07 abril, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 12

Todos tivemos nove anos. Nessa idade, eu, tal como Dante, conheci "a minha" Beatriz. Por isso, ao ler este conto de Sophia, sob o efeito da sua tão humana criatividade, sou lançado no sonho ingénuo, como se fosse menino, de nos ver passar a todos pelo inferno, pelo purgatório e pelo céu a fim de termos condições de podermos escrever, cada um, a nossa divina comédia. Escreve-la seria depois, tão só e apenas, uma questão de competências de escrita que, como sabemos, só Dante teria. Contudo, se assim fosse, seria melhor o mundo...:
[- Quando Dante tinha nove anos de idade viu um dia na rua uma rapariguinha, tão jovem como ele, e que se chamava Beatriz. Beatriz era a criança mais bela de Florença: os seus olhos eram verdes e brilhantes, o seu pescoço alto e fino, os seus cabelos leves e oiros, trémulos sob a brisa. E caminhava com ar tão puro, tão grave e tão honesto que lembrava as madonas que estão pintadas nas nossas igrejas. Dante amou-a desde essa idade e desde esse primeiro encontro.

Mas passados anos, em plena juventude, Beatriz morreu.
Essa morte foi o tormento de Dante. Então, para esquecer o seu desgosto, começou uma vida de loucuras e erros. Até que um dia, numa Sexta-Feira Santa, a 8 de Abril do ano de 1300, se encontrou perdido no meio de uma floresta escura e selvagem. Aí lhe apareceram um leopardo, um leão e uma loba. 

Dante olhou então à roda de si e viu passar uma sombra. Ele chamou-a em seu auxílio e a sombra disse-lhe:
- «Sou a sombra de Virgílio, o poeta morto há mais de mil anos, e venho da parte de Beatriz para te guiar até ao lugar onde ela te espera.»
Dante seguiu Virgílio. Primeiro passaram sob a porta do Inferno onde está escrito: «Vós que entrais deixai toda a esperança».

Depois atravessaram os nove círculos onde estão os condenados. Viram aqueles que estão cobertos por chuvas e lama, viram os que são eternamente arrastados em tempestades e vento, viram os que moram dentro do fogo e viram os traidores presos em lagos de gelo. Por toda a parte se erguiam monstros e demónios, e Dante agarrava-se a Virgílio tremendo de terror. E por toda a parte reinava a escuridão como numa mina. Pois era ali um reino subterrâneo, sem sol, sem lua e sem estrelas, iluminado apenas pelas chamas infernais.

Depois de terem percorrido todos os abismos do Inferno voltaram à luz do sol e chegaram ao Purgatório, que é um monte num meio duma ilha subindo para o céu. Aí Dante e Vergílio viram as almas que através de penitências e preces vão a caminho do Paraíso. Neste lugar já não se viam demónios, mas em cada nova estrada surgiam anjos brilhantes como estrelas.

Até que chagaram ao Paraíso Terrestre, que fica no cimo do monte do Purgatório. Aí, entre relvas, bosques, fontes e flores, Dante tornou a ver Beatriz. Trazia na cabeça um véu branco cingido de oliveira: os seus ombros estavam cobertos por um manto verde e o seu vestido era da cor da chama viva. Vinha num carro puxado por um estranho animal metade leão e metade pássaro.

- Dante – disse ela -, mandei-te chamar para te curar dos teus erros e pecados. Já viste o que sofrem as almas do Inferno e já viste as grandes penitências daqueles que estão no Purgatório. Agora vou-te levar comigo ao Céu para que vejas a felicidade e a alegria dos bons e dos justos.

Guiado por Beatriz, o poeta atravessou os nove círculos do Céu. Caminharam entre estrelas e planetas rodeados de anjos e de cânticos. E viram as almas dos justos cheias de glória e de alegria. Quando chegaram ao décimo Céu Beatriz despediu-se do seu amigo e disse-lhe:

- Volta à terra e escreve num livro todas estas coisas que viste. Assim ensinarás os homens a detestarem o mal e a desejarem o bem.

Dante voltou a este mundo e cumpriu a vontade de Beatriz. Escreveu um longo e maravilhoso poema chamado «A Divina Comédia», no qual contou a sua viagem através do reino dos mortos.]
Extrato do conto "Dante e Beatriz"
in "O Cavaleiro da Dinamarca"

12 comentários:

Anónimo disse...

Belo, este trecho do conto de Sophia. Continuo, no entanto, a não conseguir conter uma espécie de dó por aqueles que precisam de acreditar em martírios infernais para que o mal lhes não repugne.


Abraço

Maria João

Rogério G.V. Pereira disse...

Maria João,
há uma diferença entre passar pelo inferno
e viver nele a vida toda s´para só depois vir a merecer o céu

Lídia Borges disse...


A preocupação de Sophia era dar a conhecer episódios da mitologia, aguçar a curiosidade das crianças e jovens para a cultura da Grécia Antiga, pois nela está toda a sabedoria,(acreditava), nela, o berço da nossa civilização, a "explicação" do mundo e do "Homem".

Lídia

Lua Azul disse...

Foi por falar em inferno que me lembrei do caro padre Mário Pais de Almeida, autor de livros como "Fátima nunca mais", "Fátima SA", "E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião", e tantos outros, libertadores, doutos e verdadeiramente educativos. O padre Mário defende práticas políticas maiêuticas, em que seja o povo a assumir nas suas mãos os seus destinos, e condena o crer em bichos papões (infernos e etc. e tal)... Aliás, tem outro livro que não li, mas que, pelo título, já mostra as suas ideias "Viver sem deuses nem chefes". Não tem blog, o padre Mário, mas talvez gostasse de vir aqui ler os seus posts e opinar.
Todos deviam conhecer o padre Mário.

Rogério G.V. Pereira disse...

Lídia,

Em todas as páginas de Sophia há apontamentos que poderão servir para o que este serve

Dar a conhecer o mal, para que se possa lutar pelo bem!

Rogério G.V. Pereira disse...

Lua Azul

De há uns tempos para cá
ao Padre Mário, por impaciência
"salta-lhe a tampa" com frequência

Nem sei se leria
este texto de Sophia

Olívia Marques disse...

No caso do Cavaleiro da Dinamarca é a cultura italiana, o Renascimento que Sophia quer "tocar". O pendor exemplar da sua narrativa sempre presente sem descurar a Poesia.

Interessantes estas suas "liturgias".

Lídia

ematejoca disse...

A parte mais interessante de "A Divina Comédia" é exatamente a passagem pelo INFERNO 😈 😈 😈

Rogério G.V. Pereira disse...

Lídia,

Ao "Cavaleiro da Dinamarca" dedicarei ainda outra "liturgia"

...assumi compromisso
de até ao fim do ano
publicar Sophia, domingo a domingo

Rogério G.V. Pereira disse...

Ematejoca

...é por o inferno ser interessante
que há tanto pecador

Majo Dutra disse...

Uma excelente homenagem muito bem feita,
trabalho de admirador sincero.
Parabéns, também pelo aspeto estético.
Boa semana em paz e contentamento.
Tudo bom.
~~

Rogério G.V. Pereira disse...

Majo

Sou sempre sincero
e quando não sou
é porque quero
não ser sincero

Sophia é minha irmã