19 maio, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 18

 

Quando numa viagem, ao contá-la, falamos em encruzilhadas é mais que certo estarmos a fazer uma metáfora. A viagem, pode ser a vida e as encruzilhadas podem ser os pontos (situações e os contextos em que ocorrem) onde fazemos opções. Nesse sentido, e porque teremos de fazer opções no próximo Domingo, ocorre-me o conto "A Viagem", de Sophia. Devem lê-lo. Primeiro, porque é belo. Segundo por lhe dá orientação de voto.
E cito:
«Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse.
Surgiu uma encruzilhada. Aí viraram à direita. E seguiram.
- Devemos estar a chegar - disse o homem.
E continuaram.
Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe. A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
- Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.
- Deve ter sido na encruzilhada - disse o homem, parando o carro...» E mais adiante, escreve Sophia:
- Estamos a perder-nos cada vez mais - disse a mulher.
- Mas onde há outro caminho? - perguntou o homem.
E parou o carro.
À esquerda havia uma grande planície vazia; à direita uma colina coberta de árvores.
- Vamos subir ao alto da colina - disse o homem. ­
De lá devem avistar-se todos os caminhos em redor.
Subiram ao alto da colina e não avistaram estradas...
Não sei quantos parágrafos depois
- Vamos depressa - disse o homem. - Vem aí noite e ainda não encontrámos o caminho.
E foram quase correndo.
Entre as sombras do crepúsculo ouviram de repente vozes.
- Gente! - exclamou o homem. - Estamos salvos! - Salvos? - perguntou a mulher.
E de novo se ouviram vozes:
- Estão para aquele lado - disse a mulher, apontando para a esquerda.
- Não, estão para além - disse o homem, apontando para a direita.
O homem agarrou a mão da mulher e correram os dois para a direita.
Mas à medida que iam correndo, as vozes iam-se tornando-se mais distantes.
- Vão mais depressa do que nós! - queixou-se a mulher.
- Mas - respondeu o homem - se conseguirmos ao menos seguir a direcção que levam estaremos salvos. Assim foram, escutando e correndo, enquanto as sombras do crepúsculo cresciam. Até que as vozes deixaram de se ouvir e a noite caiu espessa e cerrada.
E, perto do fim do conto
Cheios de esperança, avançaram para o espaço descoberto, mas, saindo do arvoredo, encontraram à sua frente um abismo.
Debruçados espreitaram. Porém, à luz das estrelas nada viam diante de si senão um poço de escuridão, enquanto um frio de mármore lhes tocava a cara.
- É um precipício - disse o homem. - A terra está separada em nossa frente. Não podemos dar nem sequer mais um passo.
- Olha! - respondeu a mulher.
E apontou um estreito carreiro que seguia rente ao abismo. Tinha à esquerda uma alta arriba de pedra e à direita o vazio.
O conto termina em angustiado chamamento...
depois de um quadro claro
de um lado, o esquerdo, uma arriba de difícil escalada
do outro, o direito, o vazio que é menos que nada

7 comentários:

Lídia Borges disse...



Eu li o conto, tudo o que Sophia disse sobre. A vida, a sua efemeridade, a vida além da morte, os temas. A vida e quanto dela perdemos por não sermos capazes de ver como irrepetível cada momento que nos é dado viver.


[...]
Quero primeiro colher flores para levar.
Ajoelhou-se no chão e começou a fazer um ramo. E o homem reparou que ela colhia as flores arrancando-as com a raiz e perguntou:
- Por que é que colhes as flores com a raiz?
- Porque as quero plantar na terra para onde vamos.
Não sei se lá há flores iguais a estas - respondeu a mulher.»


Contos exemplares. 3.ª ed. Porto: Figueirinhas, 2006.

Hoje, também eu, "em viagem", mas, por caminhos outros, ainda que, de repente...



Lídia

Rogério G.V. Pereira disse...

Lídia,

Esperava a tua vinda
esperava que pegasses na "Viagem"
pela ponta em que a pegaste
Contudo,
te afastas-te da minha tese
mas daí não vem mal ao mundo

A Mulher, na Viagem, seguiu sempre
a opção recomendada pelo Homem
negando o lado esquerdo da vida

e no fim, ou vazio
ou a escarpa

Anónimo disse...

No final, o vazio ou a escarpa, embora saibamos bem que, mais passo, menos passo, também a escarpa desaparecerá para dar lugar ao vazio.

Abraço,


Maria João

Larissa Santos disse...

Excelente publicação :))

Hoje :- Abri a janela e deixei os sonhos entrar.

Bjos
Votos de uma óptimo Segunda - Feira.

Rosa dos Ventos disse...

Todos os contos dos "Contos Exemplares" são exemplares!

Abraço

Lídia Borges disse...


Claro que me afastei da sua tese. Tenho a minha.
Sabe que isso de seguir, seguir, assim sem mais, não me seduz. Mas é de Sophia que se fala e dela o que se comenta. O texto é soberano.

Lídia

Mar Arável disse...

A cada um a sua escarpa
nesta vida onda as palavras se desmoronam
mesmo belas
quando chovem as da poeta

Abraço