06 agosto, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 9 (o rafeiro, um ser pensante)

(Ler conversa anterior)
"Pode-se admitir que nenhum animal é auto-consciente, se com esse termo estiver implicado que ele reflete em pontos tais como de onde vem e para onde vai, ou o que é a vida ou a morte, e assim por diante. Mas como podemos ter certeza que um velho cão com uma excelente memória e algum poder de imaginação, conforme demonstrado por seus sonhos, nunca reflete sobre os prazeres e dores passado vividos nas caçadas? E isso seria uma forma de autoconsciência." - Charles Darwin (aqui)
"Não pode ser fidalgo quem não ama um cão" - (provérbio inglês do séc XVIII).

Ele sustentou-me o olhar, como que a dizer-me "Eh pá, vai passear..."

Lutava comigo próprio à procura de concentração igual à do cão, mas sem sucesso. Na mesa ao lado, em conversa animada, elas falavam sobre tudo e sobre nada: ora era sobre o desgosto pelos programas televisivos acabados e sobre a falta de qualidade do último "Ídolos", ou sobre a Marylin que falecera há 50 anos, para depois ir buscar a Bárbie, tecendo comparações. O mais importante que fiquei a saber, foi que a Zita tivera em menos de um ano uma dúzia de bonecas às quais chegou a invejar o guarda-roupa, pela quantidade e por estar mais centrada na moda do que as vestes dela própria. 
O cão conseguia estar concentrado no esvoaçar do pássaro, eu não conseguira chegar ao fim do primeiro ponto final do meu primeiro artigo escolhido, no jornal. Quando a cabeça não se concentra numa tarefa o melhor é procurar outra e dei comigo a pensar na evolução natural e o que valia a capacidade de pensar do ser humano em comparação com a de um animal. E nessa altura aconteceu algo de simultâneo, os meus olhos cruzaram-se com os do rafeiro sem que fosse perceptível quem olhou primeiro. Olhei-o dentro dos olhos e ele pagou-me com o mesmo preço. "Não retiro os meus", acho que pensámos os dois, pois ele não retirou os seus e sustentou o meu olhar, até que pensei como se quisesse entrar em diálogo. "Teríamos coisas mais interessantes para conversar, caso pudesses falar". Claro que o rafeiro não falou, mas abanou a cauda como se estivesse de acordo. Até que pressenti que o rafeiro me lançou um olhar derradeiro, antes de mudar de lugar. Parecia querer-me dizer: "Eh pá, vai passear". Gostei daquele comportamento e pensei que minha próxima conversa seria com o senhor engenheiro, o dono do rafeiro, que certamente era, em parte, responsável pelo temperamento afável e pachorrento do animal.
Quando regressei à leitura, já o fiz mais concentrado. 

15 comentários:

Anónimo disse...

Se o rafeiro falasse, com certeza teria conversas mais interessantes do que as de muito boa gente.

Graça Pereira disse...

Se os cães não falam...pelo menos entendem e reparou, tenho a certeza ,no fastio e desconcentração que te ofereciam as "gralhas" do lado...Há cães muito filósofos porque passam muito tempo a observar!!!
Abraço
Graça

intimidades disse...

eu sempre achei que a nossa autoconsciencia e que nos impede de viver a vida, pensamos demasiado no seu significado, e muito pouco a vive-lo

Bjinhos
paula

Fernanda disse...

O provérbio Inglês não pode ser mais verdadeiro. Gostei.
De facto é impressionante como há pessoas capazes de falar de tudo e de nada todo o tempo! Uma coisa atroz!
Roubam-nos a concentração e não se dão conta que ferem os ouvidinhos até dum rafeiro lindo, como este, com quem trocaste olhares inteligentes.
Ele baixa as orelhas para tentar apagar o ruído, coisa que não somos capazes :))) infelizmente.

Há dias esperava por uns amigos na esplanada do Vila D'Artes em Cerveira.
Estavam muitos Galegos, como é normal todo o ano e mais os "irritantes" de Agosto ...
Uma coisa de fugir, o que fiz mal acabei a minha tónica e me fui sentar num banco de jardim logo ali debaixo da enorme magnólia e onde havia alguma paz.

Beijinho Rogério.

O Puma disse...

Conheço cães

que já choraram comigo
no paraíso

MARILENE disse...

Muitas vezes é melhor só observarmos de longe, sem que possamos participar, involuntariamente, de conversas que não nos atraem. O cão o faz, porque pode focar um pássaro ou mosca, participando de seus voos silenciosos e relaxantes. Esse olhos nos olhos lhe permitiu um desligamento do mundo, momentaneamente necessário.
Bjs.

Rosa dos Ventos disse...

Gosto de cães mas não tenho nenhum!
Já fiz várias vezes essa experiência de fixar o olhar das minhas gatas e sou eu que desisto...e vou passear! :-))

Abraço

Flor de Jasmim disse...

Caro Rogério
Tive um rafeiro muitos anos, chamava-se putchi, a certa altura eu olhava bem nos seus olhos todos os dias falando com ele, não me respondia mas o seu olhar triste dizia-me tudo, ali deitado no sofá no lugar que era do dono, isto durou 45 dias foi o tempo que ele viveu depois do meu marido ter morrido, a saudade venceu o meu cão.

Beijinho e uma flor

Lídia Borges disse...

Essa esplanada tem pouco para explanar. Mas o cachorro exibe mesmo ares de bicho "entendido". :)


Lídia

Graça Sampaio disse...

«Eh pá, vai passear!» que é como quem diz: «Vai dar banho ao cão»... ...

O olhar dos cães nunca engana! São uns fofos e dão tudo pelo dono! Também já tive cães, mas prefiro gatos...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Embora actualmente esteja mais virado para os gatos, sempre convivi de perto com cães, pois havia-os com fartura em minha casa.
Muitas histórias poderia contar, cada qual levantando mais dúvidas sobre a capacidade "cognitiva" dos cães, mas há uma de um cão que depois da morte de um meu tio que ele adorava ia todos os dias para a campa dele e ninguém o arredava de lá. Só mesmo no dia em que por lá morreu...
Não tenho dúvidas que poderia ter conversas muito mais ineteressantes com cães doq ue com algumas pessoas...

Maria João disse...

As coisas que os animais nos dizem sem pronunciar uma palavra, que outros nunca conseguem, por muito que falem... esta seria, talvez, a conclusão a que eu chegaria, nesse dia, nessa ou, quem sabe, noutra qualquer esplanada.

Um abraço, Rogério.

Boas leituras ;-)

Maria João Brito de Sousa disse...

São uma delícia, essas conversas de olhos nos olhos com eles :)
Os olhares dos cães costumam ser menos "indiscretos" que os dos gatos... os gatos parecem ler-nos cada pensamento...
Tenho um "olhar" do Sigmund no meu mural do Face e, mesmo estando com ele há quase 18 anos, ainda fico meia hipnotizada com ele :)

Abraço grnde!

Gisa disse...

Eles se comunicam com os olhos.
Querido amigo, desculpa-me pela ausência. Tive alguns problemas que já estou superando. Vou conseguir resolver tudo em breve. Assim espero.
Um grande bj no teu coração.

BlueShell disse...

Fiquei aqui a reler...a meditar...a beber o sentido de cada palavras! meu comentário?: "FABULOSO"!!!!

Bj