08 março, 2012

Ainda as mulheres, em Nharêa

"O «Meia-Cuca» permanecia com rosto malicioso e deixou-me sem palavras por momentos. Nesses segundos, ia reflectindo no que pensara o miúdo. Rompi o momentâneo embaraço, com a insistência: «Sabes ou não onde mora a mulatinha surda?» O ar do «Meia-Cuca» alterou-se. Ficou entre a dúvida e o espanto. Repeti, mudando os termos, e o garoto explodiu em gargalhadas e disse, deixando-me desorientado: «Us mulher que tu procurar, saber ouvir meismo bem, só que tem marido perdido e fica no fingir não ter ouvido de ouvir coisa d´home.» Pesava-me mais a malícia do que a notícia, pois pareceu-me natural o expediente da mulata bonita. Essa representação, afinal, era tão coincidente com o ditado popular «mulher séria não tem ouvidos», tendo ela, assumido o sentido literal de tal ditado, mesmo se me parecesse nunca o ter ela escutado. «Eu sei onde ficar us cubata dera, te levo lá.» Escusei-me, mas pedi-lhe que fosse lá ele perguntar se ela queria ser minha lavadeira. Voltou-lhe o ar malicioso e foi, a correr. Já distante, vi-o pular para com os dedos tentar tocar o ramo mais saliente de uma mangueira. Não esperei muito e de volta trouxe como recado que meu convite fora negado. «Volta lá e diz-lhe que pago o que paguei pela fruta.» Sempre julguei que pela satisfação que ela teve ao receber tal quantia, que fosse um preço razoável, tanto mais que pagava menos da metade desse valor à lavadeira que tinha. Ele foi e logo voltou a dizer que ela negou. Mas trazia um argumento. O preço oferecido era quanto, num só dia, ganhava o marido e ela não podia ganhar tão pouco num mês. Mandei o «Meia-Cuca» voltar, sem que este se mostrasse cansado ou enfastiado por aquele ir e regressar, levando e trazendo recado. «Meia-Cuca» pensava que o seu dia ia ser bem pago, não importava como. Julgo até que se divertia enquanto vinha e ia, ia e vinha. «Diz-lhe que lhe pago não ao mês mas à semana, a quantia de que falei.» O «Meia-Cuca» foi mas não regressou só, com ele vinha a mulata escurinha. Como não vinham a correr, deu para lhe voltar a admirar a maneira de andar e pensar como pode um homem ser contratado por valor tão baixo e perder a relação com mulher tão bela. Chegados, ela falou sem tirar os olhos do chão, por certo envergonhada, da mentira que me pregara. «É verdade meismo quí tu mi paga quinze escudo por semana de rôpa?» Abanei a cabeça afirmativamente, mas ela não viu esse gesto pois não tirava os olhos de onde os tinha posto. Ia a estender a mão para lhe pegar no queixo, e levantar-lhe o rosto, mas desisti, limitando-me a dizer a palavra «sim». «E qui vai tu dizer a tua lavadeira de agora?», perguntou olhando-me pela primeira vez. Respondi: «Deixa comigo, ela não fica sem ocupação.» E não. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao aquartela-mento foi dizer ao Alma Loura: «Já te arranjei quem te lave a roupa…»"
Rogério Pereira, in "Almas que não foram fardadas", pág. 107/108 
Foto da net