11 março, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 74

Por cada texto escrito, aqui, diariamente, eu leio milhares de palavras: leio frequentemente para optar sobre o tema que devo escolher ou fundamentar os meus escritos; leio o que se escreve e o que escrevem amigos. A estes quase sempre deixo um comentário, de improviso. Essa tarefa diária de o fazer, vai-me marcando cada vez mais a impressão de que meus amigos se afundam na vã procura de uma felicidade que entretanto afirmam inalcançável. Parece que foram tomados pela desilusão de, durante o que lhes resta da vida, chegarem a ela um dia. A mim, se fosse dado a depressões, deprimir-me-ia  mais que não se procure a harmonia das coisas, o seu equilíbrio e que para isso não se procure, na relação com o outro, as pontes para entendimentos mais estáveis do que as que estimulam os sentidos, o prazer, a paixão, ou o inverso de tudo isso... Vivemos numa sociedade que se deixou envolver por um individualismo atroz que a si próprio se engana e que serve para enganar (ou distrair) os outros. E esses outros a outros ainda. Será por isso que um meu poeta dedicou aos "netos dos meus netos" as suas memórias? Talvez, pois não vejo nem nestas nem nas próximas gerações qualquer apetência ou mesmo aptidão para outras procuras que não seja essa vã tentativa de chegar à felicidade individual...

HOMILIA DE HOJE
«Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta.»