25 abril, 2019

Abril: 45 anos depois, todos temos a liberdade de... só que...


Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Sérgio Godinho

25 DE ABRIL, 
45 ANOS
DEPOIS

Todos temos a liberdade de ler o que quisermos,
só que cada vez são menos os livros que se vendem
Todos temos a liberdade de escolher os jornais que lemos,
só que todos dizem ou omitem o mesmo
Todos temos a liberdade de escrever,
só que há cada vez menos quem leia
Todos temos liberdade de nos associarmos,
só que há cada vez menos quem se associe
Todos temos a liberdade de aceder ao SNS,
só que este se tornou tendencialmente pago e caro
Todos temos a liberdade de acesso à cultura,
só que não que chega para tanto o orçamento
Todos temos a liberdade de escolher uma carreira,
só que abunda o trabalho precário e é magro o salário
Todos temos a liberdade de ser ricos,
só que cada vez mais empobrecemos 
Todos temos a liberdade de votar,
só que cada vez se vota menos
Todos somos livres,
só que não há         liberdade a sério

A mancha de texto
parece alguém?
Se sim, sou eu
e talvez tu também
___________________
Fiquei neste estado, impedido de estar naquele outro lado

4 comentários:

Janita disse...

Quatro décadas e meia após a Revolução,
se ainda há canções cujas letras mantém
a mesma pertinência e actualidade
- nem sei se isso é bom, se deplorável -
outras há que já nada têm a ver com o temo actual.

Esta do Sérgio é uma delas.

"Só haverá liberdade quando pertencer
ao povo o que o povo produzir..."

Não faz mais sentido. Isso era destinado aos assalariados agrícolas.

De resto, cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas...
...passados quase meio século, toda a classe trabalhadora vive em permanente descontentamento e extravasou a classe dita desfavorecida, pois juízes e médicos, antigamente considerados parte de uma classe social privilegiada, enfileiraram na marcha grevista.

Afinal, o que está mal? Responda quem souber, eu, sinceramente não sei!
Será o ser humano um eterno insatisfeito?

Rogério G.V. Pereira disse...

Janita
dou-te a lista
da produção perdida
hoje
são (quase) todos manga-de-alpaca
de produção parca

Ora toma:
- Siderurgia Nacional
- Companhia Portuguesa do Cobre
- Companhia Portuguesa de Trefilaria
- Mague
- COMETNA
- Fundição de Oeiras
- SOREFAME
- Equimetal
- Sociedade Nacional de Sabões
- Lisnave

Esta são as top 10 das maiores, cada uma com mais de 2000 operários...
As piquenas
são às centenas

Agora a maleita chegou ao Vale do Ave, vão-se as costureiras...

E quanto à classe média
tens razão
está na merda
e andas nas filas da "raspadinha"
-

Anónimo disse...

Fisicamente impedida de estar nesse outro lado, estou eu há já uns bons anos, por questões de saúde como bem sabes, embora não ande, nunca tenha andado, nem faça tenção de vir a andar nas filas da "raspadinha".

A Janita questiona-se sobre o facto de o ser humano ser, ou não, um eterno insatisfeito. Claro que o é, Janita. Claro que o é, ou ainda hoje acreditariamos que a terra é plana e que as doenças e as grandes catástrofes naturais não passam de meros caprichos de deuses que se sentiram mal servidos por nós, seus humílimos servos e vítimas de eleição dos seus momentos de mau humor. Ainda bem que somos eternos insatisfeitos. Ainda bem.

Abraço


Maria João

Janita disse...

Obrigada Maria João, pela sua resposta coerente e lógica, à minha última questão.

Também nunca fiz fila para rapar tachos.
Tampouco raspar, raspadinhas.

Abraços.