15 dezembro, 2011

Metamorfose - IX (Ali estão, beijando vermes)


Ali estão, beijando vermes

Sigamos o cherne, disse depois a mulher
Nas águas, já mais espessas,
as ondas rastejavam, e mal se sentia
o cheiro da já longínqua  maresia

Sigamos o cherne, agora ninguém o proclama
Onde antes havia água tudo é lama
As ondas se esfumaram na própria espuma
Da maresia, resta tão pouca, ou mesmo nenhuma

Os que antes aceitavam beijar o cherne,
acordam beijando um verme
sem amor, sem alegria de ser beijado

O cardume não se dispersou,
apenas anda em desnorte
temendo, adivinhando, a sua sorte..

..............................................................................................Rogério Pereira

16 comentários:

intimidades disse...

Lindissimo

Bjinhos
Paula

Fada do bosque disse...

Eu não achei beleza nenhuma... especialmente porque se chega a um ponto, em que a bússola deixou de funcionar... mas será que a Terra perdeu os pólos magnéticos ou sou eu que já não sei ler o que diz a bússola? :(
Com a a corrente é que não vou! Prefiro batalhar contra.

Um abraço

Maria disse...

O original de O'Neill é belíssimo.
Esta versão serve para não nos esquecermos do cherne e para nos acordar para a luta!

Luís Coelho disse...

Bom dia
Fabuloso este poema Rogério.
As figuras são reais e o cherne anda apodrecido, mal cheiroso. Tornou-se lamacento e escorregadio naqueles mares que perdem a vida diariamente.

Nem Santo António agora é respeitado naquelas conversas de família.
Os peixinhos não voltarão a escutá-lo. Andam envergonhados.........
tristes por tantas diabruras e mal querer.........

folha seca disse...

Caro Rogério
O problema do "Cherne" não o do O`Neill, mas o outro foi o de ter sido criado num "aviário" à custa de farinha de engorda. O problema é que outras figurinhas da mesma espécie (e da mesma criação) andaram e andam por aí a lixar-nos o presente e o futuro. E a gente que se "amanhe".
Abraço

São disse...

Excelente poema, meu caro.
Pena que o cherne (o verdadeiro, o peixe ele mesmo) seja insultado com tal comparação.

Tudo de bom

Evanir disse...

Hoje estou aqui para agradecer sua amizade .
E desejar um Santo Natal a você e sua familia preciso acarinhar minhas lindas
amizades fico temerosa de deixar alguém sem passar no blog.
Esta postado no meu blog um presente de Natal feito com muito carinho.
Caso gostar esta a seu dispor e louvo a Deus pelo previlégio de conhecer você.
Que perdure para sempre esse carinho essa amizade tão linda te amo ..te amo..
Beijos no coração .
FELIZ NATAL..
Vou continuar te seguindo e te amando sempre.
De mãos dadas rumo ao futuro.
Evanir

Rui Pascoal disse...

Sorte rima com morte...
Acordaremos ainda a tempo?

O Puma disse...

De facto

a canalha continua à solta

acácia rubra disse...

Oportuno, satírico, caustico.

Mas porque me estou a preparar para o Natal, aqui venho deixar-lhe votos de uma Paz imensa, de beijinhos e abraços de todos os que lhe são próximos.

Bom Natal!

Beijo natalício

Lídia Borges disse...

O falar do mar, de peixes, no dia de hoje, leva-nos para além do poema. É a pesca e os pescadores, de novo, a serem atingidos pelas manobras desse "cardume" inqualificável.

Belo diálogo com O'Neill.

L.B.

jrd disse...

Belo poema ou a arte de falar do "fénico" com talento.

Flor de Jasmim disse...

Caro Rogério
Excelente forma de falar do verme.
Espero que o peixe não o processe por difamação e tal comparação.

Beijo e uma flor

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Nunca percebi essa de as pax andarem sempre em desnorte e nunca em dessul!
Será porque não têm bússolas?

Jaime Ramalhete Neves disse...

O Polvo
(Sermão de Sto António aos Peixes)
“Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar.

Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!”

Padre António Vieira, 1654.

carol disse...

"apenas anda em desnorte" - em desnorte andou ele sempre, por isso fugiu para Bruxelas onde, para cherne, navega em águas tão paradas, tão turvas, que mais parece um cachucho...