04 março, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 73

Talvez nem faça falta o lápis azul da censura, nem seja caso para que se convoque reuniões no mais receoso sigilo, como se, clandestinos, passássemos a ser em plena democracia. Ao pensamento único passa a ser suficiente o uso de uma ferramenta eficiente: a omissão. Mas as coisas vão-se sabendo, correm por corredores e por esta coisa, quase milagrosa, a que chamamos tecnologias da informação e comunicação. Durante algum tempo estive na dúvida, se ir à Voz do Operário se antes apetrechar-me de conhecimentos em domínios que me são ainda estranhos, como são os dessa ciência, tão pouco exacta e a que chamamos "economia". Optei por esta última e fui, assim, à conferência promovida no âmbito do 90º aniversário da Seara Nova. Seria bom estar nos dois lados. Talvez um dia, tenha esse misterioso poder que nem Deus tem, de ser omnipresente. Quanto à conferência, foi seu desenrolar bem superior à expectativa, e disso falarei quando, no seu próximo número da revista, forem publicadas as comunicações de António Avelãs Nunes e João Ferreira do Amaral. Fica, para ilustrar esta homilia, este pequeno enquadramento e a composição da Comissão de Honra que preside ao aniversário da revista: Dr. António Arnaut, Prof. António Avelãs Nunes, Prof. António Borges Coelho, Dr. António Costa, Prof. António Reis, Engº. Aquilino Ribeiro Machado, Drª. Catarina Vaz Pinto, Prof.ª Dulce Rebelo, Prof. Eduardo Lourenço, Prof. Fernando Correia, Dr. Francisco Melo, Prof. João Caraça, Prof. José Augusto França, Prof. José Barata Moura, Pintor Júlio Pomar, Pintora Maria Keil, Prof. Manuel Carvalho da Silva, Dr. Mário Soares, Prof. Óscar Lopes, General Pedro Pezarat Correia, Prof. Pedro Saavedra, Drª. Pilar del Rio, Dr. Rui Vilar e Prof. Urbano Tavares Rodrigues. Entre tanta gente, haverá quem se disponibilize para a discussão urgente e necessária, do regresso a caminhos interrompidos.

HOMILIA DE HOJE 
. Entre a intervenção e afirmação politica e me  a   "É impossível não nos apercebermos de que a chamada democracia ocidental entrou em um processo de transformação retrógrada que é totalmente incapaz de parar e inverter, e cujo resultado tudo faz prever que seja a sua própria negação. Não é preciso que alguém assuma a tremenda responsabilidade de liquidar a democracia, ela já se vai suicidando todos os dias. Que fazer, então? Reformá-la? Demasiado sabemos que reformar algo, como escreveu o autor de II gattopardo, não é mais que mudar o suficiente para que tudo se mantenha igual. Regenerá-la? A qual visão suficientemente democrática do passado valeria a pena regressar para, a partir dela, reconstruir com novos materiais o que hoje está em vias de se perder? À da Grécia antiga? À das cidades e repúblicas mercantis da Idade Média? A do liberalismo inglês do século xvii? À do enciclopedismo francês do século XVIII? As respostas seriam com certeza tão fúteis quanto já o foram as perguntas... Que fazer, então? Deixar de considerar a democracia como um dado adquirido, definido de uma vez e para sempre intocável. Num mundo que se habituou a discutir tudo, uma só coisa não se discute, precisamente a democracia. Melífluo e monacal, como era seu estilo retórico, Salazar, o ditador que governou o meu país durante mais de quarenta anos, pontificava: «Não discutimos Deus, não discutimos a Pátria, não discutimos a Família.» Hoje discutimos Deus, discutimos a pátria, e só não discutimos a família porque ela própria se está a discutir a si mesma. Mas não discutimos a democracia. Pois eu digo: discutamo-la, meus senhores, discutamo-la a todas as horas, discutamo-la em todos os foros, porque, se não o fizermos a tempo, se não descobrirmos a maneira de a reinventar, sim, de a re-inventar, não será só a democracia que se perderá, também se perderá a esperança de ver um dia respeitados neste infeliz planeta os direitos humanos. E esse seria o grande fracasso da nossa época, o sinal de traição que marcaria para todo o sempre o rosto da humanidade que agora somos."