28 março, 2018

A propósito daquele teatrinho... o Eufrázio lembrou-me isto

A SENHORA DA LIMPEZA 

Antes de chegar às galerias identificaram-me com um sorriso.
Subi no magnífico elevador, conduzido por um delicado polícia.
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo. Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da república. As palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos, os aparelhos políticos. Os credos e os farsantes. Desiguais.

Inocente segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria
- Coisa linda esta democracia.

Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos ainda mas a combater pela maioria que vive nos subúrbios de tudo.
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz.
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto.

Inocente o jovem cabisbaixo, segredou-me
- Comigo um dia isto será diferente.

Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto. O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene. De tantas memórias.
O salão ficou vazio mas eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado polícia. Foi um dia que resolvi festejar em silêncio.

Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa.
Serviram-me o intragável discurso do primeiro ministro, em diferido.
Os àcidos bem convergiram, mas não foram eficazes para digerir o falacioso paraíso.
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações, onde escrevi - " O que me serviram está fora do prazo. Quando chega a nossa vez ? "

Levantei-me da mesa sem pagar. Os empregados ficaram a ler o meu protesto.

Lá fora ouvi alguns aplausos mas fiquei na dúvida quanto ao seu voto.

Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para a fachada do restaurante, Larguei um viva à República, à liberdade e ao 25 de Abril.
Para meu espanto a porta rangeu. Começou a abrir-se lentamente.

Era a senhora da limpeza.
Eufrázio Filipe, 

12 comentários:

Janita disse...

Muito bem lembrado
mas tenho um verdadeiro
sentimento de pesar perante
tanta tristeza, tristeza sem par
desse jovem cabisbaixo
'Um dia será diferente com ele'?

Espero que esse jovem
ainda tenha força, para sonhar
quando a senhora
da limpeza sair
e a porta, definitivamente,
se fechar...

.

Maria João Brito de Sousa disse...

Muito, muito bom! Quase poderia ser o último acto da tua peça; "teatrinho", como lhe chamas.

O jovem... o jovem ainda sonha na primeira pessoa do singular. Um dia perceberá que os sonhos só são sonhos de verdade quando conjugados no plural.

Forte abraço para ti e para o Eufrázio.

PS -Estou de saída para mais exames clínicos, mas cá voltarei para auscultar outras críticas/opiniões/pareceres.

ematejoca disse...

Um "teatrinho" muito a meu gosto!


Desejo-te uma Páscoa de alegria e cultura, de saber e paixão.

© Piedade Araújo Sol disse...

Lembro de ter lido isto no mar aravel
gostei de reler
continuação de boa semana e uma Páscoa Feliz.
beijo
:)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Tenho Eu
Meu Contrário e Minha Alma
uma convicção

A Senhora volta
o jovem trá-la, pela sua mão

Rogerio G. V. Pereira disse...

só há sonhos
quando estamos bem acordados

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sabia que gostarias

Rogerio G. V. Pereira disse...

...foi há 8 anos, que o lemos

Mar Arável disse...

Abraço amigo

Rogerio G. V. Pereira disse...

Outro
e bem apertado, meu caro

Maria João Brito de Sousa disse...

Concordo. No entanto, para tudo o que por aí vem e as malhas e enredos que se lhe tecem em torno, tenho a impressão de que não há baldes de água na cara que cheguem, nem beijos de princípes encantados que desencantem tanta bela adormecida...

Elvira Carvalho disse...

Há 8 anos não conhecia o Mar Arável, pelo que só hoje li o texto.
Abraço