28 maio, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 1 (apresentação)

"(...) António Gedeão não vê que a tal bola colorida possa pular e avançar nas mãos de uma outra criança que não seja um neto dos meus netos. Ele não espera grandes coisas destas próximas gerações. Os poetas vêem muito para além do seu poema... Lamento é que os culpados disso sejamos nós.
Escrevi isto sempre a pensar que a isto iria voltar. Voltei. Voltei com uma série de textos de reflexão sobre esse dito do meu poeta. Escolho a esplanada e cada conversa que lá vai ser escutada. Esta é a primeira, à laia de apresentação...

Imagem da net
Leio sempre o jornal no meu canto... mesmo não querendo,
as conversas delas vêm ter comigo, enquanto vou lendo.

Sentei-me. Ao lado estava o senhor engenheiro e o seu cão rafeiro. Tomava o pequeno almoço que partilhava com o animal, sempre atento ao dono e cada um seu movimento. Esperava pedaços do bolo-de-arroz. Ao lado, o pombo do costume vinha debicar as pequenas migalhas que sobravam e que o cão e o dono desprezavam.
A primeira a chegar foi a Teresa. Penso que esse chegar cedo lhe provinha do hábito de se levantar para ir trabalhar, coisa que lhe deixou de acontecer às uns tempos. Olhou-me sem me ver. Nada colocou em cima da mesa pois nada tinha para lá colocar e pendurou a sua pequena bolsa no braço da cadeira. Ficou-se por ali a olhar, sem ver, o cão, o dono e o pombo. Ora um ora outro e depois o melro negro, ao fundo,  sobre a relva. Com esta minha mania de rotular, rotulei-a de "geração à rasca" e não me enganara, pois o tinha confirmado num dia em que o seu telemóvel não tinha parado, com mensagens solidárias...
Chegou depois a que chamavam Gaby. Essa nem olhou para mim, nem para o cão, nem para o pombo, nem para o senhor engenheiro. Pousou em cima da mesa tudo o que trazia e cumprimentou a Teresa, "Olá princesa" (não sei a que reino pertencia, pois a todas cumprimentava com igual delicadeza). A Teresa respondeu ao cumprimento, com qualquer coisa sumida. Os "fones" manteve-os Gaby nos ouvidos, estava a dar a sua música predilecta e, enquanto a cantarolava, a mesa ia ficando repleta com o portátil, a pen, os três telemóveis. Essa tinha-a rotulado, no sábado, passado por "geração mobilidade". 
Passaram-se pouco mais de dez minutos e quase em simultâneo apareceram as outra duas, embora de lados desencontrados. Beijaram-se a dois passos da mesa onde as outras duas tinham até ali esperado. Uma delas pisou o cão e o pombo voou para esperar que aquela pequena confusão passasse e depois voltar para continuar a debicar. A que pisara o cão gargalhou. O cão não ladrou e a outra disse "coitado". A que pisou o cão era a Zita, era das quatro a mais bonita. Bonita, azougada e com ditos com uma certa piada. Vestia vestido muito curto, às ramagens e tinha, numa cara bem pintada um pircing bem colocado que não lhe deixara o rosto desfigurado. Rotulara-a de "geração dos morangos", dado que todas as outras lhe iam descobrindo nos ditos e tiques, todas as personagens de tal novela. Todas tinham crescido a vê-la, mas a Zita não perdia um episódio.
A outra, a quarta, a que não pisara o cão, vinha com o jornal na mão. É alta, esbelta e com um olhar muito vivo. Disse quase gritando, agitando o "Correio da Manhã" - "esta vossa amiga, vem aqui em grande plano" - E vinha. Abriu o jornal e procurou a página onde ela aparecia, junto ao palco principal. Fazia parte da enchente, daquele mar de gente que esteve no Rock in Rio. Chama-se Ana e se não fossem todas as quatro loucas entusiastas por (todos) festivais, rotulá-la-ia por "geração Rock in Rio". Assim, fica-se pelo label "geração Wikipedia", o que tem a ver com uma longa descrição de como organizava o seu trabalho de casa, estudava e resolvia, num instante, tudo que, nas aulas, lhe era permitido ir consultar no portátil...
As quatro falavam e parecia que tinham trazido cada qual sua agenda planeada para a conversa de esplanada. Excepção para a Teresa, que bem tentou trazer Marcelo Rebelo de Sousa para a tertúlia, mas lhe atalharam a conversa "Teresa, politica não". A Zita passou a dissertar sobre as habilidades vocais de um dos personagens que actuaram na noite passada, e entreabria as pernas, bem torneadas, que entretanto tinham sido cruzadas. O senhor engenheiro deitou para lá o olhar e deixo-o lá ficar. O rafeiro, do senhor engenheiro, olhava o dono e eu olhava distraidamente... o pombo. A Gaby, ia teclando  no computador e alimentava aquele diálogo de esplanada ao mesmo tempo que o fazia, com uma dezenas de outros "amigos", no facebook, sem largar os "fones". Até que veio à baila falarem da surpresa e da proeza - "uhau, mais de duas mil toneladas doadas, ao Banco Alimentar, ainda dizem que a nossa gente não é generosa..." 
Parei de olhar o pombo e desliguei da conversa, para sobrevoar os títulos de "O Público". Fixei a atenção no do canto inferior direito daquela publicação: "Falências do sector da construção disparam 50,8%". Fui ler a noticia, lá dentro.