04 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - I ( O meu Vale Escuro)


Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei no muro
Caí no jará
Ganhei no pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Manuel da Fonseca, aqui


Os poetas nascem onde menos se espera e eu não esperava o poema. Ele me remete para a minha infância, para o meu Vale Escuro, ali perto da escola da minha vida, daquela de que vos falei um dia.

À saída das aulas, ou aproveitando um horário não preenchido, chegávamos e quase sempre éramos muitos, 15 ou mais, para jogar à bola. Os lideres, aqueles que há muito se destacavam ou aqueles que eram ali mesmo consentidos como tais, procediam à disputa para decidir qual deveria ser o primeiro a escolher os elementos da equipa, das duas que se iriam enfrentar.

A disputa compreendia um ritual, desde sempre seguido no Vale Escuro e que consistia em cada líder se colocar frente a frente. Cada um à sua vez, ia colocando um pé à frente do outro, calcanhar do pé direito, batendo na biqueira do esquerdo, sincopadamente, estreitando lentamente a distancia entre os dois. O primeiro que conseguisse fazer com que o seu pé não permitisse a entrada do pé adversário, tinha ganho e assim, a ele, lhe competia a primeira escolha, o vencido escolhia o segundo, e cada um ia fazendo a escolha interpoladamente. Nos grupos, cada um esperava com ansiedade a altura de ser escolhido. 

Nunca eu era dos eleitos em primeiras escolhas, e raramente era dos últimos e todos eram escolhidos, pois uma regra seguida, nunca discutida (e sempre cumprida) era dar lugar a todos os que por ali aparecessem manifestando interesse em jogar. Ninguém ficava de fora. Nem os meninos, poucos, das barracas que não iam à escola, ficavam de fora.

Depois era o jogo, sem árbitro nem desacato, e o prazer lúdico do exercício de marcar o golo, ou de evitá-lo, ou de o dar a marcar. "Passa", "lança", "centra", "remata", "salta", "corre", "desarma"... muito raro ouvir um "dá-lhe" ou um "chega-lhe", embora por um lance mais frenético uma canela se ressentisse, um joelho se esfolasse ou, o que era pior, um rasgo no calção fosse raspanete assegurado aquando do regresso a casa.

Findo o jogo, que mudava aos cinco e acabava aos dez, era a passagem obrigatória pelo senhor Zé sapateiro que a troco de uma coleta de quem tinha algum dinheiro nos reluzia o calçado com um pouco de pomada ou uma simples escovadela...

Não posso dizer que tenho saudades desse tempo (saudades, só do futuro) mas o que eu lembro, com ternura lembro, claridades do meu Vale Escuro e também algum orgulho ao saber que o poeta Manuel da Fonseca terá um dia por lá jogado e que pisei o chão que ele terá pisado...

Imagem do Vale Escuro, anos 50 (foto do meu amigo F. Penim Redondo)

12 comentários:

  1. Não sei se esta crónica se pode chamar de conto
    ou se se chamará conto tudo o que é contado.
    Só sei que gostei imenso e fico à espera
    de outros contos se sejam contos do seu passado...

    Venham mais, Rogério.

    Um abraço e obrigada.

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    1. Boa questão, Janita

      mas...

      «Uma vez, nos anos 80, Analdino Paulino coordenou uma edição de crônicas de amor para um livro que seria brinde da Credicard.
      Convidou dez autores, eu entre eles. Escrevi a minha. Foi devolvida pelo então diretor de marketing do cartão de crédito. "Estava ruim?"
      Não, disse o coordenador. Estava boa, ele até gostou. "E por que recusou?" Porque ele pediu crônica e você mandou um conto. "Ah, e o que é conto e o que é crônica para ele?" A resposta serviu para os milhares de teóricos que queimam cabeça. Porque, disse o marketeiro culto, uma crônica não tem diálogos. E como a sua tem, é conto.»

      Isto escreveu Ignácio de Loyola Brandão, no jornal "O Estado de São Paulo"

      E Janita
      Todos os Domingos conte com um meu conto-crónica

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  2. O Vale Escuro era o nosso farwest, uma espécie de campo dentro da cidade. Vivemos lá grandes aventuras. Grande abraço Rogério.

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    1. Grandes aventuras, bem o dizes,meu caro. E darão "material" para uns quantos contos, de lá até ao Chaimite.

      E usarei, se mo permites, teu stock de belas imagens daquelas paragens. Abraço

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  3. bom dia
    será que não tem mesmo saudade desse tempo ?
    JAFR

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    1. Meu caro, a palavra saudade tem tal carga melancólica e de desejo de regresso ao passado que julgo ela não traduzir os sentimentos sentidos nestas recordações...

      Saudades, só do futuro!

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  4. Este teu "croniconto" não tem diálogos e eu não teria qualquer problema em apodá-lo de crónica. Nem precisaria de queimar a cabeça como os teóricos que referes. Esses "passa", "lança", "centra", "corre", "desarma", são elementos vivos da narrativa, não há como confundi-los com diálogos.

