28 abril, 2010

Porque é que eu, gajo urbaníssimo, sonhava com a Reforma Agrária?


Parece que o sonho terá começado assim - Aos 30 anos lembro de me lembrar que quando tinha 12 ou 13, comecei a pensar em certas coisas. Foi por finais dos anos 50, nas férias de Natal passadas na quintinha dos meus avós (sim , aquela de que já aqui falei há dias atrás), que me punha a olhar para a pequena charca, com a imaginação solta. Imaginava, mais uma vez, um personagem dos contos do meu avô. Eu Tom Sawer ou Huckleberry Finn, atravessando um grande caudal de água, não no Mississípi e sim no Guadiana, mais propriamente no Alqueva. O meu imaginário lidava com todas as mensagens fortes e mal interpretadas, apanhadas nessa minha infância atenta às conversas de adultos. Falavam eles do Alentejo, da fome e privações e da esperada abundância trazida pela água que passaria a irrigar todas as terras alentejanas. Que bom seria ver o Alentejo como a quintinha que o meu avô, com força que lhe vinha sabe Deus de onde, punha a produzir tudo. Mesmo tudo. De tudo havia na horta, no pomar de laranjeiras, tangerineiras e algumas romãzeiras, a seguir videiras, mais oliveiras e ainda figueiras. Não pensem que a vaca e os coelhos não tinham erva fresquinha apanhada num fim de tarde, todas as tardes. Via, imaginava o Alentejo dos meus avós com franca abastança e com os putos alentejanos ao colo dos avós a ouvir contos e novelas como só os homens felizes sabem contar…

Na escola aprende-se e equacionam-se as duvidas - Quando, na escola, ouvi falar em Lei das Sesmarias, com o professor de olhos brilhantes, sabe-se lá se pelo prazer de ensinar história se pelo entusiasmo do tema, redobrei a minha atenção. Contava ele que, segundo a Lei das Sesmarias, se o proprietário não fertilizasse a terra para a produção e a semeasse, esta seria repassada a outro agricultor que tivesse interesse em cultivá-la. Isto era bonito de ouvir. Menos interessante e justo me pareceu o facto de somente aqueles que tivessem algum laço com a classe dos nobres, os militares ou os que se dedicassem à navegação e tivessem obtido honrarias que lhes garantissem o mérito de ganhar uma sesmaria, tinham o direito de recebê-la. Meu avô, por exemplo, teria direito a uma sesmaria? Não me parece que tivesse tal direito. Perguntei ao professor se o meu avô, no caso de alguém que recebesse sesmaria se estivesse nas tintas para as terras, se ele as poderia receber. Nicles batatóides, o professor respondeu com um vago e impreciso: “Talvez, Rogério! Talvez…”
Depois, depois foram leituras e vivências - Fiquei assim cheio de duvidas, até que progressivamente foi tomando consciência seguindo um percurso que já descrevi neste blogue (podem ir por aqui vasculhar no meu baú os posts que já escrevi sobre o tema). É assim que hoje não me resta qualquer reserva sobre o que se perdeu e sobre o que se está a perder por a reforma agrária ter ficado pelo caminho…

Evolução da utilização da terra ou de abandono progressivo?

Quem não quiser dar-se ao trabalho de ver o que já escrevi, leia o gráfico (1974/76 anos da Reforma Agrária não aparecem mas seriam certamente superiores aos de 1979 ) - Fonte PORDATA

Não basta ter esperança! - Ontem, no Programa Prós e Contras sobre a agricultura portuguesa não se falou nem na quinta do meu avô, nem nas origens da posse da terra, nem na reforma agrária, nem das razões porque as terras permanecem com elevados níveis de abandono e o Alentejo se vai despovoando. Banco de Terras? Que é isso? Vejam. Vejam e digam lá se não vale a pena lutar por isso. Mesmo que seja uma pessoa urbanissima, como eu!