10 março, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 28 (Gil, o filósofo que ainda não estando gá-gá, até parece que está)

"Há que transformar o sistema politico e reinventar a Democracia (...) Não é por acaso que o que contou, o que mete medo ao Governo, não foram as manifestações das organizações sindicais, dos partidos, etc. Tudo isso está ordenado, codificado, já se sabe para onde vai. Agora aquilo que é solto, que é imprevisivel, que não tem ideologia, que não tem discurso ordenado, pode ser impossível de captar e de capturar e de domar. É disso que o Governo tem medo, de que o poder tem medo" - José Gil, hoje ao DN 
Quem diria que a esplanada se enchia, se enchia de cor e de vozes, como uma praça...
 
Quando cheguei a esplanada rebentava, cheia de cor e de vozes, e os poucos lugares vazios eram os de mesas ocupadas. Na mesa "delas", das minhas professoras, não havia nenhum, mas na do engenheiro havia um. Pedi-lhe licença e ele estendeu a mão, acedendo, com um cumprimento, enquanto o seu cão rafeiro, parecia que sorria e abanava o rabo, prazenteiro. Comportávamo-nos como se fossemos íntimos, não o sendo. Nem sabíamos os respectivos nomes, nem sequer o do cão, que mentalmente eu baptizara de Sebastião - que era o nome do meu, já há muito falecido...
- Leu isto? e mostrava-me a fotografia do filósofo que ocupava grande mancha de dupla página.
- Li "as gordas"...
- O homem ás vezes parece que está gá-gá, outras parece que não está!
- O homem diz o que o que gosta de ler o leitor normal desse jornal!
- Uhmm... acha? a mim parece-me um discurso de grande lucidez. Mexe nas feridas todas, mexe com todos...
- Pois é isso mesmo!, cada um pode ver no escrito, o que pode ferir e atingir o outro...
- Vendo assim, tem razão! Mas... e este destaque aqui? em que ele diz que é...
- ... que é do que é solto, do que é imprevisivel, do que não tem ideologia, que é disso que o Governo tem medo?
- Essa mesmo... que diz?
- Digo que, se disso o Governo tem medo, mais razão teria ele para dizer que ele próprio devia ter. Eu tenho! eu tenho medo que o poder possa cair e ser tomado por quem não tem outra ideologia que não seja a de derrubar o poder, para o poder ter...
- Quer dizer que ele está a fazer o entendimento que para derrubar o sistema só a falta de ideologia é eficaz? Que ele está a fazer apelo subliminar ao aparecimento de um Grillo?, ou mesmo de um ditador?
- Ele está a dar cabo da "parábola dos sete vimes", é o que eu acho...
 
O cão rafeiro veio cortar o diálogo colocando a queixada sobre a minha perna dobrada. Estava a requerer-me uma festa, e eu dei-lha. O engenheiro fechou o jornal e lançou um olhar perdido, pensativo, sobre o colorido da esplanada sobrelotada... ficámos calados.. não dissemos mais nada.

17 comentários:

folha seca disse...

Caro Rogério

Apesar do link não deu para ler tudo. No entanto deu para perceber a linha de pensamento (eu diria a capacidade de olhar para o fenómeno). Há de facto um fenómeno novo que é a participação de centenas de milhares de pessoas que vão a manifestações inorgânicas e não vão às outras.
Será que constatar isso é estar Gá-Gá? Então há mais, muitos mais.
Abraço
Rodrigo

Rogério Pereira disse...

Rodrigo,
Eu sei, eu sei, o Grillo teve uma imensidade de votos e o Hitler até ganhou eleições... e o fenómeno não é novo... é até mais antigo, que o Gil e que o Grillo

Lídia Borges disse...


Uma multidão sem liderança pode, a todo o momento, transformar-se num monstro sem cabeça [e o que não tem cabeça não pensa]. Justamente por isso, este monstro é temível e assustador.
A união faz a força, mas há tensões perigosas que já se sentem no coração do Todo que somos todos nós.

Na última manifestação, caminhava a meu lado um grupo identificado com um bandeira (antiga) que proclamava, com afinco, a necessidade de "partir tudo".

Encurta-se o rastilho à medida que cresce o desespero.

Lídia

Rosa dos Ventos disse...

O perigo está mesmo aí!
A união faz a força!

Graça Sampaio disse...

Ainda não li! Mas estes estudiosos de vez em quando passam-se!

folha seca disse...

Caro Rogério
Pelos vistos aquelas centenas de milhares de manisfestantes que por todo o País mostraram a sua indignação, fizeram-no erradamente, deviam era ter estado na outra, na da CGTP, pois essa é que tem cabeça corpo e membros.
Aí sim (mas não só)é que se devia tentar perceber o Porquê!

Rogério Pereira disse...

Caro Rodrigo,

Como estive em todas, não me retire (por favor) daquelas em que eu estive...
A questão não é quem esteve, nem sequer é sobre quem deixou de estar (e nós sabemos quem, de facto, não esteve). A questão é instilar pressão sobre quem assume a luta e colocar a esperança em quem rejeita ideias organizadas, quem rejeita a luta dos trabalhadores sindicalizados... O filósofo filosofa sobre a filosofia de que o poder treme perante o "nada", o poder treme perante "o solto"... O e é filósofo não filosofa sobre os riscos disso... mas é (precisamente) sobre isso que escrevo.

