22 março, 2012

Como se tudo dependesse da Primavera - II


CLASSE MÉDIA
Temendo a greve, o marido
já tinha saído
Deixou a agua a correr, na temperatura requerida
Preparou o que vestir, a roupa interior, a blusa garrida
e aquela saia rodada
A banheira transbordava
Escoou-a um pouco para que lhe coubesse o corpo
Estendeu-se, languidamente,
deixando que o quente, lhe amainasse a pressa
Não esqueceu os sais com odores de flores
E assim ficou, longos minutos
até despertar para o tempo
em gestos resolutos
Massajou o cabelo, com desvelo
depois de lhe deitar o champô com odor a maçã
Passou pela pele o creme de amêndoas
e no rosto o costumado anti rugas, levemente aromatizado
Vestiu-se., fez o penteado
e treinou a silhueta, olhando-se de perfil, detrás e de frente
Esboçou um riso, contente
Na cozinha, preparou um chá de jasmim
Hesitou, entre este, e a prateleira de cima do frigorífico
onde, alinhados, estavam os iogurtes, ricos em bifidus
muito coloridos
e não açucarados
Optou por o de  morango aos pedaços
Trincou uma tosta com doce de frutos silvestres
e meteu na mala a caixa de chicletes
Antes de sair, fechou a janela
não fossem os pólens entrarem por ela
Apressou-se, ia chegar atrasada
à esplanada
Chegou, gabaram-lhe  o ar e o trajar
os cheiros, o penteado e o sorriso
E entrou na conversa sobre os horrores da moda, o preço das extensões, dissertando pelos inconvenientes de se ter um filho, no ponto preciso
surge-lhe uma chamada
Era o marido anunciando que fora despedido
Num gesto impensado desligou
Perguntaram-lhe quem era
Respondeu - alguém que se enganou...
Tranquila,
pediu um gelado com sabor a baunilha
----------------------------------------------------------------------------------------- Rogério Pereira 

16 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Sorri enquanto lia, mas não sei se deveria.
Bela posta, meu caro.

Gisa disse...

Nada seria demasiado forte para ela. Podia tudo, sabia disso.
Um grande bj querido amigo

São disse...

Não se consegue, por vezes, enfrentar a dureza da realidade à primeira!

Boa noite, amigo

ematejoca disse...

Concordo absolutamente com o Carlos, uma bela e profunda posta, que me lembra um poema do Brecht.

Gostei muito, Rogério!

folha seca disse...

Caro Rogério
Li e sorri como alguem aqui diz.
Lembrei o tal poema do Brecht, como tambem alguem aqui refere.
O post diz tudo, só não entende quem não quer!

Sobre os meus vidreiros, não lhe digo nada, porque passei o dia na terra dos "limeiros" que já não existem. Embora também até há pouco lá houvessem alguns vidreiros, que tambem já não há (os empregos, claro).
Abraço

acácia rubra disse...

"... pediu um gelado com sabor a baunilha" que apesar de gelado não a fez acordar.

Por aqui, todos os dias são dias de gelado desespero com mais pessoas no desemprego.

Beijo

as-nunes disse...

Um retrato fiel do que é uma certa classe média (que já era) e que vai ter muita dificuldade em se consciencializar que a vida mudou, vamos a ver no que vai dar toda esta revoada de medidas e avanços e recuos, tentando enganar-nos, favorecendo os seus mais próximos, o povão que se amanhe, que se desenrasque com as migalhas que lhe chegam (quando chegam) às mãos.

Quanta "classe média" à rasca!
E não o querem admitir!
Abram os olhos, caramba!

BRANCAMAR disse...

O retrato pefeito de muita gente que vai sofrer e ainda não acordou para a realidade, nem quer acordar.

Muito criativo este texto, muito interessante mesmo.

Beijos

Rosa dos Ventos disse...

Uma enorme mistura de sentimentos que me levam a ficar...perplexa!
Creio que não há nenhuma família portuguesa das ditas normais que não esteja a sofrer com o flagelo do desemprego! :-((

Abraço

Vítor Fernandes disse...

Rogério poeta numa bela crónica de uma manhã anunciada. É sempre um prazer entrar pela tua escrita dentro.

Anónimo disse...

Ai Rogerito, se soubesses o que sinto por ti...

Beijos

Isa GT disse...

E o gelado seria... Made in China?

Bjos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

antes de tudo, que texto belíssimo. a escrita, a cadência das palavras, maravilhoso.

ah, amigo...aqui tb sentimos que a primavera cheio mas...não entra dentro de casa. o cenário por aqui tb não é nada dos melhores, o inverno parece ter se instalado com força. haverá nova primavera um dia?

um forte abraço

Fernanda disse...

Exactamente, Rogério.
O que é preciso é viver de aparências e futilidades.
Adorei o sarcasmo.

Beijo

Graça Sampaio disse...

Isso era dantes! A classe média já não é o que era. Acho que até já nem há!

Lídia Borges disse...

Em jeito de provocação...

Será mais eficaz ou não?

Um beijo