18 agosto, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 30

 

5º Mandamento, meu, inspirado pelas belas frases de Sophia: Nunca despreze uma palavra. Se sobrar, guarde-a
“Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podiam ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis. Isso foi uma descoberta.” (disse Sophia)
E se guardar palavras, proteja-as não vá serem pisadas, e lembro Ary:
A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

6 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

E porque nada de melhor me ocorre, junto as minhas palavras às de Sophia e Ary;


NAS ARTÉRIAS E VEIAS DA CIDADE

 

 

O sangue inunda as veias da cidade

Vindo da fonte humana que o contém,

E só por uns instantes se detém

Para beber um copo na Trindade,

 

Para dizer bom dia a quem lá vem,

Pra dar-se num abraço de saudade,

Pra comer uns natinhas em Belém,

Ou na Avenida que é da Liberdade.

 

 

Corre o seu sangue em puro descompasso

Do Marquês ao Terreiro que, do Paço,

Passou a ser do povo que é sa(n)grado,

 

E nessa imensa/infinda hemorragia,

Esvai-se a cidade inteira, dia a dia,

Ao som das mansas notas do seu fado.

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 22.06.2018 -15.48h

Larissa Santos disse...

Hoje, de uma forma mais rápida, de maneira a chegar a todos. Espero a compreensão de todos. Cheguei com:- Entregas-me uma rosa num ávido beijo. {Poetizando e Encantando}

Bjos
Votos de uma óptima Segunda-Feira

Lídia Borges disse...


Ah, se Sophia cá estivesse, hoje! Amaria as palavras em silêncio.

É que ela não suportaria ver como a palavra "Palavra" anda por aí a ser usada.

Lídia

Elvira Carvalho disse...

Um belíssimo post com dois comentários à altura parabéns à Maria João e à Lídia Borges.
Abraço e uma boa semana

Sam Seaborn disse...

Fiquei "cliente" dos seus domingos... Uma escolha extraordinária... gostei mesmo das palavras.

Grande abraço

Ana Tapadas disse...

Elogio a tua celebração dominical. Não a faria melhor.
Sophia tinha essa capacidade única de não desperdiçar palavras.
Agora teríamos muito a aprender, pois a sociedade dita ocidental é muito tagarela.

Beijo