22 dezembro, 2011

1969 - Memórias desse Natal


O livro. O livro que, sem incentivos de amigos, nunca seria um livro, um livro dos verdadeiros, daqueles de tocar, de folhear, de estar ali ao pé, fechado, aberto em qualquer lado ou onde se ia... É importante isso de se ter um livro? Sim, talvez.... por vezes só por isso de ser um livro, um livro com memórias lá dentro... nomeadamente...


NATAL DE 1969
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"(...) Naquele dia, véspera do primeiro Natal em terras de Angola, o capitão Só Alma surpreendeu. Não compareceu a todas as formaturas, nem ao içar da bandeira, nem almoçou na messe de oficiais com os demais. Foi o cabo cantineiro, a mando do oficial de dia, saber o que se passava e veio com o recado: «O nosso capitão está bem e disse que já cá vem.» 
E veio. Trazia na mão uma carta, pediu para que todos se reunissem na parada e assim aconteceu. Firme, sentido, eram a voz de comando seguida de calcanhares batendo. O capitão Só Alma aproximou a carta à altura de ser lida. Esteve longos segundos com a carta nessa posição. Depois deixou lentamente o braço descair e desistiu de a ler, se é que tinha intenção de o fazer. Com uma voz que ninguém lhe ouvira antes, disse: «Hoje, por ser a noite da consoada, temos rancho melhorado, vinho à descrição e mais uma refeição à meia-noite. Há bacalhau e couves e a luz só se desliga depois do menino nascer.» De seguida deu ordem de destroçar. Minha Alma até poderia ter comentado mas seguiu o estar do Meu Contrário que ficou calado. Assim também ficaram todos e foi em silêncio que dispersaram, sem achar excessiva ou despropositada a cena. Talvez porque todos tínhamos recebido uma carta e sentido ganas de a ler em voz alta…
A ceia foi como o capitão Só Alma disse que iria ser, e foi prolongada com os mimos que quase todos receberam de casa, no último correio chegado de Maquela: broas; duros bolos-reis; passas e até alguns sonhos e rabanadas, retardadas por alguns dias de viagem. Tudo era partilhado. O vinho não chegou em quantidade e não chegaria nunca para a avidez de todos. As securas de alma não se amenizam assim, de pé para a mão. As conversas animaram-se até tarde. Já passava muito da meia-noite e a luz se apagara, quando voz aflita veio interromper o meu uísque com bala dentro, travestida de gelo (hábito que entretanto regressou). Veio dizer-me que o soldado Alma do Oriente estava mal e sem acordo de si. O Alma do Oriente era um soldado de ascendência goesa, magro, baixo e de olhos muito negros e humildes como os seus gestos e trato. A sua religião não lhe permitia o álcool e ninguém o tratava por «monhé», tal o respeito que lhe tinham. Estava de lado, deitado, de camisa e calças desapertadas. Hirto, sem arfar, parecia em coma. Pedi que arranjassem amoníaco para lhe dar a inalar, mas apenas consegui aguarrás. Demos a beber café bem adoçado e por ali fiquei a seu lado. Passadas horas, duas talvez, ouviu-se-lhe um som de lamúria  ininteligível. Segundos depois um «ó mãe» e nova pausa para depois outro «mãe» e «ó mãe». 
Não sei quantos «ó mães» ouvi mais, tantos foram esses ais. Todos suspirámos de alívio. Minha Alma, sorridente dizia com a já conhecida ironia: «Rogério, esse é Jesus renascido e meu nome é Maria.»
 Rogério Pereira, in "Almas Que Não Foram Fardadas"  (pode  adquirir aqui)