07 março, 2012

Angola (1969-1971) - Memórias de factos, afectos, angústias e medos

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Era uma tonalidade tão bela que só poderia ser obra de mulher 
a afastar o sol no horizonte. Chamei-lhe Maria do Sol
"Passado um declive muito acentuado, a coluna subiu uma ravina pouco inclinada e avistou o aquartelamento. Logo a seguir, mais de uma centena de soldados vieram ao nosso encontro gritando coisas diversas. Fixei apenas uma exclamação: «Olha a nossa salvação!» E éramos. Vínhamos render aquela gente e por isso estavam tão felizes. No céu, para onde olhei inadvertidamente, talvez para perceber de que lado estava Deus, se com a satisfação dos que iam regressar se com a tristeza dos que acabavam de chegar, apenas vi uma tonalidade avermelhada e calma do sol a partir. Era uma tonalidade tão bela que só poderia ser obra de mulher a afastar o sol no horizonte. Chamei-lhe Maria do Sol e ela antes de a estrelada noite aparecer, pareceu-me ter dito: «Rogério, amanhã o sol voltará, para te alegrar a Alma…»"
Rogério Pereira, in "Almas que não foram fardadas", pág. 33