07 outubro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 102

Mesmo que todos os símbolos se invertam, há (pelo menos) uma bandeira que sempre parecerá direita... 

Não direi que a Europa nasceu torta, mas para Portugal foi assim que nasceu. E o que nasceu torto, tarde ou nunca se endireita. Sabem poucos disso, e até mesmo se os símbolos nacionais de todos os países se invertessem, declarando a rendição total ao capital, a bandeira da União Europeia permaneceria direita.

Não planei este post para falar desse pormenor e a homilia planeada era para dar a palavra a Pilar del Rio, com sua intervenção no Congresso Democrático das Alternativas. Contudo, dessa, não me chegam mais que frases avulsas (“Não estamos sem solução, nós somos a solução.”) ou afirmações a carecerem de mais detalhado enquadramento (“Nós, os cidadãos, não vivemos acima das nossas possibilidades. Foram os bancos que nos emprestaram dinheiro acima das suas possibilidades”). É pois um texto adiado esse e o mais que pelo congresso se terá passado...

HOMILIA DE HOJE
A verdade é que a Comunidade Económica, como a que nasceu na cabeça de Robert Schumann, não é mais do que a ideia de racionalizar as economias dos diferentes países da Europa. A questão central foi sempre a da economia. Ou seja: quem é o senhor, quem é o patrão da Europa. Todos os conflitos, todas as situações complexas que a Europa viveu, até mesmo as chamadas guerras religiosas, tiveram por motivo definir uma economia para cem anos, ou um milénio, como desejou Hitler.
 (...)
O mais importante – e eu diria, o mais trágico – é que se tira dos povos o direito de decidirem sobre o seu destino. Claro que nada no mundo é definitivo, e os povos sempre encontram as soluções melhores para os seus problemas. Mas o problema da hegemonia, que parecia resolvido com a Comunidade, não está. O que está ocorrendo agora é o surgimento da potência europeia do futuro, que será outra vez a Alemanha. A Europa será o que Alemanha decidir. -  José Saramago - (Publicado em Jornal do Brasil – 15.Maio.1992)