individuais, neste exato sentido que estou a exprimir. O que é uma forma de dizer que era incompatível com o condicionamento da liberdade pública. O que é uma forma de dizer que era irredutível nesse ponto, como sendo uma das bases sobre as quais uma democracia deveria ser construída.

ESA: Agora, falando sobre a literatura que ela produziu para crianças. É possível dizer claramente que isso é também parte da consciência política dela, sabendo que no país, até certa altura, não havia muitas obras de qualidade para esse público – ou ao menos esta era uma das queixas que ela fazia sobre o gênero até determinada época. Ela, num dos discursos, citou que se devia fazer obras para crianças: com qualidade, numa linguagem acessível, com grande qualidade gráfica, e que pudessem chegar aos filhos de camponeses, de professores e qualquer cidadão. Ela tem uma visão sobre a necessidade de atingir esse público e de um modo mesmo socialista, assim eu percebo. E como disse o Frei Bento Domingues a respeito de tal produção da Sophia: “Isso foi a vingança pela qualidade” – uma expressão que achei muito bonita. O senhor poderia comentar como enxerga a produção da Sophia para crianças?

JMM: Eu direi que ela assume essa posição na linha do que outras personalidades da época já faziam e continuaram a fazer. Lembro que houve autores de grande relevo e de todos os quadrantes ideológicos que tiveram a preocupação de escrever e de melhorar aquilo que era a escrita para crianças, para adolescentes e para jovens. O que distingue a obra da Sophia? É o seu modo peculiar, e aquilo que nessa peculiaridade é grandeza. Portanto, a Sophia era na realidade uma escritora de primeiro plano, uma escritora à margem, muito acima de tanta coisa que se publicava e que se fazia no seu tempo. E a obra que fez para os mais novos – se me é permitido dizer assim, porque não gosto nada da expressão infanto-juvenil e estou a tentar evitá-la – é uma obra marcada por todo o engenho e por toda a preocupação de que há pouco falou, com todos esses sinais. A Sophia era de uma lucidez extrema quando observava relativamente ao essencial do que se escrevia nesse tempo – ao muito do que se escrevia nesse tempo, a expressão mais rigorosa é esta. Em relação a muito do que se escrevia nesse tempo, na área infanto-juvenil, era preciso remodelar completamente e fazer com que o primado da qualidade se impusesse. Havia outras pessoas preocupadas com isso, e ela vem na mesma linha, com seu próprio modo. E, de facto, aquilo que aconteceu foi uma viagem: ainda hoje os livros que ela escreveu e publicou nesse domínio são essenciais, são marcantes, são decisivos.

ESA: Lamento que no Brasil não conheçam a produção dela para crianças.


JMM: Também ninguém em Portugal conhece os livros para a infância e juventude da Clarice Lispector ou do Jorge Amado, se quisermos falar de outro público.

ESA: Mas estão a conhecer agora.


JMM: Do Jorge Amado, tanto quanto me recordo, se terá publicado uma história cá, deste lado do Atlântico. Eu disse dois nomes brasileiros, podia dizer vinte ou trinta, ou seja, há de certa maneira uma menorização, mesmo dos próprios hermeneutas, dos próprios acadêmicos, dos especialistas, daquilo que se faz nessa área. Valoriza-se o romance, valoriza-se a poesia, valoriza-se o ensaio enquanto ele existe, às vezes a cronística e a diarística, e só muito remotamente é que se valoriza a literatura infanto-juvenil. Agora, tanto no Brasil quanto em Portugal, começa a haver estudos universitários e licenciaturas que têm essa matéria como base. E então começa, de certa maneira já começou, um estudo muito mais sério e o reconhecimento do que existiu e existe. E é absolutamente... como dizer isso? É indiscutível o papel singularíssimo da Sophia de Mello Breyner nesse domínio, e que seja hoje completamente reconhecido por todos os historiosos.

ESA: No seu texto há um trecho que se refere a um momento na Assembleia da República quando houve uma discussão, no início da década de 1980, em que foi suscitada a questão do domínio público remunerado. Eu gostaria que o senhor comentasse o que era exatamente essa proposta do domínio público remunerado, e como as pessoas se manifestaram...

JMM: O problema é que... como hei de lhe dizer isso? Eu fui muito cauteloso com o que escrevi aí. Cauteloso por quê? Porque eu não quero falar de mim, de todo. E esse debate foi um debate que foi no essencial promovido e realizado por mim. Portanto eu vou contar completamente coisas que um dia alguém há de dizer e são importantes.

ESA: Mas me chamou muito a atenção.


JMM: Mas não quero falar de mim, entende? Eu peço que compreenda isso.


ESA: Sim, está bem. É que o tema me despertou interesse.