A manifestação de 2 de Março devia tê-lo calado... mas não calou. Pesa-lhe fantasmas pesados... mas a culpa não é minha.

heretico disse...

a Lidia disse o essencial - subscrevo. não diria melhor...

abraço

jrd disse...

Vamos ter de perceber muito bem quem é que tem medo de existir e do resto...

O Puma disse...

Unidos e organizados
para sermos consequentes

sem retirar nada
à indignação espontânea

Pior é o Seguro
numa sacristia
a dizer estar de acordo com o prefácio do Cavaco

Quanto ao Gil
no respeito intelectual pela diferença
se fosse italiano
seria Grillo?
Na Sê.

Teté disse...

Não conhecia a parábola! Mas gostei da conversa de esplanada, se bem que falta de ideologia e de valores também é o que prolifera entre estes governantes... ;)

ana disse...

Por vezes é necessário as pontas soltas para se enxergar melhor.
O "nada" não é necessariamente o vazio.
Quando as ondas batem a espuma deixa o seu sal.
Boa noite.
Muito interessante esta postagem. Requeria mais tempo.
Boa noite!

Tétisq disse...

O governo farta-se de fazer coisas contrárias à ideologia que se diz professar...eu acho que já pouca gente consegue definir muito bem o que é esquerda, direita no contexto actual, isto para não falar de outros conceitos mais complicados que não basta saber economia para compreender. Eu antes de ter que fazer estas cadeira todas de história contemporânea também não compreendia muito bem...
mas, também acho que o que todos sabem é que há duas gerações muito fartas da geração que está hoje a governar e a quem se proporcionou de um tudo porque se depositava nela uma grande esperança e eles afinal não passam de uns incompetentes. As duas gerações mais chateadas são os mais velhos que viveram o 25 de Abril como adultos e a minha que nasceu 10 anos depois e não sente ter futuro.

ps. Isto sem generalizar, também há os da geração dos que estão com os tachos que trabalharam a vida toda e também estão fartos deles, alguns que são da geração que viveu o 25 de Abril (adulta) e agora só quer garantir as suas reformas milionárias (eram adultos mas não saíram à rua de certeza, talvez até tenham escrito uma cartinha ao regime garantindo que não conspiravam contra ele) e os 'putos' das 'jotas' que sonham ser Coelhos e Relvas. Enfim, há uma grande maioria confirmada por algumas excepções.

vieira calado disse...

O Gil sabe pensar e dizer o que pensa.
subscrevo.
Um abraço

São disse...

Não acho que Gil esteja a defender uma situação como a italiana : está a dizer uma coisa que me parece correcta, isto é, o Governo actual (e Cavaco está empalhado) não liga nada ás manifestações . Até porque Passos crê ter um missão ...e esta convicção torna tudo mais irredutível e perigoso.

Portanto, enquanto as coisas forem calmas , o Poder não se rala ; o seu medo é se tudo sai dos eixos!!

Boa semana

Jaime Ramalhete Neves disse...

O JOGO
Diz o sítio da CIÊNCIAHOJE que o Asteroid Deflection Research Center (EUA) desenvolve tecnologia para salvar a Terra de asteróides.Expliquemo-nos.A Terra, bem comportada e seguindo o seu curso normal de translação vê-se de repente ameaçada por um estafermo de asteróide. Claro que "estafermo" é um termo abusivo: o "sta fermo" era uma prática medieval de treino guerreiro e individual (quem praticava o jogo tinha de se esquivar do ricochete provocado pelo próprio ataque).
Sempre nos tentaram convencer que a actual situação (nacional, europeia e mundial) era algo que decorria normalmente, algo de parecido com a "harmonia das esferas", harmonia essa sempre ameaçada por algum "asteróide" do qual é urgente defendermo-nos fazendo explodir o asteróide.Até há filmes,insistentemente repetidos pelo canal Hollywood,e penso que ligados ao petróleo por qualquer acto falhado do realizador,que demostram isso.
Quem se imagina seguindo um percurso imutável e certo?
Lembremo-nos que nos esquecemos que essa tecnologia salvadora foi concebida em circunstâncias específicas e a diferentes níveis(refiro-me a Hiroshima,Palestina, Líbia,Mali,América Latina,Síria e, por outro lado,ao conceito "democracia ocidental",dita representativa.
Conseguiremos identificar o "estafermo"?
Perante um estado de coisas considerado "normal" José Gil diz "Agora aquilo que é solto, que é imprevisivel, que não tem ideologia, que não tem discurso ordenado, pode ser impossível de captar e de capturar e de domar."
Palavras de José Gil. Mas podemos perguntar se estas palavras refletem o pensamento de José Gil ou se são uma evocação do pensamento de outrém.
Com o propósito de identificar o estafermo: a indignação, a procura de um caminho, a desarticulação,são o primeiro passo para uma consciencialização.

Anónimo disse...

Con tu permiso me quedo para seguir tu sitio, abrazos desde Uruguay!