12 abril, 2011

Escaravelho. Besouro. Bicho de ouro e de trabalho...

Regresso à tarefa de tentar descobrir o sentido e o ser da “Maior Flor do Mundo”, revendo pela enésima vez o vídeo sobre o conto de Saramago. Desta vez dou por um facto, não certamente acessório, da atenção dada, primeiro pelo escritor e depois pelas criança, a um escaravelho na labuta, que lhe é própria, de empurrar uma bola de excremento, já bem maior que a sua minúscula dimensão. Não por acaso, pois é conhecida a elevada simpatia que o nobelizado nutre pelos gestos, quando estes são maiores que os seres que os praticam. Porquê um escaravelho no inicio do conto se o seu protagonismo, poderia mais prosaicamente ser substituído por um outro bicho mais simpático? Levar um escaravelho empurrando esterco para dentro de um conto destinado a crianças, só pode ter um significado maior. E tem. Para os antigos egípcios era a parte de um escaravelho sobre parte de homem, coisa digna de devoção. Revela-o a iconografia e os escritos nas pirâmides. Acreditavam eles, depois de muita aturada observação, que o besouro KHEPRI – seu outro nome – representava, na terra, a laboriosa tarefa de fazer girar o sol através do céu, muito provavelmente, em torno da terra. Essa representação não era meramente simbólica, acreditando-se que se os escaravelhos suspendessem tal prática, o sol deixaria de aparecer e, assim, dependia do nobre insecto a própria vida terrestre. O escaravelho, em Heliópolis, é visto como “o deus que veio sozinho à existência”, ou seja, Rá.

De menor crendice, mas de igual nobreza, se associa a sobrevivência da sua própria espécie a esse quase eterno rodar, pois que no estrume empurrado jazem os ovos de que se reproduzem e é em movimento quase perpétuo que os ovos se abrem em novas larvas. Acho que nada disto terá a ver com a tentativa de saber o que a Maior Flor do Mudo vem a ser. Acho que segui uma pista falsa. Mas acabei por descobrir uma outra estória dentro do conto e estou disposto – e habilitado - a contá-la a meu neto quando ele descobrir um besouro. Dir-lhe-ei que é um bichinho de ouro e de trabalho. Dir-lhe-ei que homens distantes acreditavam que, quando chegasse o fim dos seus dias, aquele que levasse a imagem do escaravelho para a tumba tinha a certeza de renascer para a vida. Ele vai perguntar-me se é verdade isso de haver outra vida. Não planeei a resposta, quando a tiver que dar serei espontâneo e, assim, mais digno do seu crédito…

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NOTA: Sobre iconografia e o significado mitológico do escaravelho ler aqui e aqui