09 novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 74 (descendo ao nível dos galináceos...)

(ler conversa anterior)
 «A lição que pessoalmente extraio do admirável acontecimento (mais do que uma lição será um voto) é que, a partir de agora, nenhum muro mais seja levantado antes de se buscarem, incansavelmente, as soluções que o possam evitar. Isto é, que se trabalhe e eduque para a paz e não para a guerra. Só espero que as mesmas multidões que derrubaram o Muro de Berlim não se lembrem um dia de voltar à rua para aplaudir, num contexto político diferente, outros muros e outras fortalezas: como sabemos, a espécie humana não é muito de fiar...»
José Saramago, numa Homilia minha

«Eu cresci na década de 1980, vi o muro de Berlim cair. É frustrante ver como está Portugal agora, percebe-se que tudo regrediu.»
Valter Hugo Mãe, entrevista à Veja

Entre uma bátega de água e uma aberta, em que o sol espreita, o rafeiro do senhor engenheiro corre divertido atrás do pombo. Nesse corre e esvoaça, o pombo parece, quando pousa, fazer-lhe pirraça, num desafio para que o "corre e esvoaça" continue. Eu e o velho engenheiro abrigámo-nos da chuva mas não regressámos à esplanada quando voltou o sol. O espaço está alagado. Estávamos assim, resguardados, silenciosos e sem comentar o tempo, quando ele pega no tema: - "Muros, muros... sabe o que eu acho?, é que depois da queda do outro, a cada um foi construído outro muro à sua volta, pouco alto, de pouco mais de um palmo, mas onde faltam coragem e discernimento para levantar um pé e passar para o outro lado".  Primeiro fiquei calado, depois ocorreu-me dizer "Às galinhas, meu amigo, basta um circulo. Um circulo desenhado no chão, e comportam-se como se estivessem sitiadas!" Foi a vez de ele se calar, e ficámos assim a olhar o jogo do "corre e esvoaça" num momento em que o pombo quase se deixava apanhar e a pensar em muros, o caído e os que desde então se ergueram...

7 comentários:

Maria Eu disse...

Tantos muros que erguemos e tão poucos que derrubamos.

Beijinhos Marianos, Rogério! :)

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia Rogério
Muitos dias acordo e adormeço com este problema gravado em mim.
A nossa sociedade resguardou-se com muros mais altos que esses de pedra e cimento. Paredes que já ninguém quer ultrapassar, querendo dar as mãos e refazer o amor, a partilha, o respeito, solidariedade...
Mais difíceis estes muros que se vão erguendo com a educação dos nossos dias, com as políticas e os políticos que vamos aceitando.

São disse...

Os muros do preconceito, da falta de compaixão e dos enormes interesses estão aí sem que ninguém os queira verdadeiramente derrubar!!

Infeliz Humanidade ...

MARILENE disse...

Há muros que a mão do homem põe abaixo. E outros que o poder de alguns cria e contra os quais é mais difícil lutar, eis que não podem ser destruídos pela força física. Abraço.

heretico disse...

excelente a galinha dentro do circulo de giz!

ainda há momentos ouvia umas quantas a cacarejar na televisão...

abraço, pá!

Alexandre de Castro disse...

Alegrem-se, porque, segundo consta, os alemães de Berlim Leste estão a pensar em reconstruir o muro.
Prometeram-lhes BMW e Mercedes, mas, até agora, apenas lhes deram trotinetes e triciclos.

Agostinho disse...

Por cá deram cabo da Cimpor pensando que os muros de betão já não estavam na moda: é negócio para alienar!
E, afinal, ergueram muros e muros de mentiras e trapaças. De forma dissimulada para que o povo não desse por nada.