26 janeiro, 2017

Poesia (uma por dia) - 88

O CEGO DAS ESQUINAS

- Digo-te a bruma coada na cidade, para êxtase do porvir. Incito-te ao levantamento do chão, onde adormecem lábios e pedras, murmúrios e salivas - só para te ver transgredir as pautas. 
- Digo-te uma luz ao fundo, numa campânula de sons em arco.
- Repara no cego.
- Repara no cão. 
Quando chega a casa- imagino um cubículo de madeira - o cego das esquinas mergulha as mãos no saco das bofetadas, retira-as para o tampo da mesa e conta o abandono a que o votaram em cada moeda coitadinha. 
- O cego das esquinas. O tempo de rastos.
- Quem anda a montar o tempo?
- São os donos dos prédios altos que fazem esquinas para cegos. 
- São os fazedores de cegos, os vendedores de concertinas.
Eufrázio Filipe
Caçador de Relâmpagos