08 junho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 64 (do que só o Negócios fala, mas à boca calada))

O velho engenheiro nem me deixou sentar. Colocou o jornal em cima da mesa e ia dizendo não perceber porque o jornal tinha fechado o texto à leitura on-line. Na esplanada era rara a gente calada, por isso começou a ler de alto, e depois mais alto ainda, até que toda a esplanada se calou para o ouvir. A meio, palmas e tudo...
ALGUMAS DAS COISAS LIDAS, de entre as mais aplaudidas
(o texto integral passou para outro lugar)
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- As vozes que mais recorrentemente se ouvem, que são a favor e confiam no projecto europeu, apontam o modo como ele foi erguido, nomeadamente o euro. A sua voz é mais radical.
- O euro foi muito mal concebido, isso é consensual. Mas vou para além disso. O euro é um projecto que exige a existência de um Estado europeu. O euro não pode ser um factor de criação de um Estado europeu (como se pretendeu). Quanto muito, se houvesse um Estado europeu, então poder-se-ia ter criado o euro.
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- Os resultados eleitorais recentes, que levam cerca de 120 deputados de extrema-direita e eurocépticos ao Parlamento Europeu, são expressão disso?
- A Europa está fraquíssima, em decadência clara, quer do ponto de vista económico, quer social, quer até político. Mas isso não é surpresa. Rompeu-se aqui um equilíbrio que assegurava a grande originalidade do processo de integração europeia.
- Então, futurologia. Daqui a dez, 20 anos, como é que imagina que vamos olhar para estas eleições que expuseram a fragilidade da Europa?
- Não vou fazer futurologia. mas vou dizer quais são os meus receios. Dificilmente a Europa se manterá. A degradação já é tal que é muito difícil a Europa voltar a beneficiar do ambiente de estabilidade. Se não garante a estabilidade, desagrega-se. Esse cenário é cada vez mais provável.
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- Indo mais ao coração dos seus livros, e dizendo numa formulação provocadora: aquilo não nos atira para um "orgulhosamente sós"?
- Não vejo porquê. As pessoas confundem autonomia com "orgulhosamente sós". E muito português pensar que precisamos sempre de um paizinho, e que se não temos um paizinho ou uma mãezinha estamos sós. Podemos exercer a nossa autonomia, de país que já tem longos séculos de autonomia, cooperando com outros países na gestão de interesses comuns. Por isso fui e sou a favor da participação de Portugal na União Europeia.
Se não fazer parte da União Europeia fosse estar "orgulhosamente sós", haveria 165 países no mundo "orgulhosamente sós". Isso é um disparate federalista.
- Um disparate federalista?
- O federalismo e uma teoria perigosa na Europa porque se apoia num mito (o da solidariedade). Tentar forçar uma realidade que não existe é do pior que se pode fazer em política.
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- Se exceptuarmos o Governo, não vejo ninguém de garrafa de champanhe na mão a celebrar a famosa saída limpa da troika.
- Não vai alterar nada de fundamental [a saída formal]. Vamos ficar sujeitos às regras do Tratado Orçamental, que não podemos cumprir.
- Não podemos cumprir?
- Não temos margem para cumprir. O que nos é exigido é impossível de cumprir. Reduzirmos o déficit a quase zero, até é possível, desde que não seja amanhã. Mas reduzir a dívida pública para 60% do PIB em 20 anos é inexequível. Isto põe o país numa situação falsa. Um país nunca se deve comprometer com coisas que não pode cumprir. Segundo o Tratado, vamos ter que fazer uma parceria - gosto do nome [risos] com a Comissão Europeia para ela nos impor um conjunto de políticas económicas durante 20 anos.
- Ou seja, vamos continuar atados.
- Não vamos. Antes disso alguma coisa vai suceder. Ninguém aceita 20 anos de austeridade, que é o que propõe o Tratado Orçamental. Entretanto a Europa ou dá uma grande volta ou desaparece.
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Agradecimento: Agradeço este texto a Jorge Faria, que o editou na sua página do facebook