03 abril, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 34

"Eu vivo desassossegado, escrevo para desassossegar" (tirado daqui)

Escrever para desassossegar, disse. Mas onde está o desassossegar neste livro, que escolhi ter por inspiração, onde a mensagem é tão ternamente o relevo dado pelo escritor a um gesto de carinho dum miúdo que resolve, com seu esforço, dar vida a um flor moribunda, acabando esta por se tornar maior que a dimensão desse gesto belo? Onde pode haver desassossego nisso, tão inusitadamente maravilhoso? A resposta não é fácil sabendo, como sei, que quem se apresenta a ler o faz (quando traz tempo para o fazer, o que poucas vezes acontece) com almas tão distintas. Por exemplo, as almas deprimidas (e não há falta delas por aí) acharão que me excedo com a interpretação da metáfora e recusarão qualquer outra interpretação que não seja a proposta de Saramago em enaltecer os gestos bons, para serem seguidos por meninos. Já não é mau que assim reajam, mas é pouco. As almas deprimidas contentam-se com poucas palavras e animam-se mais da depressão do que com sonhos que interroguem e desassosseguem. Que flor murcha era aquela, que bem regada e reconhecida ao generoso regante, se torna grande e imponente, digna de ser admirada por toda gente? As almas deprimidas não se interrogam...

Querem outro exemplo de reacções de almas? Eu dou: As almas objectivas, engravatadas e bem vestidas, resistentes a depressões e desassossegos, dirão que o conto é absurdo, ou mesmo estúpido. Como achar verosímil que mão tão pequenina possa transportar, sem a perder, a tão pouca água que duas mãos podem conter? E a flor? De quase morta a tão grande, só pode ser coisa aberrante, imprópria da natureza e só pode ser produto escrito por um cérebro incapaz de produzir coisas com utilidade própria e viabilidade económica…

Por mim, alma desassossegada, atrevo-me a pensar que a flor é algo muito importante e que tentarei descobri o que seja. Tenho tempo e método para o fazer. Começo, cartesianamente, por afastar qualquer hipótese de a flor poder significar a democracia. Saramago, que eu saiba, nunca a considerou fragilizada ou moribunda, carente ou abandonada. Acho que para escrever sobre isso o conto dele seria outro e a flor seria uma flor sem cor de flor, sem cheiro de flor, sem atenção de menino. Seria uma falsa flor, tendo dela apenas a aparencia. Uma flor de plástico bem parecida, sem a necessidade de ser regada e, por isso, incapaz de se renovar e ainda menos crescer e o povo, feliz, envaidecer:

HOMILIA DOMINICAL


"O grande mal que pode acontecer às democracias — e penso que todas elas sofrem em maior ou menor grau dessa doença — é viverem da aparência. Isto é, desde que funcionem os partidos, a liberdade de expressão, no seu sentido mais directo e imediato, o Governo, os tribunais, a chefia do Estado, desde que tudo isto pareça funcionar harmonicamente, e haja eleições e toda a gente vote, as pessoas preocupam-se pouco com procedimentos gravemente antidemocráticos. " José Saramago, in "Democracia aparente/Outros Cadernos"


Imagem retirada do video "A Maior Flor do Mundo"

13 comentários:

Janita disse...

Amigo Rogério.
Quanta amargura!
Tem assim tanta certeza que as almas que por aqui passam, vêm todas elas, apressadas e sem tempo para o ler?

É certo que quem o lê são almas muito diversas. É natural.
Cada alma tem o seu sentir e a interpretação daquilo que cada uma delas lê, pode ser diferente.

Tenho a certeza que todas as almas suas leitoras, quer sejam depressivas, objectivas, atentas ou outro adjectivo qualquer, levam um pouco do seu desassossego.
Acredite!
Desejo-lhe um resto de bom domingo.
Com amizade.
Janita

folha seca disse...

Caro Rogério
Provavelmente a esta hora, uma grande parte dos Portugueses está a preparar-se para ver o jogo de Futebol.
Eu estou a ler a sua homilia, o que me dá de certeza mais “prazer”. Como sabe sou um sonhador confesso. Apesar das desilusões penso que vale a pena continuar a sonhar e se um dia desistir de sonhar é porque perdi essa faculdade e aí acabou-se.
Com também sabe sou um homem com referências. Para mim contam mais os homens do que o emblema que têm na lapela. Mas algumas dessas referências têm-me provocado algumas desilusões. Conheço e conheci homens e mulheres que deram uma vida inteira a causas em que acreditam e acreditaram sem que para eles tivesse havido qualquer proveito material com a conquista da Democracia porque tanto lutaram.
No entanto há uma geração que também fez algo para isso. Algumas pessoas estão demasiado caladas. Isso fez-me pensar e cheguei a uma lamentável conclusão. Directa ou indirectamente sentiram-se no direito de cobrar a factura. Pena! Mas no melhor pano cai a nódoa.
Abraço

São disse...

