22 dezembro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 45 ( o Presépio do engenheiro )

(ler conversa anterior)



Apesar da neve, o engenheiro e o cão rafeiro vieram ao meu encontro  - "Hoje não há jornal e bebe o cafezinho em minha casa, a neve é bela lá da minha janela. Está convidado" - disse, segurando-me o braço enquanto o rafeiro esperava, em contenção, a minha reação. "Está bem, então vamos lá" respondi olhando a cauda agitada pelo contentamento do cão, sublinhado por um sorriso rasgado do meu velho amigo. Não leria, nem sequer as parangonas da primeira página, nem a cronica do Gonçalo... Acompanhei os dois... Pelo caminho o engenheiro ia adiantando a verdadeira razão do convite - "Sabe? o que lhe vos mostrar ainda não está acabado. Mas é a única pessoa a quem reconheço alma e juízo para o conselho de que preciso..."

Longe de me esclarecer aumentou-me a intriga e a expectativa, mas não fiz qualquer pergunta. Caminhamos mais um pouco pela avenida do Alto da Barra até chegarmos ao prédio. Entrámos, e optamos pelas escadas. Ele tirou uma única chave com que abriu a robusta porta. Deu-me passagem e entraram a seguir. Não havia hall, tudo espaço liberto de paredes e logo ali o que me queria mostrar: como uma maquete o que ele chamava Presépio ocupava dois terços da área da ampla sala. Montes, ravinas, musgos delimitando caminhos, árvores miniaturadas e pedras miúdas entre dezenas de cabras. Alguns, poucos, pastores. Na diagonal, atravessando quase quatro metros da representação, estruturas similares ao betão perfilavam-se representando o muro. Do outro lado do muro, tudo ordenado e raso até chegar a uma povoação construída com habitações de palmo que sugeriam a cidade de Belém. Por cima, um cetim baço num azulado escuro, estava pejado de nuvens e algumas estrelas minúsculas fazendo realçar uma outra, maior. Num caminho mais largo, José, Maria e o burro em que seguia, tinham por diante o muro. As figuras, bem esculpidas, expressavam a ansiedade de José e a aflição de Maria.

Reconheci o que via mas não supunha que alguém se atirasse ao laborioso trabalho de reconstituir o original, fazendo-o com tanto rigor. Foi então que surgiu a pergunta: 

"Tem alguma ideia que possa vir a materializar o Natal? Como podemos enfrentar isto?"


O velho engenheiro queria encontrar a solução que Banksy tinha denunciado... 
Não soube como ajudá-lo.