25 março, 2018

Um conto ao Domingo - VIII (A Revolução dos Deprimidos*)

«O que víamos nos filmes de ficção científica, não passaram assim tantos anos, está aí.
As máquinas ocupam o lugar do homem no desempenho das mais diversas tarefas. E que papel caberá a nós, humanos? Os mais otimistas, claro, apenas verão vantagens. Assim esta realidade foi apresentada quando era apenas ficção: ficaríamos livres para o lazer, para fazer aquilo de que gostamos, que nos dá verdadeiro prazer. A realidade, como de costume, mostra a outra face da moeda.»


Miguel não estava atrasado. Tinha todo o tempo se o soubesse bem planear. Pegou no seu TelLog e verificou onde se  situava a maior fila de espera, se no supermercado se nos postos de carregamento ali à volta. Tinha o seu veículo eléctrico com pouca carga e as tomadas existentes no condomínio não lhe mereciam confiança...
Enquanto bebia uma chávena de leite morno, programou-se, iria primeiro ao posto de carregamento 48, tinha aí disponibilidade dentro de meia hora. Reservou 15 minutos de carga. Reservou também uma maço de cigarros e um café, no quiosque local.
Enquanto bebia o leite, olhava a praceta deserta e em redor, nos prédios à volta, ninguém se assomava à janela. Um preocupação lhe tomou por momentos os pensamentos "E se o bairro atingir o nível limite de habitantes deprimidos?"
Já acontecera em outros bairros e, nesses lugares, todos os dispositivos de domótica integrada foram desligados e todos os serviços públicos, desde a recolha de resíduos sólidos à entrega de encomendas, passaram a ter os drones desactivados (aos deprimidos era vedado o acesso aos avanços da tecnologia).
Voltou ao quarto e espreitou Bruna, que dormia. Olhou-a enlevado, depois saiu, sem a acordar. Deixou-lhe uma mensagem no seu TelCom "Já venho. Bj."

À saída, na porta, dispensou  o uso da manga telescópica e da passadeira rolante que o poderia levar ao carro. Estava um dia soalheiro, apetecia-lhe andar um pouco e ainda tinha presente o que há tempos acontecera ao ficar encarcerado na manga umas horas pois o deprimido encarregue da reparação da avaria tinha entrado em depressão elevada e levou tempo a encontrar um substituto.

Chegado ao posto accionou a encomenda, encostando o seu TelLog ao sensor e, de pronto, um braço robotizado pegou no cabo enquanto o outro braço dava acesso ao ponto de carregamento. Verificou no visor se a encomenda correspondia ao encomendado e premiu a tecla "OK".

Dirigiu-se ao quiosque encostou o seu TelLog à célula local e respondeu-lhe ao gesto uma voz metálica "Recolha os seus cigarros e o seu
café. Obrigada por dar preferência ao nosso posto"

No supermercado, apenas uma contrariedade: a reposição da prateleira 2453 não tinha funcionado pelo que o artigo pedido não estava disponível. O deprimido que tinha essa missão entrou em elevada depressão, como lhe informava o visor.
Anulou esse item na encomenda e o carro robotizado percorreu o supermercado abastecendo um a um todos os itens da encomenda. Após conferir, premiu a tecla "OK" no TelLog, e a tal voz metálica lhe agradeceu, com "Volte sempre!" perguntando de seguida "Pretende entrega via drone?" Negou clicando na tecla adequada, pegou no saco e saiu.

A caminho, o TelCom anunciaria no modo alta voz.
"Últimas noticias:  o INFARMED acaba de licenciar medicamento que permite prolongar o estado de depressão dos níveis 1 e 2, passando estes indivíduos a terem uma vida útil de cerca de 20 anos" 
"Boa!" pensou Miguel. Chegado a casa encontrou Bruna já levantada mas muito pálida.
- "Que tens?"
- "Passei a manhã a vomitar. Sabes? Acho que estou grávida!" Miguel ficou radiante. Era a segunda boa notícia do dia. Beijou-a com ternura e afagou-lhe o ventre.


Correspondeu àquele beijo com a mesma intensidade com que se sentia beijada. Há muito que o Miguel não o fazia. Depois sentaram-se na cozinha, evitando a sala espelhada, onde em tempos, para simular estarem acompanhados a semearam de espelhos e se sentiam compensados das ruas vazias, olhando os seus reflexos.