    Não me matam a cabeça essas dúvidas, mas matam-ma a tosse, os espirros, a rinorreia e a cefaleia. Não conseguirei estar online durante muito mais tempo, hoje.

    A email ao Correia de Campos, que ontem não pude escrever, não está esquecida, mas talvez não possa seguir ainda hoje. Há-de, no entanto, ser escrita assim que eu me sinta um pouco menos mal. Ou menos péssima.

    Abraço

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    1. Como está patente, o título vai permanecer como um ciclo.
      Nuns casos, serão contos. Noutros, crónicas. Sempre ao Domingo

      Desejo-te que te venhas a encontrar "mais melhor"

      Abraço e um sorriso

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    2. Estou é cada vez "mais pior". Obrigada pelo desejo do contrário desta linha progressivamente descendente que começa a impedir-me de produzir poeticamente e a passar dias e noites a tossir e a espirrar...

      Bons contos e crónicas para ti!

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  5. "Parecem bandos de pardais à solta
    Os putos, os putos..."

    Canção, crónica, conto!? Pouco importa! Importa que nos "abanam". A maioria das crianças de hoje nem tem direito a provar da liberdade de um jogo à revelia de olhares vigilantes, apesar de em outros domínios serem mais favorecidos. Incomoda-me o facto de as crianças de agora não terem tempos para si próprias, para organizar as próprias brincadeiras, interagirem por sua conta e risco. Não sei como poderão desenvolver determinadas competências sem que lhes permitam socializar, fazer asneiras, correr riscos (controlados). Quem roubou a rua às crianças devia ser preso. Acho que foi o diabo, não sei bem.

    https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1982116/mod_resource/content/1/ODiaboeaEscola.pdf

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    1. Obrigado Poeta, pelo que me acrescenta.

      E cá vai (por receio a quem lhe falte o gesto de abrir o link)

      O diabo e a escola

      “Conta o pedagogo suíço que um dia deu o diabo uma saltada à terra e verificou, não sem despeito, que ainda cá se encontravam homens que acreditassem no bem, homens bons e felizes. O diabo concluiu, do seu ponto de vista, que as coisas não iam bem, e que se tornava necessário modificar isto. E disso consigo: ‘A infância é o porvir da raça; comecemos, pois, pela infância’.
      Mas mudar a infância, como?! De repente, teve uma idéia luminosa: criar a escola. E, seguindo o conselho do diabo, criou-se a escola.
      “A criança adora a natureza: encerraram-na dentro de casas. A criança gosta de brincar: obrigam-na a trabalhar. A criança pretende saber se a sua atividade serve para qualquer coisa: fez-se com que a sua atividade não tivesse nenhum fim. Gosta de mexer-se: condenam-na à imobilidade. Gosta de palpar objetos: ei-la em contato com idéias. Quer servir-se das mãos: é o cérebro que lhe põem em jogo. Gosta de falar: impõe-lhe silêncio. Quer esmiuçar as coisas: constrangem-na a exercícios de memória. Pretende buscar a ciência de motu próprio: é-lhe servida já feita. Desejaria seguir a sua fantasia: fazem-na vergar sob o jugo do adulto.
      Quereria entusiasmar-se: inventaram-se os castigos. Quereria servir livremente: ensinou-se-lhe a obedecer passivamente. O diabo ria pela calada!
      “Durante páginas a fio, Adolphe Ferrière continua o seu requisitório contra a invenção diabólica que é a escola. Diz ele que não tardou que o regime desse frutos. A criança aprendeu adaptar-se a estas condições artificiais. Dir-se-ia, por um instante, que a escola levava a melhor. O diabo julgava-se vitorioso. Mas, de súbito, a história vira-se do avesso. O diabo calculara mal o negócio: esquecera-se de fechar a escola à sete chaves. ‘E viu-se a pequenada fugir para os bosques, trepar às árvores, e até fazer caretas ao pretenso homem de Deus. Viram-nos correr à aventura, governarem a vida, tornarem-se fortes, engenhosos e perseverantes. [...] O diabo, então, deixando de rir à socapa, rangeu os dentes, ameaçou com o punho, berrou: Maldita geringonça! E eclipsou-se. E com ele desapareceu a escola, que tão sabiamente imaginara.
      “As palavras finais do pedagogo suíço representam a moral da história, desafiando todos os professores a acabarem com estas gaiolas à moda antiga e a edificarem escolas novas.”

      (Adolph Ferrière,
      Transformons l ́école
      , Portugal, 1928

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  6. Porque ontem foi um dia especial em que outros valores se levantaram, só hoje pude ler este conto-crónica. Escusado será dizer que me encantei, e que o texto mre lembrou outros vales outras crianças igualmente entusiasmadas correndo atrás de uma bexiga de porco, feita bola de futebol.
    Adorei.
    Um abraço e boa semana

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