JMM: Agora, acontece que a ideia do domínio público remunerado andava no ar. E era uma ideia de algum tempo, e consistia na circunstância de que pela venda dos livros uma percentagem mínima de cada um deles, e, portanto, de toda a massa de livros vendidos, revertesse para um fundo que pudesse constituir-se como dinamizador de iniciativas culturais. Como um recurso para editar autores jovens que tivessem dificuldades de acesso à edição, ou outros autores em circunstâncias idênticas. E também como uma instância para apoio aos escritores em estado de necessidade social, ou seja, pretendia-se que de alguma forma esse fundo pudesse assegurar os meios financeiros para prestar apoio e assistência. Eu não gosto da palavra assistência, vou dizer por isso apoio, prestar justiça, se me posso exprimir assim, àqueles escritores que tinham caído na pobreza e viviam em circunstâncias de grande carência.


Estou a falar em 2014, numa altura em que o quadro a este nível é o pior que alguma vez conheci, ou seja, a crise, a chamada austeridade, o modelo de governo que existe em Portugal, conduziu a que a realidade se tivesse transformado... numa realidade dolorosa. E, portanto, se visava naquela altura, no período dos anos 1980, que houvesse formas de a partir daqui apoiar, fazer justiça aos escritores que estavam em estado de grande precariedade. Era por outro lado garantir a edição daqueles que não tinham editor. Portanto, as regras de mercado e as relações entre escritor e autor existem, mas é sabido que há numerosas obras que não conseguem chegar à edição por dificuldades de toda a ordem. Isso também não significava a ausência total de critério, pelo contrário. Para tudo se podem criar júris independentes, com saber, e com uma justa visão das coisas, mas o que se pretendia era a edição daqueles que não tinham qualquer editor onde colocar a obra. Ou, a partir de mecanismos de protocolo, chegar a contactos com editoras para edição desses livros, de alguma maneira subvencionadas pelos que estivessem...

Portanto, era um pouco de tudo isso que passava pela ideia da criação do chamado domínio público remunerado. A questão foi suscitada na Assembleia da República, esteve quase a ser adotada, quase a passar. Um golpe palaciano à última hora impediu e nunca chegou a ser adotada em Portugal. Com o evoluir dos tempos tudo se tornou muito mais difícil e não foi possível. Qual é o papel da Sophia...

ESA: Só um minutinho, essa proposta estava ligada a alguma frente ou a algum partido?


JMM: Não, isso foi a proposta muito notabilizada por mim, mas eu nunca assumi que ela estivesse a ser apenas veiculada pela bancada a que eu pertencia, pelo contrário. Na altura, eu era presidente da Comissão de Cultura, se a memória não me atraiçoa, e isto foi trabalhado. Eu posso dizer com clareza: a esquerda política estava de acordo! A direita política dividia-se entre os que compreendiam a ideia e estavam próximos, e aqueles que se opunham de uma forma determinante.

Em comissão, nós conseguimos fazer com que uma parte importante da direita política compreendesse os argumentos por nós usados e, portanto, tudo esteve muito perto. Depois, quando tudo teve que ser decidido em função do orçamento de Estado, e pelos homens das finanças... Os homens das finanças, nesse passado que vai sendo longínquo, como hoje, ignoram as pessoas e decidem pelos cifrões, e decidem pelas inscrições orçamentais, e, portanto, não foi possível passar.


Nesse contexto, lembro com grande veemência o seguinte, um autor como Fernando Namora tinha feito um estudo pessoal muito denso, muito sério, a demonstrar o quanto seria justa a criação dessa ideia, a criação desse instrumento. E eu quis ouvir o máximo de pessoas. Como tinha uma grande amizade, não diria por toda a gente, mas praticamente toda a gente, que na época, para cá, para a sociedade literária e a sociedade cultural, ouvi imensa gente. Falei com a Sophia, de quem era amigo, e ela teve um papel de apoio total da primeira hora à última. Na Assembleia, nessa altura, também estava outra amiga minha, que era a Natália Correia, que deu uma ajuda, e teve um papel importante no diálogo com certas personalidades, digamos, um pouco mais à direita, com as quais mantinha um convívio natural e precioso. Mas, por fim, o domínio público pago não vingou.

ESA: A Natália Correia conseguia isso, não é?


JMM: Sim, um pouco. Ela conseguiu duas ou três pessoas, aliás, uma delas era uma pessoa de quem eu gostava imenso também. Presto homenagem ao seu nome, um homem que se chamava Henrique Barrilaro Ruas, que era naquele bloco mais conservador da Assembleia a personalidade que mais tinha aderido à ideia. Já não me lembro dessa história tão bem, com pormenores. O que ficou foi isso que trago à memória... A referência que faço é seguramente a do apoio que a Sophia me deu a mim, direta e inequivocamente, não estou em condições de dizer se escreveu algum texto sobre isso, eu não conheço o espólio. Tenho imensas coisas guardadas daquilo que a Sophia dizia ou publicava nos jornais, no meu próprio arquivo não está nada, mas é, enfim, um testemunho meu e foi esse testemunho que deixei.