Naquele momento queriam mesmo sentirem-se na intimidade. A gravidez de Bruna, que depois viria a ser confirmada, levava ambos a sentir essa necessidade. Falaram de projectos futuros, de como a vida iria mudar com um novo ser, da necessidade de se programarem de modo diferente, de como teriam de alterar a forma de gerir seus ofícios. "Podemos passar a gerir no modo virtual, os TelOficios estão em saldo e podemos configurar o software de forma a controlarmos o teu e o meu", sugeriu Miguel. 

Bruna reagiu em lamento, comentando a insegurança de ter a actividade do seu Oficio suportada apenas por dois deprimidos com o nível 2 de depressão e à beira do previsto "fim do período de vida útil" pelo que a sua entrada no nível de depressão seguinte requereria mais apoio presencial. Miguel tranquilizou-lhe a ânsia. E lembrou-lhe a notícia do medicamento INFARMED. "Se começarem o tratamento nos dias mais próximos terão a capacidade actual por mais 10 anos e, nessa altura, já a nossa criança terá mais autonomia" argumentou Miguel. Bruna, convencida, aceitou que fizessem a encomenda do aparelho naquele instante.
Ele fê-lo através do TelLog, exclamando "boa, a entrega será imediata!" e de seguida fizeram a encomenda do anunciado tratamento no sítio da farmácia virtual...

Passados 15 minutos, o quadro monitor da demótica do condomínio assinalava uma entrega proveniente do drone 327 e que este aguardava o aviso de recepção.  Miguel, clicou "OK" no TelLog. Bruna foi buscar o aparelho e em gesto apressado libertou-o da embalagem. Olhando o aparelho era, na aparência, igual aos dois outros apenas se diferenciado pela cor. O TelLog era azul, o TelCom amarelo e aquele era vermelho. "Configuramos já?" perguntou Bruna antecipando a resposta ligando o pequeno portátil.
Entrou no menú geral e clicou em "registe-se". Inseriu os dados do seu Oficio, identificação fiscal, número de deprimidos no activo, nível de depressão e número do Cartão de Cidadão (neste campo, havia uma nota, "o chip do CC assegura a rastreabilidade dos inputs). Parou. 
- "Miguel, o que significa isto?"
- "Acho que cada função a controlar tem por base a identificação da pessoa a controlada, deve ser isso!"
Bruna continuou para o menu das funcionalidades, passando o aparelho a apresentar uma tela com várias linhas em frente às quais tinha um espaço um apor um pisco:
  1. - relógio de ponto - v
  2. - atraso tolerado - v
  3. - localizações fora do Oficio (integra GPS) - deixou em branco
  4. - localizações dentro do Oficio (integra planta do edifício) - v
  5. - Lista de Tempos por Tarefa (integra Plano de Trabalho) - v
  6. - Tolerância para tempos despendidos fora do Plano - deixou em branco
De seguida clicou "em passar à tela seguinte" e apareceu o alerta "o campo 6 é obrigatório" e Bruna volta a inquirir Miguel:
- "Porquê este campo obrigatório?" 
- "Acho que se não preencheres esse campo deixas de poderes receber alertas sobre os riscos de incumprimento do Plano de Trabalho, deve ser isso!"
Bruna fica a pensar e depois exclama:
-"Ah, pois é!, agora me lembro quando estivemos a configurar no outro micro-portátil as encomendas a lançar nos supermercados, havia algo assim semelhante... até tinha um alerta sobre os riscos de mantermos conversa com os os deprimidos locais para além de um certo tempo... avisava que colocava em risco o completar-se a encomenda... lembras-te?" Dizendo isto, foi ao campo 6 colocar o pisco.
E continuou a introduzir os dados. Após validar toda a configuração, pediu ao Miguel se podiam passar para a sala de espelhos.
"Sabes?, preciso de ver gente!"
Nesse preciso momento recebia no TelCom, pela função alta voz, a seguinte mensagem:
«Última hora. Feitos hoje  os testes em carga sobre a nova fábrica de montagens de automóveis da Wolkswagen. Com as novas tecnologias de automação, todas as operações foram robotizadas bastando um único deprimido, com a qualificação de 1º nível de depressão, para assegurar o seu funcionamento. A CIP já comunicou ao Governo o Programa de recolocação dos 250 deprimidos que passam ao quadro de excedentários prevendo-se que, desses, 20% possam ser integrados em Ofícios de manutenção.»
Ia fazer no dia seguinte 25 anos.  E na sala, que já tinha sido de espelhos, relembrava o que aquela sala o fazia lembrar. Tinha ideia de ali ter gatinhado, de ali ter aprendido a andar, de ali ter dito a primeira palavra (embora não se recordasse qual, admitia ter sido a palavra "mãe"), de ali ter assistido ao ar feliz do pai dizendo-lhe ainda criança "olha a mãe tem uma depressão benigna, tem assegurada cura". Nessa altura nem conhecia todas as  palavras que seu pai empregara, mas o rosto e o tom com que o dissera, faziam-lhe adivinhar que as noticias sobre a mãe eram boas. E foram, sua mãe Bruna regressara a casa, curada sem riscos de ser qualificada como deprimida. E foi nesse mesmo dia que a sala de espelhos deixou de fazer sentido. Dia após dia, serão a seguir a serão, a sala era onde a família se reunia. Nunca mais foi necessário simular que havia gente, para além da gente que ali havia. Eram só três, mas a sala passou a estar cheia.
Fazendo esse retorno ao passado, ocorreu-lhe que o passado é mais que a memória que cada um guarda. Animado de um propósito subiu a escada. Tinha de descobrir quem seus pais seriam e qual seria o passado dos deprimidos. No sótão estaria a resposta. E procurou-a. Havia lá de tudo o que ficara fora de uso. A um canto, jazia tecnologia antiga, aparelhagem diversa e descontinuada. Tralha. Pegou naquilo que em aspecto mais se aproximava dos Tels em uso. Tentou ligar, mas não acontecia nada. Aturadamente foi tentando até que se ligou. Cedo percebeu que nem por ser coisa antiga lhe seria vedado o acesso. Raciocinou que os sucessivos up grades das actuais redes mantinham a lógica da primitiva que lhe dera origem. Foi insistindo, experimentando hipóteses...
E, a dada altura, "Bingo!" exclamou para consigo.

