27 março, 2018

Teatrinho - encenação de uma obra de ficção (ou talvez não) -II

1º Acto 
Cenário - O palco está às escuras, o pano está levantado e a cena passa-se na sala das sessões do Palácio de São Bento, onde apenas emerge da penumbra a silhueta da República. À frente do hemiciclo, desarrumadas, algumas cadeiras e várias mesas. Ouvem-se as  pancadas conhecidas e o cenário passa a ficar tenuemente iluminado. Entra uma mulher, com passada enérgica. Leva um balde, uma vassoura, uma esfregona e um rodo.  Vai vociferando sem que se perceba uma única palavra até que vai à boca de cena e diz de forma clara. 
Mulher - Esta sala está um horror. Se respeitassem a República faziam como se faz num certo sitio, quando acabassem deixavam tudo arrumado, pois para limpar estaria cá eu. Isto, é, desde que não emporcalhassem tudo. Já não não basta a javardiçe das decisões...
Voz - Disseste falta de respeito? Foi isso?
Mulher - Foi mesmo isso! Mas... quem fala?
Voz - Sou eu, a República!
Mulher - A República? Onde?
Voz - Aqui onde me vês  (um foco ilumina a estátua)
Mulher - Ah!, ingrata. Levas já com a esfregona na cara!
Cai o Pano lentamente, 
enquanto a mulher ensaboa energicamente a estátua

2º Acto
Cenário - Levanta-se o pano, o hemiciclo está deserto, a República jaz ensaboada e nas bancadas dos deputados, do lado esquerdo do hemiciclo e nos lugares do líderes, três focos iluminam um rodo, uma vassoura e uma esfregona. Entra um homem, em passada larga e vem a assobiar uma marcha. Na mão trás uma mala de ferramentas. Chega ao centro e olha para o lado esquerdo.
Homem - Que distração... aquela mulher... olha que preparo!... 
Voz - E já viste o meu estado?
Homem - Quem me fala?
Voz - Sou eu, a República!
Homem - A República, onde?
Voz - Aqui onde me vês  (um foco ilumina a estátua)
Homem - Ah!, ingrata. Com este escopro e este martelo vou-te dar o devido restauro! 
Cai o Pano lentamente, 
enquanto a República sai em fuga. Entra o narrador

Estimado público a República está em fuga (aponta a vassoura), mas volta. 
Não esta, mas outra... por ventura mais limpa (aponta a esfregona) e deixa lá atrás o lixo todo (e aponta, por fim, o rodo!)

9 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

É de tua autoria, esta pequenina peça, Rogério? Gostei!
Não digo que me não atraia a figura da República com toda a sua força e simbologia, mas bem precisa de uma ensaboadela e de um restauro, depois das visíveis nódoas e marcas de sujidade que foi ganhando ao longo dos anos...

Abraço!

Gil António disse...

SILÊNCIOS
.
* Mulher: A essência sem raça nem cor. *
.
Desejando um abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

Em contra-relógio, para ainda ser publicada no dia em que se comemorou o teatro, escrevi o texto, montei os cenários, ensaiei os atores, sincronizei a ribalta e improvisei o papel do narrador...
gostaste?
então aplaude!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Os abraços não se desejam,
Os abraços dão-se

Mar Arável disse...

Boa malha.
Recordei a senhora da limpeza
Abraço

Graça Sampaio disse...

A República ensaboada?
Não lhe faltava mais nada...

Nem admira que esteja em fuga
ameaçada de escopro e de martelo pelo tuga...

(Aplaudo
o breve auto!)

Rogerio G. V. Pereira disse...

E julgas que não me lembrei?

Rogerio G. V. Pereira disse...

...anota
está em fuga
mas volta

Maria João Brito de Sousa disse...

Aplaudo, claro está! Aliás, já aplaudi!