13 março, 2012

O Processo Histórico, o "cenador" Mário Soares, António Gedeão e... a tal geração

Imagem de há um ano atrás e um link para um ultimato meu 

O Processo Histórico - Sabem, quem me lê, quanto uso a dialéctica como ferramenta para entender o mundo. Sabem, também, que dou valor às lições da memória, minha e de quem escreve a história. Nesta, há, na sua própria dialéctica, o conflito geracional como processo do próprio movimento da história. Neste domínio, o mundo pula, avança ou regride consoante um conjunto de situações e os valores em causa: os que são defendidos pelos velhos e os contrapostos pelos novos. A síntese será o que for, em cada momento. Mas se numa dada situação, como parece ser a de hoje,  os velhos valores são difusos, contraditórios, incoerentes e inconstantes, a par de outros que agressivamente se afirmam, não se espere dos novos outra coisa senão a abulia, a negação pela negação e a queixa dorida de quem, nem sequer, consegue entender o que contradizer. Entre resistir e desistir, há um gradiente de opções pouco temerário para se poderem operar mudanças. No horizonte só se vislumbram alterações relevantes se os novos descobrirem (se descobrirem) que nada terão a esperar de quem está à frente dos poderes e da cultura. Ou, pior, que essa descobeerta lhes venha cair em cima.

O "cenador" Mário Soares - Mário Soares é um senador e homem de valores. Valores que marcam uma época. Não alinhando pela teoria de que são os heróis que são o motor da história, falo do seu nome como um paradigma das lideranças e das ideias, que durante a vida dos da minha geração, sobreviveram e continuam a influenciar a maneira de pensar, mesmo quando se pensa em contra-ciclo do poder, que circunstancialmente é detido por quem parece defender outras.  Mário Soares meteu o socialismo na gaveta sem que se saiba exactamente o que lá meteu e defende-se o socialismo democrático sem que se saiba exactamente o que isso é. Na difusa afirmação do que isso possa ser, regressa, em força, o neo-liberalismo. E isso sente-se o que seja. Mário Soares, defende hoje no Diário de Notícias "o passado pertence aos historiadores e o que conta, na atual emergência, é o presente e o futuro para onde caminhamos. É o que interessa aos portugueses." Este apelo para que se enterre a memória é, nesse mesmo artigo, continuado pela afirmação, válida para quem aceita perder a memória: "talvez seja o momento de o Governo português renegociar com a troika e deixar-se de complexos. Não devemos deixar degradar mais a situação!" O senador passa a cenador (acho que acabei de inventar a palavra) e encena mais uma vez a cena do olhar tutelar da sociedade portuguesa. Outros cenadores lhe continuarão a comédia... Não admira a desorientação dos jovens que, sem os contrariar, deixaram de saber em que situações "Soares é fixe" e poder avaliar o "porreiro, pá".

António Gedeão - Falei, num post atrasado, do meu poeta, sem que muitos se apercebessem das implicações desse meu escrito. Para mim é claro. Ou por razões atrás descritas, ou outras, António Gedeão não vê que a tal bola colorida possa pular e avançar nas mãos de uma outra criança que não seja um neto dos meus netos. Ele não espera grandes coisas destas próximas gerações. Os poetas vêem muito para além do seu poema... Lamento é que os culpados disso sejamos nós.