23 agosto, 2012

As estrelas dormem de dia!


Jussara "descobriu"(*) que estas ilustrações, de Álvaro Cunhal,
ilustram um livro que me marcou... Nunca lhe disse que se enganou

O semanário Expresso editou, num fim de semana que já passou, "50 livros que toda a gente deve ler". A lista não é extensa, tem exactamente cinquenta títulos recomendáveis. Encontro, do muito aí promovido, muito do que li. Mas dos livros queridos, daqueles que marcam por terem sido os primeiros que me foram dados a ler... nem um. Podem crer. 
Vai dai, procurei em toda esta minha escrita, referências as esses meus primeiros amores. E descubro que Jussara editou um texto meu que nunca editei aqui. Nesse texto falo de livros que me marcaram. Daqueles que o Expresso "esqueceu" e que os lembro eu... 
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Dois livros marcantes

Há livros que não só nos marcam como passam a fazer parte da estrutura do nosso sentir (se é que o sentimento é coisa estruturada) e dos valores que lhe dão expressão. Livros que nos (re)iniciam na leitura. Refiro dois, lidos com pouco intervalo e quando era ainda entrara na adolescência: "Esteiros" de autor português Soeiro Pereira Gomes e "Capitães da Areia" do brasileiro Jorge Amado. Apetecia-me escrever sobre os dois, o que têm de comum e o que os diferencia, como me marcaram e emoções que me despertaram, mas não o farei. Por falta de tempo, pelo espaço que ocuparia abusando da cortesia da Jussara e também porque a memória iria atraiçoar-me, pois é bem distante o tempo em que os li. Falarei do livro, para vós brasileiros certamente menos conhecido: Esteiros o livro que foi dedicado, pelo autor “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”:

A rua Morais Soares é uma rua singular de Lisboa por razões que um dia ainda hei-de escrever e porque grande parte do seu inicio é confinada por um muro alto, que rodeia o cemitério do Alto de São João. Em frente ao portão, não usado para as cerimônias fúnebres, do outro lado da rua havia uma loja, também singular por ter dois balcões. Cada balcão dedicado a negócio diferente: de um lado, livros para uso dos vivos; do outro, flores para honrar a memória dos mortos. Eu frequentava a loja, na parte dedicada à gente viva. Comecei a fazê-lo ainda usava calções. Ia lá alugar livros, pois era esse o negócio do Sr. Cunha (sua mulher vendia flores e construía com elas palmas, coroas e ramos belos). Durante anos a fio li tudo de que o Sr. Cunha dispunha: livros do Zé Fagulha, todos os da colecção de “Os cinco” e depois livros de “cobaiada” (aventuras de cowboys), policiais e até novelas de amor e dramas de “faca e alguidar”. Era literatura fraca, de enredo enredado e fácil de ler. Esgotei todos os títulos. Tudo eu li e o Sr. Cunha não renovava o stock com a mesma velocidade com que eu lia. Sem novidades, desabituei-me de entrar na loja e os anos foram passando, limitando o meu contacto com o Sr. Cunha e sua esposa e um cordial cumprimento, até como recompensa por ter perdido um freguês tão assíduo. Tinha para aí dezesseis anos e a escola não tinha conseguido mais do que continuar a cultivar-me os hábitos de leitura, sem contudo a orientar. Um dia o Sr. Cunha disse-me ter livros novos e convidou-me a entrar. Tinha, tinha muitos. Temendo ele minha escusa antecipou-se a uma eventual desculpa para me negar e mostro-me um livro dizendo tratar-se de aventuras de meninos da minha idade, mas serem aventuras sérias, coisas da vida real e segredou-me: “Há coisas que precisas de conhecer”. A capa não era sugestiva, mas as ilustrações eram. Ele leu-me uma página, descrevendo coisas que afinal eu até conhecia e acabou por me convencer a levar e a ler. Não era conhecimento novo era uma linguagem nova. Nova e bela, e ainda não tinha até aí lido uma como ela:
“(…) Sagui quase que não pregou olho toda a noite. Pelo colmo do palheiro que fora do guarda das vinhas via ele as estrelas a tremer com sono ou frio. Sono, decerto, porque, segundo a sua teoria mal o sol anunciava o dia, elas fechavam os olhos.
- Gineto: descobri que as estrelas dormem de dia.
- És parvo.
Se bem que escarnecido, Sagui manteve a afirmação. Tinha muita admiração pelo Gineto, que tudo resolvia; mas aquilo de estrelas, ele não percebia mesmo nada.
- Atão porque é que elas nâ se veem agora?
Ninguém explicou. O Coca, que tinha pena de não saber ler, ainda disse:
- Se eu andasse na escola, sabia.
Dias depois, Sagui fez a mesma pergunta a um aluno da 4ª classe, e, como o menino se calou também, ficou desde então convencido que as estrelas dormiam de dia. Gostava delas o Sagui. Chegava a entristecer-se quando alguma riscava o céu e desaparecia para sempre, num rasto de luz.”
Li todo o livro, mas retive-o até ter dinheiro para alugar outro. Na semana seguinte, o Sr. Cunha alugou-me o Capitães da Areia. Voltei a ser seu cliente e passei a ler os seus livros novos até lhe esgotar novamente o stock.

(*) Jussara se enganou, as ilustrações de Esteiros foram estes outros desenhos, também de Álvaro Cunhal

13 comentários:

  1. Os livros que toda a gente deve ler é uma sugestão... muito subjetiva. Não li o artigo (se o há), vi apenas a lista. Quem são as pessoas que elaboraram a lista? Ainda não pesquisei mas talvez o vá fazer.

