17 maio, 2015

Luanda 1970 e o pagamento de uma promessa


Hoje o texto editado é o pagamento de uma promessa, uma retribuição. Prometi à Elvira, amiga recente, que lhe falaria da "minha" Mutamba e de como eu via Luanda. É também um incentivo ao seu trabalho, pois ela talvez até nem saiba que um dia este espaço foi um laboratório da palavra, do qual saiu um livro abraçado pela cumplicidade de quem me comentava (Almas Que Não Foram Fardadas). Eis algumas das suas páginas, eis o pagamento daquela promessa:
«74 – Luanda, numa sexta-feira santa – A chegada a Luanda, que lembre, não teve história. Dizia-me o calendário que era dia de comemorar a crucificação e de sofrer com Cristo o que este terá feito para, conforme todos os catecismos, salvação dos homens. Mas a memória nada mais regista dessa chegada do que os cheiros diferentes e o ar, que fresco por terras de Maquela, se tornara quente, húmido, verdadeiramente tropical. Minha Alma e Meu Contrário queixam-se da mesma amnésia e referem uma muito leve lembrança do conforto sentido à chegada a uma cidade onde nos parecia nunca termos estado, apesar de ter sido aqui que tudo começara, cerca de oito meses atrás, um dia depois da chegada do homem à lua e do meu trocadilho inspirado: a Lua… anda. Lembrava o «comboio malandro» e as crianças dos musseques.
Dessa passagem, resta agora a ténue lembrança de ter sido dispensado de estar presente na devolução do material sanitário a meu cargo e de quem o haveria de recepcionar, tomando o sargento Meia Alma o meu lugar. Não me lembro de nada, mesmo nada, nem mesmo o momento em que nos foi comunicado o novo destino e as palavras tranquilizadoras que terão sido ditas para nos sossegar quanto a esse lugar, no planalto central angolano do Bié, com nome de brincar: Nharea. Vila pequena, um pouco a norte das cidades de Silva Porto e de General Machado, todas livres de acções de guerra, e onde a presença militar era requerida como força dissuasiva. Minha Alma ter-me-á dito: «Nharea? Terra baptizada por preto só pode ser é feia», pois em Angola nomes dados eram na sua maioria dos colonizadores e não dos colonizados.
Com a notícia, embora nada lembrando, não será agora difícil imaginar que todos os militares da minha unidade teriam, em conflito com a data comemorada, a sensação de terem sido libertados de uma cruz sem a certeza de não lhes estar sendo preparada outra. Entre esse sentir e a incerteza, prevalecia certamente o momento. E esse, por ser de contentamento, tinha de ser vivido intensamente e noite fora festejado e… regado.