ESA: Assim, depois da atuação da Sophia de Mello Breyner enquanto deputada constituinte, ela se afasta da cena política mais diretamente. Pelo que se revela nos documentos, ela se sentiu muito decepcionada com o curso das coisas. A essa altura, ela afirmou em torno desse afastamento que havia participado na luta antifascista e havia chegado a bom termo tendo se dedicado a ser deputada constituinte, mas que a partir de tal momento só continuaria a desempenhar-se em situações que julgasse urgentes, pois afinal o papel dela era ser escritora. O senhor tem notícia se houve, depois de 1976, circunstâncias em que a Sophia atuou no campo político? Sei apenas sobre o envolvimento dela na questão do Timor Leste.

JMM: Olha, o Timor Leste, como acabas de conferir e é verdade... Porventura, noutras causas o afastamento dela eu compreendo bem. Também, sem querer falar de mim, a partir de 1991 eu não voltei a desempenhar nenhum cargo político, ou seja, eu estive mais anos no


Parlamento do que ela, experimentei tudo o que havia para experimentar durante estes dez anos. Era, enfim, um deputado referenciado, é a palavra que encontro para dizer o que não quero dizer. Em 1991, declarei publicamente que não voltaria a desempenhar nenhum cargo político partidário, que não voltaria à Assembleia da República – palavra que cumpri, como ninguém acreditava, e aqui estou a provar que cumpri. A Sophia esteve muito menos tempo e também se retira. Por quê? Porque, de alguma forma, a vida parlamentar tem coisas contraditórias para alguém que tem um projecto cultural com traços de alguma radicalidade, e que procura nas coisas, numa feição tanto quanto possível não muito dominada por pragmatismos, sejam eles de que natureza for. E, sobretudo, não contaminada pelos jogos de bastidores que sempre existem na luta que se vai travando. Uma personalidade como a da Sophia não era compatível com tudo isso e, pouco a pouco, o afastamento é o afastamento da intervenção regular, quotidiana, não é o afastamento de sua implicação como cidadã na construção das coisas. Ela manteve-se muitíssimo atenta a tudo, fiel aos seus valores de sempre. Ah, e já no fim da vida era muito afagante, para dizer o mínimo, conversar com ela sobre o que era a vida pública. Porque tinha uma ideia muito clara sobre tudo, meditava, pensava, e posso lhe dizer sem nenhuma espécie de exagero: estava sempre à esquerda.

Foi nesta sala em que nós estamos a conversar que, com o presidente Mário Soares, na altura presidente, eu lhe entreguei o prêmio Vida Literária. E, nessa altura, eu fiz um discurso que tenho imensa pena de não ter ficado integralmente gravado, ou se calhar ficou gravado algures e eu nunca encontrei a cópia. Foi um discurso muito emocional e muito afetuoso. Por quê? Porque a Sophia era uma figura envolvente, marcante e decisiva para muitos de nós. Para mim, obviamente, mas também para os meus colegas de direcção e para a grande parte da sociedade portuguesa.

Mais tarde – sou membro do júri do prêmio Reina Sofía, em Madri, ao longo dos anos –, no primeiro ano em que fiz parte do júri, contribuí para que a Sophia tivesse o prêmio Reina Sofía. Foi a primeira escritora portuguesa a ganhar o prêmio Reina Sofía. E esse triunfo foi um triunfo conseguido no meio de um júri de alta qualificação, com honestidade, terei que dizer muitas vezes, porque esta é a verdade. E o José Saramago, já prêmio Nobel, fez de uma forma fulgurante a defesa do prêmio para a Sophia.

E eu acompanhei, no registro mais eminentemente técnico ou literário, uma vez que era preciso que de alguma forma uma parte do júri percebesse que mais do que o nome era uma escrita, e essa escrita era aquela que tinha notáveis características. E foi, de facto, o último prêmio que a Sophia recebeu, se não estou enganado.


ESA: Parece que sim, de acordo com o que eu pesquisei.


JMM: E eu no texto não sei se acabei por incluir ou não, no texto que estamos a ver...


ESA: O fechamento do artigo, pois.


JMM: Não sei se incluí o recital que depois se fez em Madri, no Palácio Real, que foi dos momentos mais impressionantes da minha vida. E isso também é uma coisa que me diz respeito e relativamente ao que tenho a dizer eu ficaria por aqui.