    Há muitos clássicos que não foram mencionados. Muitos autores que deixarem de ser lidos, por uma razão ou por outra. Também depende do ambiente em que estamos inseridos. Se a memória não me falha, Mark Twain não fazia parte da lista, nem Harper Lee, J. Steinbeck, Pearl Buck que ganhou o prémio Nobel em 1938 (apenas há 2 ou 3 escritoras na lista). E quem não leu ainda Tennessee Williams? Ah! E Gore Vidal.

    Eu acrescentaria os canadianos Lucy Maud Montgomery, Michael Ondaatje, Margaret Atwood e Robert Davies.

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  2. Já ouvi falar nessa lista, mas gosto pouco de listagens....embora tenha lido muitos dos que lá estão.

    Um bom dia, amigo.

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  3. No preâmbulo da tal lista diz-se que não há listas perfeitas e no fim acrescenta-se que, apesar de não agradar a todos, é indiscutível a qualidade dessas obras.
    Não deixa de ser verdade!
    Também não era a minha lista...:-))
    Aproveitei no final dos comentários feitos à minha postagem, uma vez que também falei dela, para acrescentar mais alguns e "Os Esteiros" lá estão!
    Gostei do teu texto enviado à Jussara onde andam também algumas leituras da minha infância...

    Abraço

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  4. Li Capitães da Areia e não foi assim há tantos anos.
    Do resto da lista ... há alguns que agora lerei.
    Obrigada amigo Rogério por este teu excelente artigo.

    Beijinhos

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  5. »Há dois dia que Gaitinhas não punha pé na rua, desde que o médico viera auscultar a mãe, a rogo da Ti Rosa. Ficou ainda à espera que ele rabiscasse no papel a receita que depois iria aviar, num pulo, à farmácia. Mas o médico sacudiu a cabeça duas vezes, e foi-se embora como viera.» (Soeiro Pereira Gomes,p.122)

    Aos dezasseis, já o meu irmão, uns anos mais velho, comprava livros e conforte lhe tinha lido todas as B.D., as Enid Blyton, os livros de mistério e aventuras, policiais, etc..., também comecei a ler, ainda antes dessa idade, Soeiro Pereira Gomes,Alves Redol, Tomás da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Máximo Gorki,Federico Garcia Lorca, Fiódor Dostoiévski, Tolstoi, Vitor Hugo e tantos outros que me foram fazendo o caminho...
    Pela vida fora li outros, tantos, e o que ficou, foi isto que sou, que das palavras lidas já pouco me lembro.

    Um beijo

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  6. Meu amigo, li os Esteiros e ainda hoje guardo uma frase do fim do livro. SÃO MOÇOS QUE PARECEM HOMENS E NUNCA FORAM MENINOS. Amigo Rogério, com este texto maravilhoso, veio lembrar-me, que eu costumava ler tudo ás escondidas. Tinha acesso a uma biblioteca de um senhor e caramba tinha noites que quase não dormia. Adorei o seu post. Beijos com carinho

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Há já tanto tempo que li os Esteiros...
    Acaba de me aguçar o apetite, para o ler de novo, Rogério, desta feita com os olhos um pouco maiores.
    Por certo, conseguirei ler agora muito mais do que li na altura. Tenho os olhos maiores e, entretanto, também eu descobri que as estrelas dormem de dia.

    Um abraço

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  9. O que eu chorei na primeira vez que li os "Esteiros"! É de um realismo cortante e mais corta porque era a nossa (triste) realidade!

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  10. Amigo Rogério, mais que a lista que agora está tão na berra e que pelos vistos só por nós, os cotas, é falada e analisada... gostei da sua história de adolescência e da maneira como "devorou" tanto livro, alugados ao Sr. Cunha.
    Porque a sua memória, é também um pouco, de todos/as nós.
    Um abraço.

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  11. Rogério,
    devia ter me dito na época, eu teria corrigido. Lembro-me que tive enorme dificuldade de encontrar informações sobre Álvaro Cunhal!
    É sempre bom aprender mais um pouco.
    bjs
    Jussara

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  12. Essa dos livros que toda a gente deve ler é inenarrável nos tempos actuais num semanário como o Expresso, mas já me vou habituando ao nivelamento por baixo da nossa imprensa, por isso, adiante.
    Quanto ao que escreve sobre os Esteiros e Os capitães da Areia,digo-lhe apenas que ente os dois talvez prefira, apesar de tudo os Esteiros. Mas isto são coisas do momento, daqui a uma semana posso ter outra opinião. Como aqueles tipos que se lembraram de escrever sobre os livros que toda a gente devia ler.
    Daqui a um ano, as escolhas seriam, obviamente, diferentes. E continuaria a haver lacunas que eu considero imperdoáveis.

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  13. Li os "Esteiros" em Angola e depois emprestei o livro a soldados meus angolanos, que também o leram com gosto.

    Só emprestei a soldados angolanos, porque os meus soldados portugueses (então chamados "metropolitanos") não quiseram lê-lo; só liam A Bola... com muitos dias de atraso. Quem é civilizado, quem é?

    Esta era uma das diferenças culturais que havia entre os nossos soldados angolanos e os soldados portugueses, embora uns e outros tivessem a quarta classe. A imensa estima que eu sentia e a enorme saudade que sinto pelos meus subordinados angolanos resulta em parte daqui.

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