Ao entrar, a primeira imagem era enigmática, tinha o que lhe parecia ser um barco e uma frase "Nada é definitivo num naufrágio, havemos de corrigir o rumo errado!"  Que quereria aquilo dizer? Fez outras tentativas para encontrar a resposta e de cada vez que tentava mais perplexo ficava. Poema? O que seria um poema? Leu e releu, e começou-se a fazer na sua mente alguma luz... e uma pista: aquele nome, igual ao seu. Quem seria ele? Anotou a data, Dezembro de 2012. Foi há 100 anos. Ia a progredir na pesquisa, quando sua mãe o chamou: 
- "Rogério, tens o jantar na mesa, daqui a nada está tudo frio, filho!"
E desceu a correr.

No outro dia, e no outro, e no outro, muitos a fio, não descolou do propósito. Passado meses quase tinha a certeza de quem era (seria neto de um dos netos deles) mas não tinha qualquer dúvida de que a classe dos deprimidos era originária dos precários do século passado. A luta dos precários de então tinha-se gorado e a sociedade tinha mudado. Meteu-se-lhe então na cabeça um desafio: "Porque não regressar à luta? Porque não fazer renascer a esperança?" E voltou a ler o poema. Nunca tinha lido um poema assim, na verdade, nunca tinha lido nenhum poema na vida.

Passaram meses sobre a descoberta e a decisão de iniciar uma investigação. Para a investigação que tinha enveredado, faltava-lhe encontrar o algoritmo que conseguisse desligar cada chip de cada deprimido de forma a que este não fosse controlado sem que o sistema de controlo e os planos de trabalho fossem dar o alarme aos ofícios onde o deprimido estava alocado.  Resolvido e testado o algoritmo iniciaria o plano. 

Passaram meses sobre o teste do algoritmo, sobre o sucesso do teste e sobre o inicio do plano. Na sala, que antes tinha sido de espelhos, 397 rostos aguardavam poder contribuir para o que se fosse seguir: como desactivar todos os sistemas: da logística à domótica, dos tempos de controlo aos chips dos controlados, do accionamento dos drones à recepção de encomendas, dos braços robotizados a todos os "OKs" programados.  Consensualizado o plano, cada um foi para o seu lado, munido de uma tarefa, clara, precisa.

A data combinada? 25 de Abril! 
A senha? "Conversa Avinagrada"! 
(conto original publicado em Novembro de 2016, com o titulo "Os Deprimidos")