76 – Domingo de Páscoa, inicio da manhã. – Se há situações que não lembro, outras estão presentes como se vividas há pouco. Nessa manhã esperava, na Praça Cidade de Luanda (a que todos chamavam Mutamba), meus dois camaradas de relação mais chegada. Tinha planeado o dia: manhã na praia, tarde para conhecer a cidade e à noite telefonar para casa e depois o que a emoção permitisse. Enquanto esperava, dispersava a atenção pela ampla praça, pelos edifícios que me pareciam imponentes, por quem passava, pelo intenso movimento do tráfego.
De início, não fazia juízo sobre o que via. Limitava-me a ver. Depois, com a espera demorada, fui dando atenção a pormenores: As acácias de um rubro garrido, no meio da praça a dar-lhe graça; a frequência de chegada e partidas dos machimbombos (...); o modo de estar e de falar gesticulado, de pequenos grupos, pretos com pretos, brancos com brancos, um pouco por todo o lado; o trânsito de muitos carros japoneses, modelos nunca vistos e porventura recentes conduzidos por brancos e orientados por um sinaleiro… branco. A passagem de um carro da Polícia Militar trouxe-me à realidade militar da guerra que aquela cidade não parecia estar. Mas foi no sinaleiro que me fixei. Nunca percebi o prazer de ver um sinaleiro e dei por mim a preencher a espera com interrogações idiotas, do tipo: «Porquê um branco e não um preto, se estava na capitalangolana?» Meu Contrário e Minha Alma, distraídos com outras imagens e pensares, não me respondiam e esforcei-me eu por encontrar a explicação: «Seria a suprema humilhação do colono ser parado e orientado por um colonizado.»
Sorri para mim, quando ouvi uma voz conhecida: «Tás feliz pá, corre-te então bem a vida.» Eram eles, atrasados, mas a tempo de partirmos para a ilha, para uma manhã de praia, conforme o combinado. (...)
77 – A perfeita e inesperada integração racial. – A praia a que chegámos estava pouco menos que apinhada. Páscoa, dia de feriado era uma das causas. A outra, o tempo convidativo, quente, como quase sempre. Não vou perder tempo descrevendo atitudes normais de quem como nós, afastados meses a fio de lazeres, de corpos desnudados de mulheres, de enleio de olhares e maneios insinuantes, aparentemente convidativos mas, de facto, distantes. Falo da estranheza, comentada entre nós três, de nem um negro se vislumbrar, nem no areal, nem à beira-mar. Lá bem dentro da água calma, sim. A uma distância prudentemente afastada de reprimendas, nadavam e brincavam. Sobre uma barcaça, lancha, ou que fosse que se tinha virado, um grupo se divertia. Subiam ao bojo da embarcação e de lá mergulhavam, uns com estilo, outros a macaquear sabe-se lá que pequenos demónios aquáticos que, na frescura tépida do Atlântico, encontravam omissas vítimas ou sereias que se esgueiravam sem se deixarem apanhar por aquele esbracejar. Faziam-no incansavelmente e durante o tempo que durou o nosso quase igual devaneio, mergulhando e nadando por ali entre ondas e mar de gente da nossa cor. Longe estava a Senhora do Mar que só serve a navegantes e não a conjunturais veraneantes. Após o banho de mar, o banho de sol. Silenciosos, todo o tempo, até os corpos se enxugarem e um se atrever a lançar assunto, o que aconteceu: «Rico dia», disse o Alma Redonda, para não ser ele a puxar conversa, mas a incentivar a que um de nós o fizesse. Fê-lo o Alma Séria, interrogando-me: «Rogério, que dizes? Não vamos ter isto em Nharea, mas teremos certamente mais sossego que lá no Norte.» Respondi, lembrando-me do que Minha Alma tinha já dito, repetindo a sua ironia: «Nharea? Terra baptizada por preto, só pode ser feia.» Rimo-nos todos e relembrámos tempos há pouco passados, as deslocações ao Quitexe, as emboscadas por que eles passaram, os medos e as mortes. Alma Redonda atalhou assunto, achando o tema do passado totalmente deslocado do prazer de ali se estar. (...) Estávamos assim nesta cavaqueira, quando da praia um grito e um gesto na direcção do mar fez, para aquele sítio apontado, toda a gente olhar:
«Tubarão, tubarão, tubarão!»
Alguns gritos e grande confusão. Confusão no areal e lá no barco emborcado, onde o bando de negros tinha estado a saltar. Toda a gente via, sem bem notar, se barbatanas, se caudas, se dorsos, se tudo isso misturado num numeroso cardume de, fosse o que fosse, o certo era ser de grande volume. Os braços negros, freneticamente nadavam. Os braços brancos, da praia, freneticamente chamavam: «Fujam, fujam para aqui»; «venham, venham»; «nadem, nadem.» E nadavam desesperadamente na direcção do areal de onde os gritos, aflitos, se continuavam a ouvir num espectáculo um tanto desproporcionado com a distância a que ficava o tal cardume. Já o primeiro negro chegara ao areal e ainda estava bem longe da barcaça o primeiro dos supostos tubarões. Correu um ou outro branco a amparar um e outro negro, esgotado pelo esforço. Correu também o Alma Redonda também a socorrer, enquanto se ouvia alguém dizer: «Raça canalha. “Turras” do caraças. Pena os tubarões não os paparem a todos.»
Ainda não estava tudo isto dito, quando os peixões começaram a saltar harmoniosamente. Uns em saltos alongados, outros para o ar, parecendo gozar com o sucedido. Sempre me tinham dito que os golfinhos eram inteligentes, mas nunca me disseram que tinham tão sarcástico sentido de humor e tão elevada eficácia em diligências apaziguadoras:
«Faltam em terra golfinhos para continuarem a tarefa de tão perfeita solidariedade e integração racial», sentenciou Minha Alma com o ar mais sério deste mundo…» 
79 – A cidade é como uma mulher? – Saí da messe de sargentos ainda o calor abrasava, disposto a ir cidade fora, na tentativa de a conhecer. Já sabia da impossibilidade de conhecer uma cidade só por lhe percorrer as ruas, ainda que atento a tudo e a todos. (...) Passados uns minutos, poucos, estava na Mutamba, olhando de novo os machimbombos. Resolvi então tomar um deles, destino a Vila Alice, nome de mulher. Poderia assim ter uma ideia de parte de Luanda, já que resolvera ir e vir e depois escolher outro destino, dos que dali se aprontavam e partiam: São Paulo, Bairros da Cuca, Prenda, Popular, foram os usados. Assim percorri avenidas e ruas, a esmo, olhando para o que havia para olhar, foi como percorrer veias de um corpo desconhecido, sentindo-lhe a alma distante e o pulsar do coração ausente, sem ver uma e outro. No fim do dia, fiz o balanço. Se Luanda era mulher, era estranha. Mulher branca na baixa, branca e loira na parte alta, com pernas e braços de mulata. Gente negra, pouca vi, certamente enfiada numa periferia pobre que o «comboio malandro» não me chegara a mostrar na totalidade.»