Excelente a escolha da citação como excelente o seu texto.

Uma feliz semana, meu caro.

Fê-blue bird disse...

Meu amigo:
Basta uma flor,uma só flor,
crescer, tornar-se maior,
devido à água que as suas mãos dedicadamente nela depositam, e valerá a pena todo o seu desassossego. Estarei certa ?
Vale sempre a pena sonhar!

beijinhos

manuel aldeias disse...

Gostei de ler a homilia. ela tem o condão de nos põr a pensar no tipo de democracia que temos em Portugal

Gisa disse...

Da flor natural e quase morta à flor de plástico com aparência viçosa. Fico com a primeira e esmero-me em tentar recuperá-la. Caso não consiga chorarei o seu triste destino, mas terei a certeza que fui fundamental nos seus últimos momentos. Guardo, portanto, a lembrança do belo para que possa continuar buscando-o sempre e sempre até encontrá-lo.
Um grande bj querido amigo

flor de jasmim disse...

Caro Rogério
Como flor que sou já vi meus sonhos ruirem quando estavam quase a tornarem-se possiveis, no entanto é a minha força de vontade e o sonho da possibilidade de realizar meus sonhos que torna a vida mais interessante, por isso vou continuar a sonhar porque só eu sei o quanto me custa sonhar.
Beijo

carol disse...

Bom, o menino vem renovado depois das "obras"! Bom texto. Óptima citação. Mas e preciso não desanimar, não deixar murchar a flor...
Boa semana. Bons textos!
Beijinhos.

Lídia Borges disse...

Acredito que as mãos do menino conseguiram segurar a água. Acredito que a flor cresceu assim e soube mostrar o seu agradecimento ao menino...
A verosimilhança das coisas, não está nas coisas, mas nos olhos com que as olhamos.

Um beijo

Laura disse...

Bom, Rogério, todos os nomes que queiram chamar à Democracia em que vivemos, uma falsa democracia, pois não fomos consultados para nada, os nossos bons Governantes tudo iriam fazer para nos deixar viver em paz na nossa terra à beira mar plantada, apenas se esqueceram de nos avisar com tempo que dessa forma não dava para manter o nível de vida que levávamos, mas...

Calamo-nos e só demos uns gritinhos de um dia naquele ajuntanço de frases à Portuguesa, mais dava para rir que outra coisa, e; como ficamos? Estou a ver amigos a ficarem desesperados, fome mesmo já grassa, só que saio para a rua e vejo cada vez mais carros novos, passeios, o gasóleo ou gasolina subiu? que mais faz, a algum lado se irá buscar...
Aqueles que vivem na pele é que sabem que por enquanto não haverá flor que lhes valha...nem uma couve sequer.
Deixei de ligar a tv nas noticias e mudo de canal quando aparecem, não quero ler, senão contribui para que isso acontecesse, porque cargas de água terei de sofrer ao ler todos os dias as más ou péssimas noticias? Ah, como dói a minha alma por ver ao que chegamos e que não houve homens dos grandes para agarrarem aquela cambada pelos cornos e pusessem o País como deve ser; com pão, educação, um lar para todos... Chegaremos lá?
Oxalá que sim.

laura

Mar Arável disse...

De sonho em sonho

atravessamos fronteiras

e voamos

para não ficarmos agarrados ao chão

Mel de Carvalho disse...

A beleza do olhar está tão mais além da membrana que contém os olhos.

"Por mim, alma desassossegada, atrevo-me a pensar que a flor é algo muito importante e que tentarei descobri o que seja"

Alma desassossegada que sou, atrevo-me também. Até que os olhos chorem cardos de sangue...

Um abraço sincero
Mel

b disse...

Sendo Saramago, universal, dou-me ao direito de comentar.
Nada de Saramago, porque Saramago não se comenta, não se analisa, Saramago, a gente lê como fosse oração e fim. Um mensageiro da verdade diante de tudo que é falso nesse mundo.
E democracia - se formos marcar onde há democracia no mapa mundi, usaremos muito pouca tinta.