04 março, 2018

Um conto ao Domingo - V ("O trabalho produz milagres")


Compraram aquela pequena quinta com o que resultara da venda da loja lá das Ermidas e os primeiros tempos foram dispensados para fazer algumas pequenas obras na casa, tornando-a mais acolhedora. Fê-lo com a empenhada ajuda da companheira que, esquecida da malvada ciática e de como lhe pesava os anos, se ia prestando para o que fosse necessário, ficando a caiação  por conta dela.

A ele passou a competir o amanho da terra que todas as manhãs percorria, de uma ponta a outra, até descobrir aquela por onde pegar. 
Naquele dia, até porque o pomar dava mostras de morte, resolveu reabrir o sulco entre o tanque de rega e as tangerineiras, e depois entre estas e o laranjal.

Abeirou-se do poço e a braço, balde a balde, foi enchendo o tanque até ao ponto em que achou suficiente. Depois abriu a agua e esta escorreu para o sulco percorrendo-o, primeiro em grande caudal para depois este se ir reduzindo até se sumir completamente, mesmo antes de chegar ao pomar. 

A terra, que ali era fofa e arenosa, bebia a agua toda impedindo-a de chegar ao destino. Repetiu tudo sem obter resultado diferente sob o olhar do dono do terreno vizinho, que à distancia lhe seguia o esforço.
-"Ti Jaquim Bento, não adianta... As árvores estão mortas, há mais de dez anos que não são regadas... Mais vale levantá-las todas e plantar novas!" 
Ele levantou o olhar e aproximou-se do valado que separava as quintas para lhe responder com voz convicta.
- "Sabe?, o trabalho produz milagres! E não tendo a certeza de sua morte não quero eu ter o peso na consciência  de lha provocar."
Ficaram ainda um pouco por ali, a falar das estiagens prolongadas e do desleixo que o anterior proprietário tinha votado à quinta. Depois fez-se ao decidido: salvar o pomar. 

Não foi fácil arranjar cimento, mas lá conseguiu um saco na loja da Maria do Mouro, a um quilómetro dali, e de pronto o trouxe, num carro de mão que lhe fora emprestado.

Escolheu a eira, pelo espaço amplo e aí deu-se à faina, também ela nunca experimentada, de construir troços para a caleira. Construiu o molde de madeira. Preparou a argamassa. E encheu-o tantas vezes quantas aquelas para que rendeu o saco inteiro de cimento a que ia juntando pequenas porções da terra arenosa retirada de onde ela mais se parecia com areia. 
Acabou, noite dentro com mais de uma centena de peças feitas.

De manhã cedo, ainda dorido pelo esforço, foi-se a montá-las tendo o cuidado de as ir ligando com o resto de cimento que tinha guardado para tal efeito. E quando o sol já se ia pondo, confirmando a consistência da obra, iniciou a rega.
De dois em dois dias, repetia. E depois de três em três, passando à rotina de duas vezes por semana até que a primeira flor começou a irromper. Colheu-a e levou-a à companheira de uma vida inteira.
- "Toma-a Mariana, em Fevereiro teremos o milagre esperado", e parecia que o odor da pequena flor de laranjeira se espalhava pela casa inteira.

Dizia, quem as comia, não haver no concelho da Moita do Ribatejo outras laranjas com sabor assim como aquelas da quinta do Ti Jaquim Bento.
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O aqui contado surge fora da cronologia pois devia ter sido escrito antes deste outro conto

8 comentários:

Janita disse...

Mais uma vez aqui ficou provado, a têmpera do Ti Joaquim Bento, homem que fazia fé no resultado do trabalho braçal, levado a cabo com esforço e empenho.
O desfasamento cronológico não atrapalhou em nada o seguimento da histórias, elas encadeiam-se todinhas na mente de que vem ler com gosto e anda, para trás e para a frente, para não perder pitada.
Vê-se que o narrador teve a quem puxar. O trabalho não lhe mete medo nem a vontade de recordar o passado de labuta do seu antepassado. :)
Parabéns e um abraço ao neto.
:)

Maria Eu disse...

O trabalho, a persistência e o amor.

Beijinhos,Rogério :)

Rogerio G. V. Pereira disse...

O meu avô Joaquim...
...aposto que gostaria de ti!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Isso mesmo!
São valores com que me marcou
às quais junto um outro:
a frontalidade
(exposta, com extrema ironia)

Maria João Brito de Sousa disse...

Homem de amor ao trabalho e de engenho, também, o Ti Joaquim Bento, que ao mar foi buscar os segredos do amanho da terra.

Abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

E não esqueças o sentimento que o ligava a Mariana...
a primeira
a receber a flor de laranjeira

Elvira Carvalho disse...

O seu avô era homem de fé. E quem acredita faz. Gostei de ler mais este pequeno conto, que diz bem de que têmpera era feito seu avô. Tive a sorte de ter um pai assim.
Abraço

Traçados sobre nós disse...

Parabéns, para si, Rogério, pela força da mensagem, e para seu avô (e também para sua companheira, a primeira a receber uma flor). Abraço.