29 janeiro, 2016

«Vamos brincar aos colantes?»

"Vô, queres brincar comigo?" A interrogação era muito menos uma pergunta e muito mais um pedido. Percebi-lhe no rosto que ficaria triste se não aceitasse. "Vamos lá!" disse, indo, ainda sem saber para onde. O rosto fechado abriu-se e o olhar rebrilhou. "Vamos brincar aos colantes!, vem comigo..." e eu fui.
Percorreu o corredor e entrou no quarto do fundo. Abriu o armário da estante e tirou uma pilha de livros. Escolheu o lugar onde os podia espalhar e escolheu um. Bem colorido, de figuras diversas, dispersas, e auto-colantes. "Então é assim: tu fazes-me uma pergunta ou mandas que eu faça uma coisa, se eu conseguir responder ou conseguir fazer, ganho um colante. Mas sou eu a escolher o colante que eu quiser!". Aceitei aquelas regras, assim como aceitaria, outras que fossem, as que o Diogo quisesse definir. Comecei. Ao fim de duas perguntas acertadamente respondidas e de um exercício bem resolvido, ele exclama "Vô, assim não vale. É tudo tão fácil que eu não sei se mereço escolher o meu prémio!". E lá continuámos, subindo eu a parada na exigência até que o seu peito ficou repleto de galardões. 
Quando aquilo acabou, com o exercício de descer as escadas de dois em dois degraus, sem saltos nem tropeços e até à porta da rua (única maneira de fazer com que se fosse embora), fiquei a pensar se todas as retribuições não deveriam ser assim: perante as coisas difíceis desta vida, sermos nós a premiar o nosso próprio mérito com colantes colocados no peito e com o respeito de quem estiver por perto...