19 agosto, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 95

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

Sou taxativo e corro riscos por isso. Nem Saramago foi tão definitivo, pois nunca (que eu lhe conheça) colocou em dúvida que devam ser imputados à natureza humana, os erros, as maldades, as atrocidades, de que o ser humano foi capaz. Ele interrogava e interroga-nos. Eu faço afirmações. Afirmei a pés juntos que a tal natureza humana era uma tanga, uma mentira orquestrada pela cultura dominante. Saramago, aparentemente, foi mais contido, sem deixar de escrever páginas e páginas sobre a nossa humanidade e a falta dela. Contudo, sem formalmente o afirmar, não faltam textos que ilustram que Saramago não dá, à desumanidade do homem, o carácter definitivo que se, alguma vez usasse a expressão "natureza humana", lhe daria. Se o fizesse, eu não seria saramaguiano. Nem seria seu apóstolo.

HOMILIA DE HOJE
«Falo de uma mudança que levasse as pessoas a pensar que isto não é bastante para viver como ser humano. Não pode ser. Se nós nos convertemos em pessoas que só se interessam pelos seus próprios interesses, vamos converter-nos em feras contra feras. E aliás é isto o que está a acontecer.» - “A literatura não muda o mundo”, O Globo, Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 1999

«Talvez a história do homem seja um enorme movimento que nos leve à humanização. Talvez não sejamos mais que uma hipótese de humanidade e talvez se possa chegar a um dia, e esta é a utopia máxima, em que o ser humano respeite o ser humano. Para chegar a isso se escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, para perguntar a mim mesmo e aos leitores se podemos continuar a viver como estamos vivendo e se não há uma forma mais humana de viver que não seja a da crueldade, da tortura e da humilhação, que são o pão desgraçado de cada dia.» - “Escribí para saber si hay una forma más humana de vivir que no sea la crueldad”, La Voz de Lanzarote, Lanzarote, 25 de Junho de 1996
Acho, que se questionasse Saramago sobre as imagens que editei ontem, ele me diria ser mais difícil desenhar as lutas do povo contra tais excessos e que esse seria o desenho mais rigoroso...