19 junho, 2011

Sem sonhadores, não há sonho...


“…E quando passar a tempestade que Saramago – humano - provocou com as suas acintosas apreciações, restarão sempre as lombadas beges de Saramago – escritor - para lembrar que aquele fervoroso e impertinente velho rezingão era, no fundo, um apagado sonhador.”

Termina assim um (longo) texto que li em “casa” amiga. Está bem escrito e serve para homenagear, mas também para o contrário disso. Diz bem com palavras de mal dizer. Diz mal com adjectivação de admiração. É um desenrolar de apreciações num estar com Deus e com o Diabo, ou o de dar uma no cravo, outra na ferradura ou, se quiserem, é um texto para ser lido à hora do chá, a pessoas bem pensantes por quem não sabe o que vai na cabeça de quem escuta tal leitura. Não venho aqui abespinhar-me com o escrito, mas apenas aproveitar para sublinhar que o autor daquele escrito se fartou de enganar vaticinando o apagar do “apagado sonhador”. Hoje mesmo, um escritor da nova geração deu testemunho que assim não será. Passo a transcrever palavras dele, do seu romance e depois um video datado:



[...]
nem sequer impossível. A verdade, como o silêncio, existe apenas onde não estou. O silêncio existe por trás das palavras que se animam no meu interior, que se combatem, se destroem e que, nessa luta, abrem rasgões de sangue dentro de mim. Quando penso, o silêncio existe fora daquilo que penso. Quando paro de pensar e me fixo, por exemplo, nas ruínas de uma casa, há vento que agita as pedras abandonadas desse lugar, há vento que traz sons distantes e, então, o silêncio existe nos meus pensamentos.
Intocado e intocável.
Quando volto aos meus pensamentos, o silêncio regressa a essa casa morta. É também aí, nessa ausência de mim, que existe a verdade.
[...]
in Cemitério de Pianos,
José Luís Peixoto