ESA: O senhor faz o registro no seu artigo de que havia de sua parte a expressão de encantamento quando a Sophia discursava, como foi o caso no I Congresso dos Escritores Portugueses, em 10 e 11 de Maio de 1975. Confesso que estou um pouco presa a esse encantamento faz uns anos, pois percebo que, escapando à minha vontade, às vezes tropeço nisso, mas estou conseguindo avançar no trabalho acadêmico. E isso resulta, em grande medida, de uma descoberta muito feliz para mim: saber que existiu a Sophia, uma escritora que teve essa matriz do cristianismo, da filosofia grega, e comprometeu-se por muitos anos na luta contra o fascismo, conseguindo manter a inteireza, quero dizer a inteireza igualmente na intervenção cívica que realizou. E essa luta aguerrida pela liberdade manifestada, por exemplo, em um ambiente como o da Assembleia Constituinte. Suponho que era um ambiente em que, a princípio, ela tinha de fazer esforço para enfrentar, pois assim o frei Bento Domingues comentou que a Sophia se queixava, às vezes, dizendo que era necessária sua contribuição àquele contexto político, mas que, de fato, era muito desgastante para ela.

JMM: Em todo caso volto a dizer que, nessa altura, na constituição das listas, os diferentes partidos procuraram colocar personalidades de grande relevo na vida nacional: pelas artes e pelas letras, pela economia e pelas finanças, pelo desempenho em actos cívicos de múltipla ordem. Portanto, a Assembleia Constituinte era empregada em muitos níveis por personalidades importantes do que era o Portugal democrático. E isso ocorreu tanto à esquerda como à direita. É diferente do que hoje acontece com o Parlamento, porque o que ocorre atualmente escolhe-se... Não quer dizer que não se tenha em conta a visibilidade, que é uma palavra que também já é diferente, para pior, deste ou daquele. Mas escolhe-se muito em função de uma lógica de aparelho partidário ou muito próximo disso.


Nesse tempo, e, sobretudo, na Assembleia Constituinte, e ainda nos anos que seguiram à Assembleia Constituinte, portanto, nessas primeiras formações da Assembleia da República, escolhia-se tendo em conta personalidades que tinham grande impacto na vida nacional, ou então na vida local. Visto que a Assembleia representava também, gostava de ter no seu seio, pessoas com grande relevo na vida local. Portanto, a escolha da Sophia é a escolha em que se vê um tributo que lhe é prestado pelo próprio partido com o qual ela está. Dessa forma, quando Mário Soares a escolhe – permito-me interpretar assim, o Mário Soares que o diga, mas quero dizê-lo eu –, ele presta um tributo a alguém que se chama Sophia de Mello Breyner Andresen, como um nome importantíssimo da cultura portuguesa. Houve outros autores que não aceitaram porque de todo em todo eram alérgicos à política enquanto representação. A Sophia aceitou e fez muito bem, se me é permitida a opinião, teve uma presença muito bela na Assembleia Constituinte. Do ponto de vista da dignidade, do ponto de vista do que representava como figura. Creio que é uma glória da Assembleia da República – que acaba finalmente por decidir que ela vá para o Panteão Nacional – ela um dia ter sido deputada.

ESA: Muito obrigada por me conceder a entrevista.


JMM: De nada.

5 comentários:

Lídia Borges disse...


Confesso que nada do dito me apanhou desprevenida. Tudo o que me interessa eu "exploro". Quanto à narrativa destinada aos mais novos, esta é marcada, desde logo, por uma nova forma de encarar a Criança - "Uma criança não é um pateta" - diz Sophia a dada altura. A sua obra insurge-se contra o "infantilismo" da linguagem e o excessivo sentimentalismo do que se produzia, em termos literários, para os mais novos, à época. Sophia rejeita as pressupostas "limitações" das crianças e ousa dar-lhes o maravilhoso, a alegoria do real para uma leitura de encantamento.


Quantos da minha geração e seguintes foram enfeitiçados por esse encantamento e nunca mais se libertaram dos livros e da alegria de ler?

Lídia



Rogério G.V. Pereira disse...

Certo
Lídia

Em 1976 a minha-mai-nova
(um anito)
ia batendo
impaciente com a colherita no prato
e aproveitei o desacato
para de improviso
dar forma ao acto
fi-lo num belo dia
com todas à mesa
Eu me declaro
por gesto revolucionário
presidente desta democracia
a mãe é o governo
e todos juntos somos o parlamento
que dita as leis e o seu julgamento
Por proposta da Maria João
haverá pudim à refeição
pois a Sandra aproveitou todas as claras
e bateu bem as natas

Acho que isto é poesia por gestos
e talvez sobre isso
devesse deixar algo escrito...

Anónimo disse...

Memórias-testemunho de um tempo em que Sophia cumpriu um papel de inegável valor na literatura portuguesa. Não a esqueceremos.


Maria João

O Puma disse...

Vozes ao alto
Abraço meu caro amigo

Ana Tapadas disse...

Sophia, minha mestra...

Muito interessante o «post»!

Beijo