10 junho, 2014

Discurso proferido no “Liceu” da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme plateia.

Jorge de Sena - 10 de Junho de 1977
"...Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. Centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém..."

(continuar a ler o discurso de Jorge de Sena)
_________________  

Agradecimento: Agradeço a Fernando Paulouro Neves a descoberta desta pérola

AMANHÃ EDITAREI EXTRATO DO DISCURSO DE VIRGÍLIO FERREIRA

11 comentários:

Janita disse...

Isto, sim! São discursos que dão gosto recordar.

Vou ficar a aguardar os restantes.

Neste tempo havia vontade e determinação em emendar o rumo errado que, todavia, ainda não foi emendado.

Um abraço.

Majo disse...

~
~ Jorge de Sena proferiu monumentais declarações, veementemente arrebatadas, que ficaram na história da literatura.

~ Enaltecendo o 25 de Abril, sem conseguir entender-se com a classe política emergente que atacou empolgadamente, com a mesma eloquência de sempre.

~ Passaria férias em Portugal em 1977-- um ano antes da sua morte prematura que todos lamentamos.

~ ~ ~ Uma boa semana. ~ ~ ~

Lídia Borges disse...


Sempre, os grandes vultos nas diversas áreas artísticas foram alvo de "apropriação" dos Poderes instalados e Camões não escapou ao "aproveitamento", pelos Republicanos, pela Igreja, pelo Estado Novo, que quis fazer dele um ícone seu quando, na verdade, o Poeta só a ele próprio foi fiel.


Um beijo

São disse...

O discurso de Sena tem conteúdo ao contrário das vacuidades que por aí agora se debitam.

Camões , para mim, sempre foi um dos maiores escritores de sempre, mesmo a nível mundial.

A sua poesia lírica tem poemas lindissimos e "Os Lusíadas" bem mereciam melhor sorte do que se estudar as diversas funções de um malfadado "que" numa qualquer frase...e que fazia toda a gente nem querer ouvir falar na obra!!

Eu só o li nas férias grandes a seguir ao ano em que me martirizaram com a análise gramarical, sem sequer se preocuparem em nos fazer sentir a beleza poética da escrita de Camões.

Em consequência e, por estupidez, Camões foi abolido do ensino pós - Abril 1974, como se fosse responsável pela utilização que o Estado Novo fizera dele.

Abraços

Graça Pereira disse...

Já não se fazem discursos destes...CAMÕES o maior épico português e, não sei se de todo o mundo... foi trocado pela dona Troika que trás no seu séquito, as damas austeridade e desemprego!
CAMÕES? Quem é esse? Algum sem abrigo e desempregado..que se inscreva no fundo do desemprego...
Cada vez estou mais desiludida com o meu país...
Abraço e bom fds
Graça

© Piedade Araújo Sol disse...

o País de nome é o mesmo, os discursos é que mudam.

:(

O Puma disse...

Memória viva

Fê blue bird disse...

Realmente é uma pérola este texto e este discurso.

"Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu.

Já não há Homens assim!

beijinho

Rosa dos Ventos disse...

Outros tempos, outras gentes!

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Outros tempos, outras gentes!

Abraço

Agostinho disse...

Camões que nem RSI usufruiu foi violentado ao sabor das necessidades do poder. Os homens com vistas curtas sempre ajeitaram a verdade às suas conveniências extirpando medos de subversão.
Jorge de Sena, português de têmpera rija, se cá viesse, agora, desancava muita gente que anda por aí.
Já me não recordava deste episódio
que terá escandalizado muito ouvido.