04 dezembro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 60

Lendo a imprensa da semana e a do dia, não contenho, contrafeito, o sentir que nos vão estragar o mar e o que ele tem para nos dar. Desertificada e depauperada a terra, agora querem também fazer o mesmo ao mar. Esta gente pode tudo. Retirar-lhe até o sal, que diz o poeta serem lágrimas de Portugal. Não posso deixar de o temer, agora que se diz que a grande esperança da Europa está na estratégia para o Atlântico. Por estas palavras poder-se-ia pensar que eu tinha escolhido a "jangada de pedra" para a homilia de hoje. Estive para fazê-lo e repetir aqui a minha expressão de então: "Depois de afundarem o país, preparam-se para afundar o oceano"

Não o farei. Prefiro lembrar, hoje, que foi um brasileiro, do outro lado do mar, que me fez ler Saramago. Conta-se em poucas palavras: Retribuía-me, com a vinda dele, um estágio meu, em São Paulo, onde tive tratamento que me orgulhou e comoveu. Foi em 1989. Tinha que o tratar por igual, aqui. Terminada a estadia e já de regresso, aquando da saída, à despedida, ofereci-lhe duas garrafas de vinho do Porto e um livro, escolhido por conhecer seus interesses e hobbies, de entre os que figurava a paixão por construções com história, mosteiros e castelos e outras edificações monumentais. Não tinha lido tal livro, mas por saber ser esse o tema escrevi-lhe longa dedicatória. Levou as oferendas, agradecido. Passaram os dias até à chegada daquele intrigante mail. A linguagem era clara mas o assunto era estranho e parecia deslocado dos temas profissionais que nos ligavam. Blimunda e Sete-Sóis apareciam no seu discurso, como parentes nossos... Fez-se um clique e lá fui correndo à livraria próxima (hoje já encerrada) comprar "O Memorial do Convento", decidido a lê-lo e a responder na mesma toada. Não foi fácil e a resposta ao mail do meu colega brasileiro saiu com um atraso de dois dias. O romance? Tive que voltar a lê-lo depois, para saborear as palavras que a ele tanto tinham agradado. Este episódio tem entre nós um significado tal que mais parece não haver entre nós tanto mar.

HOMILIA DE HOJE
[...]Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se, Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bate de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.
[...]  - pág. 56 
[...] na vida tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes, nós vamos a tecer vimes, arames e ferros, e também recolher vontades, para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer, isso mesmo fizemos com o cérebro [...] -  pág. 134